Eu estava lá

Gazeta Press

Ontem foi aquele jogo no qual em determinado momento a corneta se cala para ceder lugar à perplexidade por diversos motivos.

1 — O jogo está 0x0 e Renê recebe uma bola na entrada da área. Deve ter pensado “Se perco o gol, a corneta vai comer meu fígado vivo”. Resolveu passar e perdeu do mesmo jeito. Continuo querendo o fígado dele de qualquer jeito, mas pra dar pros gatos;

2 — Quando você pensa que a reação tá surgindo aí o juiz vai lá e breca seu parco entusiasmo;

3 — Vem o balde de água fria e você pode até pensar, “agora já era de vez”: e pode até cogitar voltar pra casa.

Entretanto aquela veia corneteira cede lugar à uma intuição de que vai acontecer algo especial e, na pior da hipóteses, vai exercer o seu ofício ao final da partida xingando mais um resultado negativo em casa.

A atmosfera e a intuição às vezes falam mais alto do que qualquer coisa, seja a expectativa do torcedor ou o pessimismo corneteiro.

Já vi vários empates memoráveis, como o 3x3 contra um Botafogo em 2007, um outro 3x3 contra o Vasco naquele fatídico ano de 2001, e mesmo terminando o primeiro tempo 2x4 algo me dizia que não levaríamos mais gols. Fazer mais dois era outra coisa, mas é aquela voz que nos diz “PAGUE PARA VER”.

Não precisei pagar outro ingresso, mas a despeito das recorrentes falhas defensivas de um time cujo setor era o menos pior, ter permanecido na Ilha foi como entrar num parque de diversões para ver a Monga e ainda dar uns pegas nela. Ou seja, improvável em todos os sentidos, até porque em tempos bicudos até a Monga me dar bola, está difícil.

Mas se não teve Monga me acalentando em seus braços, teve Gabriel Xavier fazendo gol e deixando Vitor com o bumbum no chão para, pasmem, o segundo gol de Edmilson em três jogos e já aí podia ver claramente as caixas de remédio pra pressão alta voando por sobre minha cabeça. Que, ela própria, corria o risco de sofrer um colapso àquela altura do jogo, onde tudo, absolutamente tudo poderia acontecer, inclusive o Atlético não fazer mais gols.

Como não o fez e dois minutos depois do terceiro, a falta cobrada por Diego Souza quase me faz clamar por uma ambulância do SAMU e gritar mentalmente “PORRA, RENÊ, POR TUA CULPA!” entre outras frases desconexas típicas de um malariento em delírios febris que vai demorar a assentar a adrenalina, os suores noturnos, a possibilidade de um aneurisma e chegar em casa como personagem de Eça de Queirós em fim de romance: com uma apoplexia.

A gente sai do estádio com cara de cachorro que lambeu graxa, porque sabia que, apesar de tudo, os três pontos seriam possíveis. Veio só um que valeu muito, somado às incompetências alheias que nos tiraram do Z4 e se não somos porteiros, ao menos agora, fora do presídio, a gente curte um indulto até tomarmos vergonha na cara e voltarmos a vencer em casa, de onde não podemos deixar de pontuar.

O time ao menos tá com cara de algo próximo desse nome. Ao invés daquele bicho preguiça movido a passiflorine que era sob o comando do Dr. Pombo de Rapina, valeu a entrega e pela tentativa heroica de fugir da corneta, porque só ela liberta.

E ficou o registro de um jogo memorável. Eu estava lá como estava em vários outros que forjaram este coração rubro-negro. Tem gente mais jovem do que eu que futuramente poderá sorrir ao meu lado à menção do jogo de ontem e dizer “EU ESTAVA LÁ”. Obrigado, Paulo Paiva, por apresentar a gente este ser humano que dirá isso.

Paulo Paiva/ Diario de Pernambuco
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