Da série “Amor Bandido”
Te quero porque… Te quero apesar de…: quando o síndeto faz diferença.
Não ouso me alongar aqui sobre considerações psicológicas dos motivos pelos quais uma mulher (de qualquer idade) tem fascínio por bandido. E olha que ele não precisa ser um “bandido light”. Aliás, pode ser um facínora: seria killer ou estuprador em série. Pode ser um famoso que bandeou pro lado da criminalidade, até.
O sex appeal desses sujeitos levou, por exemplo, o Maníaco do Parque a ser o campeão de cartas de amor e até a se casar com uma mulher de classe média (posteriormente se separaram).
Para quem quiser se aprofundar mais, há diversas leituras bacanas, desde o livro Loucas de Amor, de Gilmar Rodrigues (http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10390), até matérias que rolam aqui na internet, bem elucidativas: as da Gazeta (http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2013/11/voce_ag/revista_ag/1467549-amor-bandido-mulheres-vivem-nas-portas-de-presidios-a-espera-de-seus-amores.html) e do Bolsa de Mulher (http://www.bolsademulher.com/amor/amor-bandido/) são dois exemplos. “Googlem” à vontade!
Semana passada me vi às voltas com essas mulheres.
Seriam casos idênticos de “amor bandido”?
A primeira, presa ao levar drogas para o companheiro no presídio. Mãe de uma criança pequena, sem jamais ter tido qualquer envolvimento com a criminalidade, manicure em um salão.
O próprio companheiro — respondendo, agora, ao segundo processo por tráfico — está, aos 23 anos, cumprindo pena de 5 anos, pelo primeiro processo por tráfico de drogas: 17 g de cocaína e nada de armas. Condenação por outra Vara.
Vejam só, enquanto juíza, numa situação idêntica, esse mesmo rapaz de 23 anos sequer estaria preso e — por conseguinte — a sua mulher não teria feito o papel de “mula”.
Na “minha Vara”, o “vapor” que “roda” pela primeira vez faz jus a um benefício da Lei de Drogas que possibilita a redução da pena de 1/6 a 2/3 “desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa”. Ou seja, de 5 anos a pena cai — com a redução máxima — para 1 ano e 8 meses e daí nem precisa ser cumprida em prisão: pode ser substituída por algo mais útil à sociedade, menos dispendioso para o contribuinte e mais pedagógico para o apenado.
Convicta de que a questão das drogas não é cuidada de forma adequada, o que assisto são essas famílias desmanteladas, até porque esse “vapor” não é um “Chefão” mas um mero “assalariado” da Boca, que ganha por “carga” vendida, e, em geral, tem baixa escolaridade, foi pai muito cedo e não consegue se inserir no mercado de trabalho: por todos esses motivos e também porque é usuário e, enfim, também porque tem problemas com a Justiça… Êita CICLO VICIOSO!
A segunda mulher, muito jovem (uma menina!), muito arrumada, não estava presa. O preso era seu “noivo”, por um roubo com emprego de arma. Entrou acompanhada da sogra, e chegaram a ser momentaneamente retiradas da sala de audiências após a vítima declarar que vinha sendo ameaçada por telefone.
O réu, de 18 anos, entrou na sala de audiências cabisbaixo e mal começou a falar já se debulhou em lágrimas.
Talvez porque tenha dado — como costumamos dizer — “sorte”. Ele e um comparsa pegaram um carro e saíram para roubar. Coisas pequenas: celulares, cordões… Mas que, no conjunto, dão um “retorno” razoável, nos camelódromos que vendem objetos de procedência duvidosa.
Perseguidos pela Polícia, foram detidos. O comparsa fugiu, houve troca de tiros, outras viaturas vieram em apoio e o jovem acabou morrendo em confronto. O nosso réu passou um tempo “fingindo” ser vítima de sequestro-relâmpago (segundo suas próprias palavras “porque tinha muita gente e ficou com medo de apanhar”). Com a chegada da vítima, foi prontamente reconhecido e revelada sua farsa: tinha sido ele, aliás, quem rendera a vítima, sob a mira de arma de fogo!
Pelo concurso de pessoas e emprego de arma, a pena inicial de roubo, de 04 (quatro) anos de reclusão inevitavelmente seria aumentada, conforme a Defensora vinha explicando ao rapaz, quando o réu (repito, de 18 anos), subitamente se “recordou” que não se tratava de seu primeiro processo, pois já houvera sido preso anteriormente, por porte de arma (e bem sabemos que — no mais das vezes — quem, aos 18 anos, porta ilegalmente armas na Baixada não é só por “portar”, mas como antecedente de algo pior que está por vir…).
Informado, então, que sua pena seria ainda mais exasperada pelo fato de ser reincidente, o garoto desabou e chorou copiosamente.
Lá pelo fim do interrogatório, fiz uma pergunta para a qual, naquele caso, não conseguia vislumbrar uma resposta ululante: qual o MOTIVO do crime?
E a resposta do réu: “a senhora não iria acreditar.”
Eu, cá com meus botões, pensei que há muito pouco hoje em dia que me surpreende e pedi que ele me contasse.
“Sabe, nós íamos no casar e faltavam algumas coisas para a casa”…
Um pouco antes de dispensar o réu de volta à carceragem, permiti que se sentasse ao lado da mãe e da noiva e me ouvi dizendo:
“Vê se não faz sua noiva te visitar na cadeia!”
Ao deixar o Forum, já no fim do expediente, uma cena que se repete: do outro lado da rua, sob o letreiro luminoso do Supermercado Mundo Novo (!!), as “SOESETES” (por conta de SOE — Setor de Operações Especiais — logo estampada no furgão que transporta os presos dos presídios aos prédios da Justiça, nos dias de audiências).
Foi assim que apelidamos as mulheres dos presos, que comparecem também, chova ou faça sol, e praticamente seguem em vigília, como nos hotéis que hospedam grandes astros pop, nem que seja na tentativa débil de acenar para seu homem…
Email me when Cristiana Cordeiro publishes or recommends stories