Ônibus

Por: Felipe Braga

Voltar pra casa de ônibus em São Paulo na hora do rush exige mais do que uma mente paciente e centrada para não explodir de raiva e frustração com o sistema de transporte público.

Por sorte, na maioria dos dias, meu ônibus vem vazio e consigo sentar e ler algum livro ou usar meu celular e esquecer meus problemas por duas curtas horas de viagem.

Hoje não foi um desses dias. O ônibus estava lotadasso! Mas eu, como bom estrategista, já mapeara mentalmente os lugares que ficam disponíveis mais rapido para driblar situações como essa. Dito e feito, em menos de cinco minutos lá estava o rapaz sentado arrumando a mala para sair.

Foi quando notei ao meu lado uma mulher, pela casa dos 50 anos e seu filho adolescente, ambos segurando uma bolsa cada. Não poderia mais sentar, meu psicológico não permitiria.

Assim que o rapaz se levantou do lugar por mim tão fitado, eu entrei em parafuso: sento ou deixo a senhora sentar?

Como se meu anjinho e meu demoninho digladiassem em meus ombros. E no meio dessa batalha infindável de dez segundos meu cérebro avaliava todas as possibilidades e saídas alternativas.

Não achada solução e meu diabinho havia vencido a luta, com um truque sujo, claro. Sentei rapidamente e relaxei, mas a mulher e seu filho continuavam de pé naquele chão frio e duro, tentando se equilibrar enquanto o ex-motorista de fórmula um dirigia e suas bolsas os puxavam para baixo, revelando o peso do cotidiano.

Quando me vem à mente:

-Moça, quer que eu segure sua bolsa? — pronto! agora ficaria em paz e poderia enfim ler o…

-Não, obrigada — reponde, secamente com um sorrisinho sarcástico. Que tipo de mulher é sádica o suficiente para me torturar desse jeito?

-Ah.. tá bom…-respondo tentando parecer indiferente. Eu não vou cair no joguinho dela. DE JEITO NENHUM

Tento me concentrar, sempre olhando de canto de olho para minha torturadora e seu cúmplice. Sei que estão juntos nisso, não param de conversar e dar risinhos contidos. Às vezes olham em minha direção, mas quando nossos olhares se encontram, logo desviam com o medo das almas refletidos em suas retinas. Com certeza estão bolando um plano para me tirar daqui.

Um tempo passa sem novas investidas, de nenhum dos lados. Estava quase me acalmando quando o banco à minha frente fica livre e o garoto senta sem pensar duas vezes. A mulher continua de pé? Que tipo de comparsa faz isso com sua pobre mãe? Onde está moral e a ética desse garoto? Mas que garoto sem escrupulos …. calma …. o que são escrupulos? Tem acento? Qual a origem da palavra: grega ou latina? Es-cru-pu-LOS ou es-cru-pu-LUS?

E assim, desapercebido, eles dão o golpe final em mim: a mãe deu a bolsa para o filho segurar!!! E eu?? Qual o problema comigo? Sou feio? Tô mal vestido? Fedido? (talvez…)

Levanto-me e encaro-a nos olhos dizendo:

-Qual o seu problema comigo????? Não me acha confiável????? ACHA que só porque sento perto da porta e me ofereço para segurar a bolsa de uma senhora sou um tipo de ladrão? Você não tem escru…pulus!!!

Ela me olha assustada. Seu filho e todos os outros passageiros também olham, alguns começam a me aplaudir e assim uma situação potencialmente constrangedora vira um ato heroico. Minha mente se sente até um pouco mais leve. A mulher enfim responde:

-Desculpa moço, eu só não queria te incomodar- a mesma velha desculpa…

-A senhora me ofendeu profundamente, não confia em mim?? Eu sou só um bom moço querendo fazer uma boa ação para poder dormir tranquilo à noite. Sabe como é difícil ter uma oportunidade dessas?

Nisso um dos passageiros mais velhos diz:

-Dá logo a bolsa pro rapaz ficar quieto!- e é seguido por alguns burburinhos de apoio, inclusive do filho, sentado com a bolsa ainda no colo.

Ela, ainda envergonhada, dá sua bolsa para mim. Nesse momento o ônibus abre a porta para uns passageiros descerem. Empurro-os para o lado com toda a minha força e fujo com a bolsa entre os meus braços sem olhar pra trás.

Hoje vou dormir tranquilo com essa carteira de couro e um novo batom para minha namorada.

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