Fio da Meada V


Sidney, Austrália

Paul não abria mão de jantar à mesa, formalmente, mesmo depois que os filhos haviam partido. Ainda que sozinho. Não importava. Para Marjorie, era uma chance de preparar algum prato exótico e surpreendente que tivesse aprendido em programas de reality show na TV ou mesmo em vídeos de sites dedicados ao tema, na internet — que, por insistência de Jack, seu filho mais “antenado” — havia se rendido, enfim, a usar com mais frequência.

A rotina dos dois não era muito diferente dia após dia: logo de manhã, Marjorie levantava cedo e deixava o café pronto para que Paul tomasse o desjejum assim que voltasse da corrida com Ziggy.

Ziggy, agora um senhor de nove anos, era o golden retriever que Jack, Grace e Olivia insistiram em ter após a morte do primeiro cão da família, Jasper, um simpático, discreto e portátil chihuahua que vivera por quinze felizes anos.

As circunstâncias da morte de Jasper acabaram forçando Marjorie a tolerar aquele encargo, mesmo tendo prometido a si própria e alardeado diversas vezes que jamais teria outro cão depois que Jasper se fosse, pois os filhos já estavam crescendo e, quando partissem para a universidade, seria ela quem ficaria com o trabalho…

Grace tinha sido uma criança muito tímida e Jasper a ajudou bastante nesse aspecto. Ao passear com Jasper pelas ruas do bairro (muitas vezes num carrinho de bonecas e, não raro, vestido de boneca), Grace acabou fazendo amigos e ficou popular entre as meninas (cujos pais, em geral, tinham cães de guarda e não cães “de brinquedo”…).

Na época em que Olivia era um bebê, Jasper também contribuiu para amenizar os ciúmes de Grace: Olivia fazia gracinhas mil tentando atrair sua atenção, e a resposta do cão era pular no colo de Grace, que se enchia de orgulho (embora quando Grace não estivesse por perto, Jasper bem que correspondesse aos gracejos da pequena Olivia).

Quando Jack nasceu, Jasper ficou todo o tempo junto a Grace e Olivia, distraindo-as e preservando Marjorie — cujas energias pareciam estar abaixo de zero, amamentando aquele bebê de quase cinco quilos.

Apesar da predileção por Grace, Jasper sempre foi um cão muito atencioso com a família inteira. Como faziam muitas viagens juntos e Jasper era “portátil”, ele também era companheiro nessas aventuras (brincavam, até, que Jasper deveria escrever um Guia Canino para Viajar sem Grilos, Pulgas e Carrapatos).

Certa vez, Paul ficou de cama duas semanas, por conta de uma crise renal, e Jasper fez vigília a seu lado. Na hora da medicação, se punha de pé e observava, atento, se os medicamentos estavam sendo ministrados corretamente (Grace garante que Jasper chamou sua atenção, latindo, quando uma vez ela ia esquecendo uma das pílulas).

E assim foram se passando os anos, com aquele membro canino da família, que aparecia em todas as fotos, ganhava festas e presentes de aniversário e de Natal…

E por isso sua partida foi devastadora. Era o primeiro ano de Grace na universidade e todos estavam ansiosos por sua chegada para o Natal, inclusive Jasper.

Quando a porta se abriu e Grace entrou, chamando “ — Jasper, filho lindo da mamãe!”, o cãozinho pulou da poltrona e correu até a porta, deu um salto e se aninhou nos braços de Grace.

Estavam todos na sala, e era emocionante a alegria de Jasper, que não via sua “escolhida” há quase um ano.

Grace, que até há poucos instantes estivera rindo, quase gargalhando, subitamente começou a chorar, apertando Jasper contra seu corpo.

Paul, que vinha logo atrás carregando as malas, olhou, perplexo, para todos e puxou Jasper dos braços de Grace: foi então que todos compreenderam o que havia ocorrido.

Emocionado, exultante, desmedidamente feliz, Jasper exigira demais de seu pequeno coração, que amou um amor tão grande quem nem cabia mais ali dentro.

O efeito catastrófico da morte de Jasper tornou aquela, disparada, a pior semana da família, em todos os tempos.

Ainda assim, Grace, Olivia e Jack se reuniram e apresentaram uma “proposta”: queriam um novo cão. Um cão que precisasse de um lar, um cão que estivesse num abrigo e que seria sacrificado caso não aparecesse um interessado.

Decisões dessa magnitude — com reflexos para dez anos ou mais (como casar, fazer uma plástica, ter filhos) — não deveriam nunca ser tomadas sob forte emoção, mas foi precisamente o que aconteceu.

E Ziggy, então, entrou nas vidas dos Martin.

Os responsáveis pelo abrigo não conseguiam definir com precisão a idade de Ziggy quando foi adotado, mas ainda era filhote. O que quer que tenha acontecido antes, porém, contribuíra definitivamente para torná-lo quase um delinquente.

Marjorie tentara de tudo: escola para cães, adestrador particular, homeopatia, remédios de tarja preta, orações e simpatias. Nada funcionou. Ziggy era simplesmente imune a regras.

O único que conseguia exercer alguma autoridade sobre Ziggy era Paul e, assim mesmo, durante a cerca de uma hora de corrida que faziam diariamente. Fora isso, o cão passava o dia se dedicando a cavar buracos no jardim, roer alguma planta que estivesse justamente começando a se recuperar do último surto destrutivo canino e, claro, nadar na piscina!

Depois de deixar o café pronto, e antes que Paul e Ziggy chegassem e o cão lhe aplicasse um Ippon e a derrubasse ao solo, Marjorie se apressava em sair às compras, com a receita em mãos. Alguns ingredientes mais sofisticados exigiam a ida a algum mercado mais distante, portanto Marjorie saía de carro.

Paul passava a tarde toda na empresa e Marjorie acabava almoçando na rua, em geral com uma das amigas.

Depois disso, era hora de voltar para casa e se ocupar das tarefas do lar, inclusive o preparo do jantar.

O horário de Paul variava bastante. Apesar do sucesso da empresa e do excelente quadro de assessores, Paul era bastante centralizador e preferia ficar a par de tudo, até de alguma mudança na receita ou de ingrediente em algum dos pratos comercializados. Não raro, chegava em casa bem depois das dez da noite, quando Marjorie já tinha jantado e se preparava para ler um pouco antes de dormir.

Nos fins de semana, Paul eventualmente saía para jogar com amigos ou os recebia em casa: então, Marjorie se via compelida a preparar petiscos e servir bebidas a todos.

Nenhum cinema, nenhum restaurante, nenhum espetáculo, nenhuma viagem, nenhum passeio, nenhum programa a dois.


Rio de Janeiro, Brasil

Além de seguranças armados, cães ferozes guardavam o sítio, garantindo que nenhuma das costureiras se aventuraria a abandonar o local sem permissão.

O contato que tinham com os seguranças era raríssimo. E parecia-lhes que havia uma grande rotatividade: talvez viessem de alguma empresa terceirizada.

Sobre os cães, porém, sabiam menos ainda, pois só os ouviam, jamais os viam. Durante o dia, permaneciam presos, já que havia movimento de pessoas de fora, entrada e saída de caminhões de entrega. À noite, eram soltos e andavam à vontade pelo sítio. Faziam barulhos misteriosos e assustadores e muitas das operárias perdiam o sono, amedrontadas.

Algumas, supersticiosas, diziam que deveria ser a própria Besta, vagando naquele lugar, onde estavam esquecidas, esquecidas por Deus.

…Continua…