Confiança

Stella e Marli eram amigas. Marli apresentou Dirce a Stella. Mas Dirce era uma pessoa difícil: viúva, com três filhos adolescentes, um emprego estressante e um vício em cigarros que ela já tinha desistido de vencer.

Stella tem excelentes contatos profissionais e pessoais. Conhece centenas de pessoas, tem um círculo de amigos que está sempre se encontrando e tem enorme facilidade em conquistar novas amizades.

O mesmo não pode ser dito de Dirce. As dificuldades com as amizades se estendem ao campo amoroso: tem sido difícil para Dirce firmar com algum namorado ultimamente.

Porque Stella é uma pessoa muito amorosa e amiga, buscou aconselhar Dirce e trazê-la para junto de si e daqueles com quem convive.

Mas Dirce não é — como disse — uma pessoa de trato tranquilo. E Dirce “cismou” com uma grande amiga de Stella, Paola.

Cismou porque talvez Paola represente o que Dirce gostaria de ser e não consegue: feliz com o trabalho e o emprego, contente com seu relacionamento, de bem com os amigos e com a vida em geral.

Surge um homem por quem Dirce se interessa, Maurício. Chegam a engatar um romance. Uma noite, ele diz que vai para casa mais cedo, só que mente. Vai para um jantar na casa de Paola.

Maurício acaba encontrando Stella na casa de Paola. E — acreditando que Stella acabaria revelando a Dirce a sua mentira — conta ele mesmo a Dirce que fora a um jantar de Paola (e não para casa…).

Dirce se sente traída. Cisma que Paola e Maurício estão tendo algo a mais. E isso não ia ficar barato assim.

Uma mente doentia como a de Dirce aprecia planos mirabolantes e foi assim que ela se organizou para “acabar com Paola”.

Infelizmente, sobrou para Stella.

Num grupo de whatsapp, Dirce lançou um comentário maldoso: disse que, num almoço na casa de amigos, Stella havia exposto minúcias sobre a vida íntima de Paola.

E o que fez Paola?

Procurou Dirce para saber os pormenores das supostas revelações feitas por Stella. Tal qual a Cartomante que — ciosa de que o freguês que vai a uma “vidente” o faz porque tem algum problema — faz perguntas e afirmações genéricas, Dirce conseguiu convencer Paola de que sabia “detalhes” sobre a sua vida.

Paola, desolada e chorando compulsivamente, veio a Stella. E propôs uma “acareação”, em que ela seria a “juíza” e decidiria quem estava falando a verdade.

A resposta de Stella:

— Há quanto tempo você me conhece, Paola? Qual a fonte dessas informações de que eu “revelei coisas sobre sua vida íntima”? Você está dando crédito a quem? Me perdoe, eu prezo a sua amizade, mas sabe quando esse “encontro” que você está propondo vai acontecer? NUNCA!


Confiar…Confiar nos amigos, confiar no(a) parceiro(a). Não é à toa que tanta gente anda arisca, pois quem se entrega de peito aberto muitas vezes “quebra a cara”, se decepciona mesmo.

No caso, Stella é uma pessoa que não economiza seus afetos. Acredita na amizade, no companheirismo.

Afinal, se a gente se entrega pela metade…só leva a metade do que poderia levar de bom das experiências.

Ah, claro. Há as decepções. Mas — ainda assim — vale a pena tentar.

Só para arrematar, minha estória favorita sobre confiança.

Eros (Cupido) era filho da deusa do amor, Afrodite, e um imortal de beleza inigualável.

Já Psiquê, mortal, era uma das três filhas de um rei, todas muito belas, capazes de despertar a admiração de qualquer pessoa, tanto que muitos vinham de longe para apreciá-las. Logo, as duas irmãs de Psiquê casaram-se. Apenas Psiquê não arranjou marido, apesar de ser a mais bela das três.

É que Afrodite estava possessa com as peregrinações para ver as belas irmãs, já que, com isso, seu templo andava às moscas.

Consultando os oráculos (o Google da época), o rei e a rainha entristeceram-se pelo destino da filha, já que foram aconselhados a vestirem-na com trajes de núpcias e colocarem-na no alto de um rochedo para ser desposada por um terrível monstro!

Na verdade, tudo fazia parte de um plano da despeitada Afrodite, que estava roxa de inveja da beleza da moça.

