Desde ontem venho pensando sobre como as pessoas têm dificuldades de se aceitarem como são, como estão muitas vezes tentando se transformar em algo que almejam ser e… puxa vida… como isso acaba repercutindo no que elas desejam em relação aos outros também.
Tudo começou com um encontro casual com a Barbissaura Rex, no meu momento com as caríssimas Iolanda Rocha e Roberta Villarins. Ela é uma ancestral (quase extinta) da Barbie. Tem idade não revelada (certamente já está isenta de votar, está protegida pelas prioridades e coisa e tal), mas gostaria de ter parado nos 25.
Eu a vi pela primeira vez há uns doze anos atrás. Ela já era bem parecida com o que é hoje. Isso porque uma de suas principais ocupações é se submeter a cirurgias plásticas. Muitas. No corpo inteiro. No rosto também.
Só que chega uma hora que não dá. Não cola. Ela pode até entrar numa calça Colcci 38 (como estava contando, faceira, antes de eu dormir profundamente), usar uma pulseira Tiffany e viajar de primeira classe. Mas não tá feliz não.
Se estivesse, não rolaria o que rolou.
Ontem, ela estava com uma cinta que ia do pescoço à patunrrilha. Mesmo assim, pegou de jeito uma outra cliente (uma total desconhecida até cinco minutos antes) e PIMBA! Mostrou-lhe os peitos, roxos mesmo, recém-operados: “veja como estão lindos!”
E aí, na sequência, acabo me deparando neste lindo sábado de inverno (céu azul, mar deslumbrante) com duas notícias tão diametralmente antagônicas sobre autoaceitação que… não deu, né? Preciso de ajuda para sair de mais esse labirinto!
A primeira me veio através da belíssima Luciane Tesch, que publicou um vídeo sobre a “transtransmutação” (fiquei confusa, juro) do Felipe Valentino.
O vídeo está no youtube, e mostra o Felipe Valentino tendo seus cabelos tosados no que seria o momento em que o Diabo estaria sendo “envergonhado”, pois Felipe quer deixar de ser trans para “voltar a ser homem” após ter aceitado Jesus (“cura gay”????).


Como já dizia o Arnaldo (Antunes), penso:
Que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode
Ser que não é.
O que não pode ser que não
É o que não
Pode ser
Que não
É!
O que não pode ser que
Não é o que não pode ser
Que não é o que
O que?
O que?
O que?
O que?
Que não é o que, não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser que não é (2x)
Não não não é(2x)
É
Pode ser
É
Pode ser pode ser pode ser pode ser(2x)
Que não é o que não pode ser
Que não
Que não é
Que não é(2x)
Que não é que não pode ser
Que não pode ser que não é(4x)
Paralelamente (e em radical oposição ao Valentino), encanto-me com a outra notícia, que é sobre o “The Body is Not an Apology”. São pessoas que resolveram dizer SIM a si mesmas e se aceitarem, independentemente do que os outros pensam ou veem como “imperfeições”.

Um dos vídeos do movimento “The Body is Not an Apology” faz parte de uma campanha de levantamento de fundos para lançar uma plataforma online para orientação e esclarecimento, chamada #WhenWeSayYes.
Nele, um depoimento corajoso de uma moça (hoje rapaz) transgênero que se submeteu a cirurgia para retirada das mamas.
Ah, sim. O meio em que vivemos nos cobra. Cobra que nos ajustemos a padrões. Cobra que não “destoemos”, nem “sobressaiamos”.
E, assim, há os que cedam e cedam às vozes das massas, para se alinhar às CNTP (condições normais de temperatura e pressão).
E já que comecei com Arnaldo Antunes, sigo com outro Titã, o Sergio Britto, em “Epitáfio”:
Devia ter amado mais Ter chorado mais Ter visto o sol nascer Devia ter arriscado mais E até errado mais Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado As pessoas como elas são Cada um sabe a alegria E a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger Enquanto eu andar distraído O acaso vai me proteger Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos Trabalhado menos Ter visto o sol se pôr Devia ter me importado menos Com problemas pequenos Ter morrido de amor
Queria ter aceitado A vida como ela é A cada um cabe alegrias E a tristeza que vier
O acaso vai me proteger Enquanto eu andar distraído O acaso vai me proteger Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos Trabalhado menos Ter visto o sol se pôr
O que vamos querer que seja escrito em nossa lápide? O que seria nosso epitáfio hoje?? Carpe Diem.

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