Pausa para reflexões

Não conheço torcedor leonino que não tenha ansiado, principalmente após campanhas como a de 2000 e a tragédia que foi para o club passar cinco temporadas na Série B, para voltar e em duas temporadas conquistar um título nacional, para depois amargar mais dois anos na Segunda Divisão, pela modernização do Sport Club do Recife. Uma visão mais profissional, longe de amadores que faziam política no club (ou o usavam como plataforma política) que impedisse nossa gangorra irritante de acessos e descensos, que obviamente prejudicava a atração de investidores, causava perda de prestígio, além de tornar o clube um imenso depósito de jogadores de qualidade questionável carreados por empresários que loteavam o Departamento de Futebol.

Uma gestão como a de Gustavo Dubeux, por mais que se tenha um monte de prevenções contra a sua figura fora do club, foi um pontapé necessário para a modernização do Sport, mesmo com a queda na Série A em 2012 definiu os potenciais da nossa agremiação, seja esportivamente seja economicamente. A filosofia que foi implantada a partir de seu biênio fez com que as trapalhadas que Luciano Bivar ensaiava não fossem mais toleradas, porque danosas ao Sport e sua licença possibilitou a Martorelli dar continuidade a essa visão.

Até aí, nada demais, porque grande parte da torcida já não tinha mais saco para presidentes ou diretores que se escoravam em práticas ultrapassadas de gerenciamento esportivo, muitas vezes calcadas tão somente no velho “bocão”, de uma boa dose de arrogância e histeria, que levava a um gasto excessivo da parca receita do club, gerando endividamento — principalmente em questões trabalhistas — e fazendo do Sport refém da Justiça, quase sempre pagando fábulas a jogadores irrelevantes para nossa história, mas que foram trazidos para atender ao apelo da torcida por “nomes” e “medalhões” e pouco ou nada fizeram para justificar o investimento.

Subimos para a Série A em 2013 e a política do bom e barato deu certo no primeiro semestre, mas viu-se que era necessário ousar. Trazer Diego Souza naquele momento não foi uma ação ao estilo dos nossos velhos “bocões”, mas foi parte de uma estratégia de marketing que logo se fez perceber quando do aumento paulatino do quadro societário, ainda que num primeiro momento o acréscimo de sócios tenha sido irrisório, dentro do planejamento de médio prazo fez-se sentir e respaldar essa nova visão que evidentemente deveria se estender a outros setores do club, como o basquete. Fomos campeões brasileiros de basquete feminino, de hóquei, e também com essas duas modalidades fomos campões sul-americanos. Por mais que no caso do basquete a parceria tenha dado errado, porque quem o gerenciava queria fazer sem ter de responder ao clube, o fato é que o investimento deu retorno e o que deu errado não cabe a mim aqui tecer considerações a mais.

A verdade é que essa política modernizadora, as ações de marketing, principalmente as de responsabilidade social (Doador do Sport, Mães Segurança, Adote um torcedor) deram visibilidade ao Sport a nível nacional e internacional e recentemente as contratações de jogadores estrangeiros como foram feitas ajudaram nesse aspecto.

Porém, há erros evidentes na condução do club e cabe a nós, que o amamos e zelamos por ele, ficarmos atentos a tais erros.

Não somente eu, mas outros amigos, como o Blog Sport Fino, e muito mais gente, tem percebido no discurso e nas ações tomadas pelo club, um ranço higienista e gentrificador sobre quem deve ou não deve frequentar a Ilha do Retiro. É um perigo usar tais termos, porque poderiam parecer um clichê perigoso e apressado, mas à medida que as ações vão sendo tomadas, o senso crítico vai percebendo que não estamos tão equivocados em usá-los. A atual política de preços de ingressos é emblemático. Lógico que prezamos pela receita do Sport Club do Recife, mas em tempos nos quais se prega tanto a captação de receitas alternativas, a arrecadação de ingressos ficou para trás. Jogos de campeonato estadual a 30 e a 60 reais chega a soar como um escárnio dentro de qualquer cenário econômico, por mais que se apresente um paliativo como o do combo para os jogos na arquibancada da Geral da Sede, tanto para não-sócios quanto para sócios mesmo, que há muito questionam que as vantagens, por mais que tenha havido um acréscimo delas, ainda estão muito aquém do ideal.

