O silêncio dos inocentes

A caminhada do Sport no segundo turno é digna de um José Pimentel carregando uma cruz de cinquenta quilos até o Marco Zero para o drama da Paixão de Cristo, no qual o personagem, finado aos 33, é interpretado por um senhor de mais de 80 anos. Nem um Dan Brown imaginaria isso em seu xaroposo Código.

Apesar de, e apesar de, nossa sequência de jogos sem vencer nem alcançou nossa tradicional marca de dez partidas. E se chegasse só iria aumentar nossa desgraça, porque o Sport não tinha gordura alguma, parecendo ter se alimentado da ração humana que andam propondo por aí, e o raquitismo do futebol corresponde quase a uma anemia técnica e uma passividade moral que a vitória contra o Vitória não parece ter arrefecido.

O Sport é um clube silencioso, um time calado, com uma torcida atônita.

Silencioso porque, a despeito da presunção de inocência, a embrulhada na qual Juninho se meteu, merecia ao menos uma postura mais incisiva, dada a falta de compostura do projeto de atleta — que, acossado por uma acusação gravíssima, optou pela galhofa e pela pilhéria, onde tantos outros estariam preocupadíssimos com a sua imagem, com a sua carreira e com a sua própria liberdade — , muito certamente ciente da impunidade e dos critérios paternais com os quais essa diretoria elegeu para lidar com os seus subordinados.

Blindagem é uma coisa: acobertamento é outra. Parece que a diretoria optou pelo segundo e calou-se, interditando o debate e o questionamento, premiando o rapaz, que deveria estar refletindo, senão pelas suas ações (não sabemos o quanto ele é culpado, lógico), mas pela imagem negativa que já está em sua carreira. Decerto crê que a pecha de “vIdA lOkA” lhe cai melhor do que a certeza razoável de que é o que deveria ser, saindo de uma formação que, a rigor, prima também pela formação do cidadão.

E nem pra jogar uma bolinha decente. Não conta fazer gol no Náutico.

Até um peixe com amnésia lembra de fazer gol no Náutico.

O outro silêncio é o da torcida, que assiste ao jogo como quem tá vendo Temperatura Máxima no tédio dominical. Isso se deve ao fato de termos ficado tanto tempo dependente dos gritos narcisistas da torcida amarelinha e se hoje algum torcedor tenta puxar um coro, seja do grito de guerra, seja de incentivo, os assistentes o olham com certo susto e desdém, certamente o crendo maluco, enquanto voltam os seus olhos para seus fantasy games ou para a selfie sagrada de cada jogo. Mesmo naqueles que se arvoram como uma banda que chama o time, mas fica num exercício de solilóquio de cantorias complicadas e inócuas não deixam atrás, parecem que estão ali para bater ponto de torcedor alternativo, incapazes de conclamar o resto do estádio, senão quando apelam para o óbvio.

A julgar pela seleção criteriosa da direção do clube sobre quem pode ou não assistir às partidas do time, a coisa só piorará. Logo, ver a uma peça no Santa Isabel será mais excitante do que estar nas arquibancadas da Ilha. Verdade é que somos todos culpados por nossa apatia, mas estamos presos nela e longe de uma solução para o nosso silêncio.

Gazeta Esportiva

Quanto ao jogo de hoje, por mais que tivéssemos 20 mil torcedores em casa, o time segue em sua frequente modorra, sempre ajudando Fred a livrar-se da sua seca de gols e contando com a inteligência de camarão das nossas peças ofensivas, Rogério comprado a preço de ouro, vale menos que uma bijuteria da Rommanell, Osvaldo um concurseiro se mijando na hora que começa a prova e Juninho agindo como um trombadinha roubando a bola da pelada.

E o segundo tempo foi uma mistura de horário de verão dos outros, preguiça, desengano e desgraça. O juiz deve ter respirado aliviado quando terminou o jogo.

Ainda precisamos de 12 pontos. Quatro vitórias. Talvez venham, mas naquela agonia tão típica do Sport.

Nunca duvidem.

Like what you read? Give Corneta Sport a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.