DENDROCRONOLOGIA

Os pingos grossos de chuva obrigaram Tábata a se refugiar sob a marquise de um dos poucos prédios remanescentes da primeira metade do século XX, uma tradicional galeria comercial perdida entre os grotescos arranha-céus que simbolizavam a “revitalização” daquela área da cidade.

Chegou a bolsa o mais perto possível de seu rosto e estava a procurar um pequeníssimo guarda-chuva, quando sentiu a pressão de uma mão sobre seu cotovelo.

Instintivamente, agarrou-se à bolsa enquanto tentava se desvencilhar da abordagem, quando então ouviu:

“Tatá, calma! Sou eu, Guto!”

Fazia tempo que não ouvia isso, mas se sentiu aliviada ao ser chamada pelo apelido de infância pois não se tratava, afinal, de roubo ou sequestro-relâmpago.

Refeita do susto, passou os punhos da camisa pelas lentes dos óculos na vã tentativa de desembaçá-las e forçou um sorriso por alguns segundos, na busca de que pasta de qual diretório mental tinha armazenado aquela pessoa que estava ali, de braços abertos, no aguardo decerto uma resposta no mínimo entusiasmada.

Um homem de seus quarenta e poucos anos, pele bronzeada e cabelos ralos. Vestia calça jeans, camisa de malha e jaqueta de couro, mas era possível perceber que tinha diversas tatuagens, pois “escapavam” pela gola da camisa e pelos punhos. Mais baixo que a média, usava botas com algum salto, para compensar. “Uma figura”, pensou Tábata.

Talvez percebendo a dúvida, Guto logo passou a falar:

“Que grosseria a minha! Encontro você depois de tantas décadas e tudo que consigo é te dar um susto?! Sou eu, Tatá, Guto, irmão do Joca e do Celinho, filhos da dona Franca…”

Tábata retribuiu o abraço enquanto pensava como, afinal, ele queria ser reconhecido, quando quase 30 anos haviam se passado desde a última vez que tinham se visto.

“Tatá, nossa… Você não imagina… Você tem algum tempo disponível? Podemos tomar um café?”

Ela olhou para as grandes poças que se formavam na calçada — ou no que havia restado da calçada, quase toda tomada por tapumes de obras da Prefeitura — e pensou que, afinal, estaria sitiada ali por alguns minutos. Por que não um café?

“Ok, Guto. Será um prazer. Tenho alguns minutos, apenas. Pode ser um café rápido?”

Guto sorriu largamente, e então Tábata concluiu com um estalo doloroso a recapitulação mental que vinha fazendo a respeito de seu parceiro de café naquela tarde.

Tábata, suas irmãs e seus tios moraram anos numa calma rua sem saída, onde havia várias famílias com crianças.

No início, tudo tinha sido muito difícil para todos, claro, pela circunstância trágica da morte dos pais, que levara as três meninas a deixarem o interior e virem para a cidade grande. E, também para os tios, que tiveram de vender o apartamento bem localizado na zona sul da cidade e se mudar para a zona norte, voltando a cuidar de crianças pequenas quando seus próprios filhos já haviam crescido e saído de casa.

Dona Franca era antiga na rua e morava sozinha com os três filhos. Havia diversas “versões” para a ausência do marido na casa, mas Tábata veio a saber, com o tempo, que um dia ele havia saído para trabalhar e depois nunca mais tinha voltado e que ninguém nem sabia se ele estava vivo ou morto.

Talvez tanto infortúnio tenha sido o ingrediente que aproximara Tatá e Guto, desde o primeiro instante. Inseparáveis, só não estavam juntos no horário escolar e na hora de dormir, porque até as refeições faziam um na casa do outro, quase todos os dias. A proximidade das famílias era tanta, que costumavam passar Natal e Ano Novo na companhia uns dos outros.

Com o passar do tempo, os demais vizinhos foram também se mostrando excelentes pessoas, e — exceto o Seu Aníbal, da 31 — todos eram bastante colaborativos.

Mas nenhum dos amigos era tão próximo quanto Guto e Tatá. E foram, assim, crescendo, até que Guto, numa tarde também chuvosa, veio com a novidade que mudaria tudo: estava apaixonado.

Tatá vibrou e comemorou (eles não tinham segredos) e achou graça de que tivesse sido ele (e não ela) o primeiro a se enamorar de alguém. Eles costumavam fazer apostas sobre quem seria o primeiro a fazer qualquer coisa!

Mas subitamente a menina se deu conta de que Guto trazia uma expressão de pesar, quase de medo.

“O que foi, Guto? Você é o cara mais maneiro que eu conheço. Tá com medo de quê? Se alguma doida não te quiser, é porque não é merecedora!”

“Você se acha merecedora?”

Tatá não tinha namorado, mas já tinha ficado com um menino da escola. Não era nada demais, só curtição. E treino — ela dizia — para quando aparecesse seu verdadeiro amor. E tinha contado, claro, do seu primeiro beijo para Guto.

