Quem era Maria?

Jonatan Corrêa
Nov 7 · 5 min read

Por uma noite, por um momento em que pude me alienar dos problemas da vida, ela me voltou. Me voltou de rebote, sorrateira, a reboque numa alusão ao nome de sua filha, Maya, num filme ou vídeo ou num audiovisual qualquer. Esta Maya era uma moça livre e jovem, sabedora de sua liberdade e juventude. Na ficção descia dunas caudalosas, cruzando o deserto com invejável destreza sobre sua sandboard, e a personagem nada deixava a desejar à imagem, ainda que distante, que tenho da Maya real. Sei que esta pratica escalada regularmente, na montanha e na cidade, onde treina acompanhada de sua mãe. Também guiada por esta, destra pilota de Boeings, Maya conhecera boa parte do mundo ainda nova, e até onde pude perceber mesmo que de forma indireta, tinha ar de ser vivida para sua própria idade. Viu com seus olhos, sob a luz, o que a gente por volta dos quinze vê só a sombra por meio de livros e TV. Sorridente, leve, risonha e levemente irônica parecia ser Maya, a cria de Maria. E é assim sem dúvida por ser cria de Maria, a mulher que é rocha das mais firmes do que as que escalam, mãe e filha.

Maria tinha problemas como nós. Teve suas questões de criação e da vida em geral, como você e eu, e se apertassem-na do modo “certo”, a veriam se emocionar e até mesmo demonstrar um certo rancor, tão inerente aos humanos — principalmente aos que já sofreram. Mas isso não é Maria. É uma mínima parte de sua história, mas não a define. Maria é rocha, lembra? Absorve os impactos e segue sólida, além de sorridente, risonha e levemente irônica, o que a torna muito divertida. Companhia de primeira.

De onde me recordo, levava a vida como achava que devia. Gostava de filme velho e música lado B (até C). Era mais ela. Sábia e generosa na escolha das influências culturais. Queria ir ver o último do Almodóvar, até porque apesar da ascendência escocesa, tinha essa sedutora coisa meio flamenca, meio espanhola; mas também gostava de comer aquele hambúrguer prensadinho e tomar a Pilsen do boteco da esquina, provavelmente por conta da outra ascendência, essa bem brasileira mesmo. Na exposição no MASP, entrou em transe a admirar a figura pensativa da Tarsila, a que ilustra o início do texto. A solitude libertadora que habitava uma e hoje habita a outra. Soltei sua mão e observei de certa distância, com afeto e respeito, seus pensamentos, seu momento, seu espaço (já que a pintura que me tocou foi outra: “Operários”, devido ao meu momento diferente nesta caminhada).

Ainda que assim, culta, quando queria aderia às modas sem qualquer pudor ou vergonha. Fazia piada escrachada e ria das próprias bobeiras. Na onda da vida saudável, cultivava cogumelos para fazer a própria kombucha num grande recipiente de vidro sobre a estante mais alta da cozinha (ao lado do quadrinho da padroeira de toda mulher solteira moderna, santa Frida Kahlo). Um pote de aspecto terrível, basicamente bolor em conserva, um monstro de fungos autorreplicantes. — “Prova um gole, faz bem!” , durante um café da manhã, e eu de nariz torcido, pego desprevenido. Até que não era mesmo ruim…— Mas e daí? Este tipo de hábito de autocuidado é provavelmente uma das coisas que mantêm seu semblante impassível ao passar dos anos, e sua silhueta a inspirar comentários desejosos às mesas dos bares ou salões de aeroporto e viradas de pescoço ao desfilar na calçada. É bela por consenso. Bela a figura, mas também a alma, cintilante, presente, espirituosa e terna. A mesma cozinha abrigava sua coleção de méis coletados por aí, entre uma escala e outra de voos comerciais e viagens de férias. Explicava diante da minha impassividade que “são totalmente artesanais. Cada região tem suas espécies de flores, de abelhas… o que torna cada mel único!” enquanto alcançava entre os vidrinhos rotulados, na ponta dos pés, o único sem rótulo. “Este não se vendia. Tive de contrabandear numa garrafa pet, negociando com um local.”

Eu, perdido entre as pequenas colheres servidas sobre o pirex, ouvia enfeitiçado pelas histórias, pela expressão aventureira daquela mulher tão cativante. Não à toa era tão apaixonante; tinha por hobby contrabandear e colecionar a doçura do mundo.

Seu apartamento todo foi feito de suas histórias e de sua história. Foi claramente montado por si, para si. Era tomado de bom gosto e dos objetos que despertavam sua afeição, colonizado por mementos escolhidos a dedo. Uma estante de livros dos títulos mais variados, com uma charmosa escadinha metálica acoplada. Dois assentos retráteis de madeira logo na entrada, provavelmente retirados de algum (finado, espero) teatro de bairro e afixados ao piso de madeira, onde se descansava logo ao chegar em casa e retirar os sapatos. Quinquilharias felinas de seus quatro gatos que perambulavam pelas superfícies, presentes astutos do ex-marido visando conter seu ímpeto de ter mais filhos para criar e cuidar. Quadros, artefatos ou réplicas destes, de outras culturas (geralmente das em declínio; “Decadence Avec Elegance”, como costumava recitar) nas paredes brancas e lisas, e também sobre os móveis, sofá de se espalhar e tapetes a tornar tudo aconchegante, pequenos retratos de família, uma rede preguiçosa margeando a janela. Muitas plantas a arejar. Uma famosa plaquinha de trânsito paulistana estampava a porta do seu quarto, que quando aberta indicava com uma flecha a direção de seu aposento com a palavra “Paraíso”, e com outra o lado de fora, “Liberdade”. Seus objetos eram todos assim, diziam as coisas sem dizer, eram fruto de seu lirismo e bom humor.

Tinha um sorriso lindo, a Maria. Tão farto que franzia seus olhos de um jeito meigo, de te fazer desmanchar. O sorriso da moleca que guarda dentro de si apesar da pompa do uniforme de aviadora. Maria das boas conversas, da escuta atenta e do apoio incondicional. Da parceria de crime e do fogo. Da cumplicidade companheira e do charme que eu não resisti.

Por vezes pensativo em casa, era surpreendido por uma foto que me enviava por mensagem. As luzes todas da minha cidade, amarelas e brancas, mergulhadas no breu azul escuro, sob a perspectiva de seus olhos, dentro do cockpit cerca de onze quilômetros acima. Eu estava no meio de sua rota, e ela ao passar, se lembrava, me dava oi. Sempre quando eu ouvia aquele ditado batido de que devemos manter a criança que existe em nós, costumava desconfiar que era só argumento de adulto que insiste em ser birrento. Depois de Maria eu entendi. Ela conserva o melhor da infância, aquela leveza, aquele desdém espirituoso e criativo, aquele riso frouxo de quem não leva a sério. O mesmo que foi herdado por Maya, aquele de gente feliz. E se está em Maya, é porque é de Maria. Maria para mim foi e é hoje, ainda que só na lembrança, isso, porque é isso que oferece e cria no mundo. É o que escolhe todos os dias ser para si e para os outros, e é maravilhoso. A Maria que voa o mundo e que é mulher de verdades. E segue sendo por outros cantos, provavelmente por outros abraços. Para mim é história boa que seguiu seu curso. Voou.

    Jonatan Corrêa

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    Arquiteto com diploma. Músico, escritor, filósofo, desenhista, fotógrafo, daltônico e serumano sem diploma.

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