Assim que a jovem foi deixada no alto do rochedo, um vento muito forte, Zéfiro, soprou e a levou pelos ares, deixando-a em um vale. Psiquê adormeceu exausta e quando acordou parecia ter sido transportada para um cenário de sonhos, um castelo enorme de mármore e ouro e vozes sussurradas que lhe informavam tudo que precisava. Foi levada aos seus aposentos e logo percebeu que alguém a acompanhava.

Só que, ao invés de um mostro nojento, pegajoso e fedorento, o marido que lhe havia sido predestinado era extremamente carinhoso e a fazia se sentir bastante amada.

Só havia um porém. O marido havia colocado uma condição, que ela não poderia vê-lo, pois se assim o fizesse o perderia para sempre. Psiquê concordou, pois estava loucamente apaixonada por aquele marido carinhoso, cheiroso, atencioso...

O fato é que o próprio Eros, que tinha sido encarregado de executar a vingança da mãe, acabou se apaixonando pela gatíssima Psiquê, mas queria se manter escondido por dois motivos: para evitar a fúria de Mammy e porque desejava que Psiquê o amasse por quem ele era e não por sua beleza ou pelo fato de ser um deus.

Com o passar do tempo, ela se sentia extremamente feliz, porque seu marido era o melhor dos esposos e a fazia sentir o mais profundo amor, mas — ao saber que as irmãs estavam no local onde houvera sido deixada em sacrifício, pranteando — ficou desolada e passou a pedir insistentemente ao marido que a deixasse ter com suas irmãs, para que soubessem que estava viva e bem.

Eros hesitou muito, mas acabou cedendo.

O reencontro gera inicialmente muita felicidade para as irmãs, mas subitamente dá lugar a inveja, e passam a enchê-la de perguntas sobre o marido. De início, Psiquê responde com evasivas. Mas depois, admite que jamais viu seu rosto.

Ardilosamente, as irmãs acabam convencendo-a que ela deveria vê-lo, pois poderia muito bem ser o tal monstrão, prestes a eliminá-la quando ela menos esperasse e ela se enche de curiosidade.

Para tanto, dão a Psiquê uma lamparina e uma adaga.

Quando a noite chega e seu marido vem ao quarto do casal, para mais uma maravilhosa noite de carícias divinas (!), Psiquê se esquece momentaneamente da combinação que fizera com as irmãs.

Porém, após algumas horas (!), Eros acaba adormecendo. Psiquê, então, insuflada pelas irmãs, acende a lamparina e a aproxima do marido.

Deslumbrada e estupefata, vê, enfim, que, ao invés de um mostro odioso, seu marido é a própria encarnação do amor e o homem mais lindo que jamais poderia ter existido.

Na sua perplexidade, Psiquê se descuida e acaba deixando pingar óleo quente da lamparina nas costas de seu amado, que, acordando assustado, fecha o semblante ao se dar conta do que acabara de ocorrer:

— Eu avisei que iria embora para sempre. O amor não vive sem confiança.

Sozinha e infeliz, Psiquê começou a vagar pelo mundo. Passando, assim, por vários desafios e sofrimentos impostos por Afrodite como uma vingança por ela ter ferido o seu filho, a jovem luta tentando recuperar o seu amor, mas acaba entregando-se à morte, caindo num sono profundo.

Ao vê-la tão triste e arrependida, Eros, que também sofria com a ausência da amada, implorou a Zeus que tivesse misericórdia deles. Com a concessão de Zeus, Eros usou uma de suas flechas, despertando a amada, transformando-a numa imortal, levando-a para o Olimpo.

A partir daí, Eros e Psiquê nunca mais se separaram. O mito de Eros (o amor) e Psiquê (a alma) retrata a união entre o amor e a alma.

Em grego “psiquê” significa tanto “borboleta” como “alma”. Uma alegoria à imortalidade da alma, simboliza também a alma humana provada por sofrimentos e aprovada, recebendo como prêmio o verdadeiro amor que é eterno.



Livremente adaptado de: KERÉNYI, C. Os Deuses Gregos. Trad. O.M. Cajado. São Paulo: Cultrix, 1993. SOUSA, E. História e Mito. Brasília: Ed. UnB, 1981.

Email me when Cristiana Cordeiro publishes or recommends stories