Fio da Meada XII


XII

Sidney, Austrália e Rio de Janeiro, Brasil

Tudo que denunciava a presença de Nestor em casa era a luz branca do computador, escapando sob a fresta da porta do amplo escritório da nova residência.

Conectado à internet, 24 horas por dia, o equipamento era inacessível a Antonia, mesmo quando o marido estava viajando. Não se tratava de uma “disputa de território”. Aquela máquina detinha – talvez – a chave para libertar Antonia dos grilhões que a prendiam àquela relação doentia.

Há muito tempo, ela desistira de tentar escapar. No início, quando ainda tinha esperanças de que pudesse se libertar, chegara a executar diversos planos de fuga. Todas as vezes que isso ocorrera, os danos tinham sido profundos e traumáticos. Até fatais.

Será que poderia ter escapado a esse destino? Não podia culpar sua mãe por ter morrido, deixando-a órfã. E José Antônio, o “príncipe” que tinha trazido a morte para sua casa?

E ela própria? Tinha alguma culpa? Tinha feito algum jogo de sedução?

- Nada disso, Antonia. Pare de pensar bobagens. Você era uma adolescente. Adultos não devem fazer sexo com adolescentes… ELE deveria ter repelido suas investidas… Mas… Será que você está fazendo confusão? Você queria sexo ou queria carinho? Você queria um amante ou um pai?

Antonia sentia uma leve dor de cabeça. Nada que um de seus vários comprimidos ao pudesse solucionar.

Mas ainda não inventaram um comprimido para esquecer…

A gravidez na adolescência é sempre um fator de desequilíbrio nas famílias.

No caso de Antonia, sua condição de “agregada” afastaria, teoricamente, um grau maior de “responsabilidade” de Nestor e Soraia, que – afinal – pensava esta última – “faziam de tudo pela menina”.

Alguns episódios de enjôo e um desmaio na escola chamaram a atenção da direção. Na enfermaria, Antonia revelou que já não menstruava há alguns meses e que vinha sentindo estranhas sensações abdominais.

A experiente enfermeira logo percebeu que Antonia estava grávida e em estágio avançado, provavelmente já entrando na vigésima quarta semana. O porte da adolescente e sua boa forma física tinham adiado o que agora se revelava de maneira explícita e inexorável: uma evidente barriga de grávida, seios mais volumosos, uma forma característica de caminhar…

As lágrimas que Soraia vertera no caminho da escola para a Mansão da família eram acima de tudo, ou talvez pura e simplesmente, de raiva.

Assim que saíram da sala da diretora da escola, Soraia tinha pego Antonia pelo braço, com força, e dito:

- O filho da puta do seu namoradinho vai pagar caro por isso. E você também, sua piranha!

Antonia – ainda sob certo impacto da confirmação de que estava grávida (porque, sim, já vinha suspeitando disso há algum tempo) – simplesmente sorriu e respondeu:

- O filho da puta do seu marido e meu primo, Nestor, vai pagar o quê?

Antonia via naquilo uma espécie de “desforra”. Pensava, mesmo, que seria capaz de dar a Nestor a oportunidade de ser pai, coisa que Soraia não tinha conseguido (dizia-se a boca pequena, entre os empregados da casa, que o casal simplesmente não tinha retomado a vida sexual depois da morte da filhinha).

Assim como o dia em que viajou de Portugal para o Brasil, aquela data foi inesquecível para Antonia.

O percurso da escola para casa era curto, mas Soraia já devia ter pensado naquela possibilidade outras vezes. Não era possível que tivesse conseguido organizar tudo em tão pouco tempo.

Talvez, intimamente, ela soubesse que Nestor saía do quarto do casal e não ia para o escritório, mas, sim, atravessava o corredor até o de Antonia, com frequência cada vez maior.

Talvez Soraia já tivesse até consultado vagas e visitado o local.

O fato é que Antonia sequer desceu do carro e voltou a pisar na casa. Soraia desembarcou, entrou rapidamente e voltou já recomposta, como se nunca tivesse chorado, trazendo na mão um papel bem dobrado, com fotos coloridas, parecendo um panfleto publicitário:

- Seu Josué, por favor, nos leve para esse endereço aqui.

Pelo espelho retrovisor, o motorista buscou rapidamente os olhos de Antonia, como quem quisesse lhe passar uma mensagem telepática.

Antonia não teve coragem de perguntar nada. Subitamente, suas forças se esvaíram e deram lugar a uma pavor paralisante.