
CORAÇÃO ATEMPORAL
Morando no Rio sozinha por conta de uma proposta de trabalho irrecusável, Rosa tinha criado uma conta de Facebook somente para se manter atualizada sobre sua família e os acontecimentos em sua pacata cidade natal.
Sem muito tempo para ler mensagens com cãezinhos ou gatinhos fofinhos e sem a menor possibilidade de se expressar ideologicamente, sob pena de perder o bom emprego (já que seu chefe era simplesmente o Rei dos Coxinhas), Rosa via poucas outras utilidades na rede social, portanto tinha reduzido número de amigos e era muito rigorosa para aceitar novas amizades.
O problema é que seu nome era bastante incomum, dada sua origem húngara: Herczku… O que a tornava facilmente “localizável”.
Um sábado, depois de chegar do trabalho exausta, caiu no sono no sofá e acordou à noite, perdendo a hora do cinema que tinha combinado com as amigas. Mandou mensagem pedindo desculpas (e elas certamente compreenderiam, pois Rosa nem sempre conseguia dar conta de todos os seus compromissos e ter momentos de lazer).
Já que tinha perdido completamente o sono, resolveu ligar o computador e olhar no Facebook fotos do aniversário da sobrinha. Vendo os sorrisos felizes, lamentou não estar em casa, junto às pessoas que mais ama. O Rio é uma cidade incrível, a praia é maravilhosa, a violência é bem menor do que a mídia alardeia… Mas não é onde seu coração está.
Passando à lista de solicitações de amizade, foi excluindo a maioria, até que bateu os olhos em um nome que a deixou paralisada: Pietro Tartoni.
Pietro tinha sido o pivô do rompimento de uma grande amizade e, ao mesmo tempo, sua primeira decepção amorosa. De que valia, agora, passados tantos anos, retomar qualquer tipo de contato? Rosa nunca se imaginou falando novamente com ele. O que ele poderia ter em mente?
Naquela de “quer saber de uma coisa? o que tenho a perder?”, Rosa decidiu aceitar a amizade. Cinco segundos depois, já chegava uma mensagem de Pietro:
“Olá, Rosa. Com esse sobrenome, só pode ser a Rosa que conheci aos 18 e que me deu o maior “bolo” da minha vida!”
Herczku, claro! Mas tinha algo de estranho naquela história.
“Oi, Pietro. Há quanto tempo!”
Trocaram algumas falas sobre o que andavam fazendo, sobre trabalho, ele perguntando como ela tinha se adaptado à rotina na cidade grande, ela dizendo que, de verdade, não tinha… Até que chegaram inevitavelmente ao momento em que a conversa os levou ao passado, mais precisamente ao momento em que — pelo visto — algum mal entendido tinha feito com que Rosa passasse os últimos dez anos pensando que ELA é quem tinha levado o maior “bolo” da vida!
“Você não imagina o quanto eu sofri quando a Marta me disse que você não iria ao baile porque estava apaixonada por outro.”
Quando Pietro terminou de falar, foi como se um raio atravessasse a mente de Rosa: Marta! Então estava explicado!
Rosa e Marta tinham sido amigas desde a infância. Na adolescência, confidentes, divagavam sobre suas paixões (de início, platônicas). Estavam sempre uma na casa da outra, inclusive para dormir em finais de semana ou férias, embora morassem a dois quarteirões de distância.
Ao conhecer Pietro, Rosa estava com 16 anos. A família dele tinha se mudado há alguns meses e não era muito bem vista na cidade porque o pai de Pietro — diziam — tinha deixado tudo para trás por problemas com a Receita Federal.
Na escola, Pietro teve mais facilidade de se enturmar que seus irmãos mais velhos, porque era muito simpático e não ligava quando os outros faziam piadas ridículas a respeito de sua família.
Rosa acreditava que Pietro sequer notava a sua existência, embora fossem da mesma turma. É que havia sempre um bando de meninas grudadas em Pietro, cheias de risinhos e loucas para ganhar de volta alguma atenção.
Depois de um trabalho em grupo em que a professora de história não permitiu a livre escolha dos integrantes e fez, ela própria, um sorteio, tudo mudou.
O grupo de Rosa era formado por Marta, Lino e Pietro. E, como sempre, marcaram de fazer o trabalho, depois da aula de sexta, na casa de Rosa, onde eram esperados com um delicioso goulash.
Passaram uma tarde muito divertida e interessante e, para surpresa de Rosa, Pietro não tirava os olhos dela. Chegou um momento em que ela sentiu que suas bochechas coraram tanto que parecia que iam explodir.
A partir daquele dia, o assunto de Rosa era Pietro, embora nem tivesse coragem de falar direito com o rapaz. Marta a incentivava: “vai, sua boba! Se você não for, outra vai em seu lugar!”
No aniversário de 17 anos de Rosa, Pietro mandou-lhe um lindo buquê de rosas (o primeiro que ganhou em sua vida!) com um cartão bem sugestivo: “Tudo para e por você.”
E ficaram assim, ensaiando engatar um namoro, até o fim das aulas (os pais de Rosa eram muito exigentes a respeito de estudos e também rígidos nas questões de garotos: Agnes, sua irmã, só tinha podido começar a namorar oficialmente depois dos 18).
A grande expectativa era em relação à festa de formatura. Rosa sabia que aquele seria o momento mágico em que, enfim, conseguiria dar seu primeiro beijo em Pietro, por quem se encontrava perdidamente apaixonada.
Só que o destino prega peças, certo?