Foi depois disso que ele se declarou. E depois que ele se declarou, nada voltou a ser como antes. Ela não conseguia vê-lo como namorado. Ele não queria tê-la somente como amiga

Coincidentemente (ou não?), algumas semanas depois, o tio de Tábata recebeu uma proposta de trabalho irrecusável, fora do país. Era uma oportunidade excelente para a família, com escola garantida para as meninas até o ensino universitário.

Tábata chegara a tentar se despedir, mas Dona Franca a convencera do contrário: Guto estava sob acompanhamento médico por conta de uma depressão e havia apresentado algum progresso. Melhor não arriscar.

E, assim, haviam se passado 30 anos. Mesmo tendo voltado ao país diversas vezes, nunca havia procurado saber de Guto… Sentia uma leve ponta de culpa começar a brotar em sua consciência…

O cheiro do café era delicioso: café tradicional, coisa rara nos dias de hoje.

Entre o barulho de xícaras e colheres, e conversas alheias, Tábata e Guto conversaram, apoiados no balcão da cafeteria.

Ele sabia das vindas dela ao Brasil, sim, e da carreira como arquiteta. Também acompanhava seu trabalho como artista plástica e chegara a ver uma de suas obras expostas na última Mostra de Rua.

“Como, tudo isso? Minhas irmãs?”

“Isso. Sou amigo das duas no Facebook. É por lá que tenho acompanhado suas andanças…”

Tábata sorriu. Esquecera-se de que, embora ela não usasse as redes sociais, suas irmãs viviam conectadas e costumavam postar fotos de suas obras e viagens internacionais.

“Bem, Guto. Como você percebe, eu não tenho Facebook. E você, então, como está? Estou totalmente desatualizada!”

Guto sacou um smartphone de última geração do bolso da jaqueta e passou a mostrar várias fotos, enquanto explicava que havia feito engenharia e tinha começado uma empresa com Celinho, com algumas obras e contratos importantes, sendo inclusive o motivo pelo qual estava no centro àquela hora. Casara-se três vezes e tinha um filho de cada casamento, aos quais pagava pensão mas raramente via.

Passou rapidamente pela foto em que aparecia abraçado a uma moça jovem, de biquini, provavelmente em alguma praia do Nordeste e sorriu como quem pedisse desculpas.

Tábata riu:

“Guto, que bom que as coisas estão bem para você. Fico muito feliz”

Tábata pensou em perguntar sobre Joca e sobre dona Franca, mas temeu ouvir notícias ruins e ter de prolongar a conversa. Guto deve ter pressentido que ela desejava se despedir.

“Posso te ligar, para fazermos alguma coisa, um dia desses?”

“Claro, Guto. Tome aqui meu cartão.”

Dito isso, Tábata fez menção de abrir a carteira para pagar o café, mas foi impedida:

“Foi só um café!”

Levantaram-se, abraçaram-se rapidamente e Tábata seguiu seu caminho até a avenida principal, onde pegou um táxi para o hotel. Fazia anos que desistira de se hospedar na casa das irmãs nas suas estadas no Brasil, embora se encontrassem quase todos os dias.

Ainda no caminho, ligou para Cibele, sua irmã caçula, pois sabia que Geisa provavelmente ainda estava presa no consultório.

“Adivinha quem eu acabei de encontrar?!!”

“O Guto, do Méier. Aliás, o Guto do Leblon agora..”

“Como você sabe??”

“Facebook, sua tonta. Se você fosse menos jurássica, você saberia do que eu tô falando.”

“Mas, como assim? Que mágica é essa??”

“Ele marcou aqui o encontro de vocês, na Cafeteria do Antonio, no centro.”

“Fala, menina, como assim? Ele não tirou nenhuma foto, ou nada parecido.”

“Nem precisava. Ele diz: de repente, numa tarde chuvosa, você revê o único amor da sua vida. E ela vai embora antes que você consiga dizer isso.”

Tábata estava chocada. Afinal, depois de 30 anos, não passavam de completos estranhos. E, durante todo esse tempo, ela tinha amado tantas pessoas, sido tantas vezes feliz…

Foi aí que Cibele lhe contou que há tempos Guto a vinha perturbando, pedindo o contato de Tábata, e como fazia comentários até embaraçosos todas as vezes que ela postava alguma foto recente da irmã: “sempre gostosa, linda, não mudou nada, eterna adolescente”…

Chegou ao hotel e entrou no quarto afobada. Tirou os sapatos e ligou seu laptop para fazer algo que jamais imaginara: criar uma conta no Facebook!

Não foi muito difícil chegar ao fim do processo. Começou rapidamente a receber solicitações de amizade depois que adicionou suas irmãs e seus primos ao seu grupo de amigos.

Até que, lá pela meia-noite, atingiu seu objetivo: solicitação de amizade de Guto Sartori e, em seguida, engrenaram uma conversa por vídeo:

“Você é cheia de surpresas, Tatá! Criou uma conta só pra falar comigo?”

“Isso mesmo, Guto. Eu sei que você deve estar querendo falar muitas coisas, mas eu também preciso falar. Você pode me escutar um pouco?