Quando falamos de arquibancada da Geral da Sede logo nos vem à mente a questão da briga do Sport com a Torcida Jovem, cujo rompimento deve ser celebrado e ainda mais ressaltado depois de perdermos dois mandos de campo em jogos importantes (em 2014 ainda vencemos com os portões fechados na caminhada do título da Copa do Nordeste, ano passado podemos lamentar a perda da vaga na Libertadores por conta daquela punição cumprida contra o Atlético Paranaense). Mas Martorelli tem que colocar na cabeça de que não vai dar conta da organizada sozinho. Deixe isso na mão da PM e da Justiça. Depois da extinção do Todos Com A Nota, todo seu discurso é de justificar o combate à organizada por meio do encarecimento dos ingressos, o que evidentemente alija da vivência do club a parcela da torcida pertencente às classes mais baixas. E quando ele diz na entrevista dada ao Superesportes que não tem como agregar esse público, colocou-os praticamente junto aos “meliantes”, (como ele se refere aos integrantes da organizada), e diz que sua preocupação é que “ Minha preocupação dentro do sentido dos planos de sócios é para que possamos repor a quantidade de público que perdemos com o Todos com a Nota.” e depois diz, mais adiante que “ Esse público de fato se afastou e, se a gente não encontrar um mecanismo sustentável para poder financiar esse ingresso, não vamos poder agregar esse público. Porque futebol se faz com dinheiro. Para abrir a Ilha do Retiro tenho que ter operador, bilheteria e funcionários. Queremos baratear um setor do estádio para favorecer aqueles torcedores que não têm condições de pagar um preço maior ou de ser sócio. Mas isso tem que casar com a nossa política contra a violência.”

Ou seja, é chover no molhado. Porque por mais que a Polícia Civil indicie ou prenda os cabeças da TJS, o Juizado do Torcedor ainda acha que a mera ausência das camisas nos estádios é bom e a PM ainda escolta a quem deveria simplesmente impedir de entrar no estádio, para o mesmo. Martorelli é advogado, com décadas de experiência e sabe muito bem que a solução é complicada. Usar da justificativa da violência para impedir o acesso dos torcedores mais pobres é higienizar e gentrificar, não podemos ser mais incisivos do que isso. Até porque quando o próprio Martorelli desqualifica a categoria de sócio-torcedor dizendo “ E essa evolução não foi de sócios torcedores, que na realidade não são sócios. Esses apenas compram um programa para ter benefício no ingresso, mas não votam nem têm direitos estatutários. Não foi esse sócio que cresceu. O número que cresceu foi de sócios mesmo, de sócios contribuintes.” (Coloquei em negrito e em itálico porque foi das coisas mais absurdas que eu já li em se tratando do Sport), sinaliza para categorias mais caras (ou seja, se aumentou o número de sócios-contribuintes, aumenta logo a anuidade de R$40 para R$45 para capitalizarmos isso imediatamente), e demonstra uma insensibilidade imensa com a história do Sport, que se vangloria de agregar todas as camadas sociais.

Insensibilidade essa que ficou ainda mais patética com a embrulhada sobre como puxar o grito de guerra do club. Martorelli decidiu que seria “como foi, como é, como sempre será” obviamente preso a uma concepção gramatical tacanha que aqui não entra em jogo e quis (quer) que a torcida mude isso à força. Estranho que um advogado como ele, que sabe retórica, e que dada a bagagem cultural deva saber um pouco de análise do discurso que a forma tradicional é tão correta quanto a qual ele apregoa e sua postura cri cri e irritante é que deveria ceder ao bom senso.

Infelizmente essa postura de “elite pensante” é sintomática de coisas que podem ser danosas ao Sport Club do Recife (eu já as reputo como tal), e toda vez que o Sport quis bancar esse papo, só se deu mal. Porque cria-se uma bolha e dentro da bolha, ao invés de surgirem soluções, só aparecem planos mirabolantes, na maioria das vezes inócuos. E o caminho que o Sport merece trilhar não é de solucionáticas ditadas por senhores que ostentam siglas moderninhas, vangloriar-se de seis mil reais de lucro, cuspir na sua torcida como vem cuspindo por crer que ela é acéfala e acrítica.

Continuaremos a gritar “como é, como vai ser, e para sempre será”, continuaremos a clamar pelos mais pobres nas gerais, continuaremos a colocar o dedo na ferida, cornetando qualquer ideia de transformar o Sport num clube de poucos, quando o maior do Nordeste é o clube de TODOS.

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