O pai de Rosa, médico, estava de plantão na cidade vizinha no dia da festa. Tinha acertando com um colega para sair a tempo de passar em casa e se arrumar. Mas uma chuva torrencial caiu bem no meio da tarde, o que já tinha deixado Rosa aflita.
Por volta das 17 horas, ligou para Marta:
“Ai, estou com medo de acontecer alguma coisa… De eu não conseguir ir… De me atrasar e do Pietro desistir…”
Marta riu e procurou acalmá-la, fazendo piada da situação. Só a tranquilizou mesmo ao dizer que podia contar com ela para avisar a Pietro caso houvesse alguma demora.
Para quem acredita nessas coisas, Rosa deve ter tido um presságio qualquer. Assim que desligou o telefone, ele tocou. Até pensou que fosse Marta de volta.
“Boa tarde. Aqui é do Corpo de Bombeiros. Houve um acidente no quilômetro 17 da Rodovia, com 2 mortos e 3 feridos. São 3 carros envolvidos e…”
Rosa não conseguiu esperar para ouvir o resto. Desligou o telefone. Correu pelas escadas até o segundo andar e já viu sua mãe pegando as chaves da caminhonete. Sem ter percebido, Rosa tinha repetido as palavras do bombeiro aos berros e todos na casa a tinham ouvido.
Sua irmã e seu irmão desceram imediatamente, pois já estavam prontos para a festa e saíram os quatro, vestidos com suas melhores roupas, sob forte chuva, rumo ao Hospital Geral, sem sequer saber qual era o estado e saúde de seu pai.
Felizmente, apesar da gravidade do acidente causado por um motorista de caminhão que dormiu ao volante, seu pai tinha tido somente ferimentos leves e tinha até ajudado a prestar os primeiros socorros aos feridos antes de todos serem levados ao Hospital.
Mas com toda aquela tensão e mais o trajeto de duas horas até o Hospital… foi-se a festa.
Rosa ficou triste, claro, mas sabia que Marta daria algum recado a Pietro, conforme tinham combinado… E, afinal, seu pai estava a salvo!
No dia seguinte, Marta estava antes das 8 na casa de Rosa.
“Oi, amiga! Obrigada por vir tão cedo! Está tudo bem agora, mas é muito bom você estar aqui…”
De repente, Rosa percebeu que Marta não poderia saber do acidente da noite anterior, mas ficou feliz de a amiga estar ali para saber dela.
Marta tomou a iniciativa de falar:
“Rosa, eu quero te falar algo muito importante. Eu já devia ter falado antes, mas não achava um jeito…”
Rosa conhecia Marta, por isso mesmo ficou aflita com aquele tom reverencial.
“É que eu e o Pietro estamos namorando. Eu expliquei para ele que algo devia ter acontecido para você não ir à festa. Mas ele disse que era melhor assim, porque ele estava apaixonado também por mim e não queria ferir seus sentimentos e…”
“Marta? O que você está falando? Você “também” estava apaixonada pelo Pietro? Há quanto tempo? Por que não me disse?”
“Eu não sabia como dizer. Vocês dois são as pessoas mais importantes pra mim! Eu também não queria te machucar!”
“Pois saiba de uma coisa, dona Marta! As pessoas mais importantes pra mim são a minha família. E ontem meu pai quase morreu, entende? Foi por isso que eu não fui à festa. E eu contava com você.. Mas… deixa pra lá. Vocês dois são dois falsos. Eu entendi tudo errado. Entendi que ele gostava de mim. E entendi que você era minha melhor amiga…”
E Rosa entrou. E Marta foi embora. E dali em diante, nunca mais se falaram. Marta escreveu algumas cartas de desculpas para Rosa, que as recebeu, leu e rasgou. O namoro de Marta e Pietro — pelo que Rosa soube — não foi nem adiante.
Chegaram as férias e cada um partiu para um canto diferente, e, logo na sequência, também foram para outras cidades maiores, para cursar universidade. E nunca mais se viram ou se falaram. Até agora.
Rosa levou alguns segundos até processar a frase que Pietro tinha acabado de dizer: “…Marta me disse que você não iria ao baile porque estava apaixonada por outro..”
“Isso jamais aconteceu, Pietro.”
“Como?”
Então, Rosa contou do acidente, do pedido que fez a Marta e de como rompera com a amiga depois que ela revelara que estava namorando com Pietro porque estavam apaixonados.
Pietro soltou um longo suspiro.
“Rosa… Eu nunca namorei a Marta…Eu era completamente apaixonado por você.”
Rosa sentiu um aperto no coração, como um efeito retardado da traição.
Deu uma olhada no perfil de Pietro no Facebook. Bingo! Solteiro, no Rio de Janeiro.
“Pietro, o que você tá fazendo agora?”
Ele pareceu surpreso, mas não levou muito tempo pra se recuperar.
“Tô saindo pra dar uma volta com meu cachorro. É um buldogue francês, sabe? O nome dele é Chico. Você tá aqui pela Zona Sul?”
“Tô no Flamengo. Chego aí rapidinho. Vocês me esperam?”
“Vocês?”
“Ué? Você e o Chico.”
“(Risos) Claro! Esperei 10 anos, por que não uns 20 minutinhos. Pode deixar que explico pro Chico que você vale a pena esperar o tempo que for…”
Enquanto pegava a bolsa e parava em frente ao espelho para passar um batom, Rosa se perguntou por que Marta teria inventado aquilo tudo… Inveja, ciúme…?
“Sabe-se lá por onde anda Marta. Não vale o tempo de demonizá-la. Mas Pietro está logo ali e talvez agora sim seja a hora certa de viver não aquela paixonite adolescente mas uma nova, adulta, madura e grande paixão.”