“Claro, claro, minha linda, o que você quiser!” Ele parecia incrédulo, um nômade diante de um oásis, depois da travessia de um longo deserto. Ficou quieto como um cão obediente.

“ Nos últimos 30 anos, vivi muitas coisas. Assim como você deve ter vivido, também. Não sou mais a Tatá que você um dia conheceu, que foi sua melhor amiga…”

“Por quem me apaixonei…”

“Isso. Aquela era a Tatá. Eu sou a Tábata Miranda, arquiteta, 43 anos,vegetariana, maratonista, solteira, sem filhos por opção, sem gatos, sem cachorros, sem vínculos. Minhas coisas cabem em algumas malas. Moro mais tempo em hotéis do que no pequeno apartamento que tenho em Barcelona…”

“Talvez porque você não tenha encontrado a pessoa certa…”

“Não, Guto. Eu encontrei muitas pessoas certas, que deram certo pelo tempo que tinha que ser. Mas não me prendo a pentimentos.”

“Como??”

“Há alguns anos, li uma crônica do Contardo Calligaris com esse nome. Pentimento, em italiano, significa arrependimento. E, aparentemente, você tem passado sua vida alimentando uma fantasia do ‘E SE’ comigo, fantasia essa que não faz qualquer sentido…”

“Mas você não entende? Você me marcou!”

“Claro que entendo. Você já ouviu falar em Dendrocronologia?”

“Ahn?”

“ Como você deve ter visto, gosto muito de usar madeira em minhas obras, sempre procurando preservar o meio ambiente. Isso me fez aprender certas coisas. É o método científico que determina a idade das árvores de acordo com o número de anéis no tronco: o clima influencia diretamente na formação desses anéis. Quanto melhores forem as condições climáticas, mais largos serão os anéis de crescimento. Você deixou em mim uma marca: um anel largo e significativo, muito rico para a minha história. Mas outras histórias vieram depois, e hoje, sob a minha ‘casca”, há um troco de diâmetro bem mais extenso.”

“ É uma pena que você pense assim… Na essência, somos os mesmos…”

Tábata saiu da ligação aliviada por ter sentido tranquilidade e resignação no tom de voz de Guto. E meses se passaram antes que se lembrasse daqueles fatos outra vez.

“Tá online, sua tonta?” — era Cibele, sua irmã mais nova. Geisa não a chamaria assim.

“Você tem ideia de que horas são aqui?”

“Perfeitamente. São onze da noite, portanto posso te chamar pelo Skype. Você não entra no Facebook há quanto tempo?”

“Ih, Facebook? Só entrei daquela vez, como te contei, pra acertar as coisas com o Guto…”

“Ah, então. É dele mesmo que quero falar. Abre aí seu Facebook.”

Tábata suspirou. Cibele era muito insistente. Achou melhor fazer logo o que ela pedia, para voltar para debaixo das cobertas e tentar dormir. Do lado de fora, fazia um frio de menos 10.

98 notificações, 100 pedidos de amizade… Não foi boa ideia deixar de acessar aquilo por tanto tempo.

“Ok, sua chatinha. Tô no Facebook. Agora, o quê?”

“Vai no perfil do Guto!”

Na foto de perfil, o mesmo Guto que tinha encontrado na galeria do café. Mas na foto principal e na sequência de fotos da linha do tempo, registros de um casamento.

“A noiva, tá vendo??”

Tábata colocou os óculos e aproximou a foto… Não podia ser!

“É quem eu tô pensando???”

Era.

Quando Guto caiu em depressão, a maior parte dos amigos da rua se afastou. Os mais chegados ficaram assustados e tinha aqueles que já não topavam com o Guto mesmo, ou por causa da história do pai dele ou de um certo sarcasmo com que ele tratava os pouco inteligentes.

A única pessoa que não arredava pé da casa de Dona Franca era Rita. Rita era a menina mais sem graça da rua. Numa época em que não era moda ser muito magra, ela era apelidada das coisas mais terríveis por causa de suas pernas e braços finíssimos.

Guto e Tatá não faziam nenhum tipo de atrocidade com Rita, mas também não lhe davam muita conversa, tudo porque desde bem pequena Rita dizia que iria namorar o Guto, e ele não via a menor possibilidade de isso acontecer! Corria de Rita como o diabo corre da cruz!

Pois lá estavam, vestidos de noivos, Guto e Rita. Tábata não teve muitas dificuldades em reconhecê-la, porque ela continuava muito magra e praticamente com a mesma cara que tinha quando era criança, porém tinha se tornado mais interessante. Rita tinha um irmão que, na época, já estava na faculdade e ele (mais fácil até de reconhecer) aparecia todo sorridente ao lado dela nas fotos.

Cibele ria:

“Você acredita nisso??”

Tábata acreditava. Era uma questão dos tais pentimentos…

Despediu-se carinhosamente da irmã e voltou para sua cama. Ao lado, as malas já prontas para a viagem da noite seguinte.

Adormeceu feliz, por sentir que seus anéis vêm se acumulando, ao tempo em que ela vai seguindo sempre adiante, sem precisar se enraizar em nome de uma fantasia ou somente para dar satisfação aos outros.

Fim

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