Quer namorar comigo?

Sobre como “chegar junto” concretamente


Se você quer encontrar um guia sobre como iniciar uma conversa e conquistar aquele/a gatinho/a, não perca seu tempo. Este texto não é sobre nada disso.

Mas tem a ver com o dia 12 de junho… Não, também não é por conta da estréia do Brasil na Copa.

Uma das características marcantes da geração digital é a rapidez com que as pessoas conseguem se comunicar, o que tem inúmeras vantagens, claro, mas carrega um pacote de “reações adversas” que vão desde “ih, caramba, falei demais e agora já era” até uma superexposição de ideias e credos que as pessoas não sairiam gritando por aí como fazem no espaço virtual.

Diz o provérbio português que “o papel aceita tudo”. A internet, então, aceita o “impublicável” e o “indizível” de até há algum tempo atrás. Afinal, por que as pessoas iriam se refrear, se estão protegidas pela tela do computador, por quilômetros de distâncias e até por perfis “fake”.

Aliás, aqui, faço uma observação. Outro dia, até conversava sobre isso com a querida amiga (por ora, pasmem, ainda somente virtual Márcia Neder). Fico a pensar o que leva algumas pessoas a se “esconderem” sob “avatares” engraçadinhos. Seria unicamente para resguardarem sua segurança? Ou haveria algo a mais? Mas se publicam o nome verdadeiro, por que o avatar não é a foto real? É um passarinho, um bebê, um golfinho, um personagem de história em quadrinho…

Fechando os parênteses. Pois então. Nos últimos três anos, houve um crescimento de 203% do número de páginas (URLs) denunciadas à ONG Safernet por divulgarem conteúdos de intolerância racial e religiosa ou por conterem ideias neonazistas, xenofóbicas e homofóbicas ou por fazerem apologia e incitação a crimes contra a vida.

E onde entra o namoro nisso tudo? Bem, pipocam na internet notícias sobre assédio eletrônico ou digital, sendo o por SMS um dos mais impactantes.

O britânico Scott Kinsey, 19, foi condenado pela Justiça por enviar cerca de 11 mil mensagens a uma garota depois de levar um “toco” (um NÃO). Eles se conheceram pela internet (Facebook), mas ele queria algo mais e ela não topou. Kinsey, rejeitado, passou a mandar mais de 3oo SMS por dia, com conteúdo agressivo e obsceno.

Também na chuvosa Inglaterra, Sarah Ross, 25, foi proibida de se aproximar de um casal.

Sarah namorou o carteiro Christopher, 35, de agosto de 2012 a fevereiro de 2013. Quando ele se casou com Nicola Wood, 33, em junho do ano passado, Sarah começou importunar o casal.

Depois de uma série de mensagens no Facebook e cerca de 800 telefonemas indesejados, a Justiça britânica a proibiu permanentemente de se aproximar de Christopher e Nicola.

Além disso, ela terá de prestar 200 horas de serviço comunitário e foi condenada a seis semanas de detenção.

A volatilidade das relações talvez tenha algo a ver com essa rapidez tão grande com que se estabelecem as conexões. Mas o que é rápido e passageiro para uns, pode não ser decodificado dessa forma pelo outro, que talvez tenha investido ali algo a mais. Esse descompasso tem a ver com os ruídos próprios das relações e das comunicações.

Quem sabe, então, se precisamos voltar aos tempos dos nossos pais (ou avós), onde se explicitavam certas questões, como, por exemplo, a natureza da relação. Como não se mandam mais cartas, para que sejam devolvidas com a ponta dobrada em sinal de aceite, que se pergunte claramente a que veio o /a cidadão/a. Assim, ninguém embarca na nau errada, ainda que — de verdade — nenhum de nós jamais possua o roteiro de viagem completo.

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