O GATO

Por: Felipe Lispector

Sentado no sofá, vejo meu gato olhando atentamente para a porta pela qual meu pai acabara de sair. Com aquela expressão apática não dava para saber o que o gato pensava,mas resolvi me aventurar assim mesmo: talvez estivesse esperando que o enorme animal de madeira cuspisse seu dono são e salvo de volta, ou talvez soubesse de fato o que é uma porta e estava só esperando seu dono voltar para dar-lhe um agrado. Quanto tempo será que ele passa olhando a porta quando eu saio?

O gato permanece parado há cinco minutos, não move um pelo sequer. Será que tem medo do colossal ser feito de xilema de mogno com belos entalhes feitos à mão? Se, por ventura, mexe a cabeça, logo volta a contemplar o gigante estático.

Sem usar hipérbole, mil imagens continuam a passar pela minha cabeça. Tento imaginar o que a Borboleta Negra de Brás Cubas ou a cachorra Baleia de Fabiano pensariam, talvez elas pudessem elucidar-me os pensamentos do meu gato. Enquanto isso, divago.

Já faz dez minutos que ele está lá, imóvel. E eu aqui, admirando-o.
Decido testar sua motivação: aproximo-me, assobio, faço movimentos bruscos e barulho, rogo pragas nele, até o toco……e nada. O máximo que faz é mover uma orelha em minha direção e, com um movimento rápido, movê-la novamente em direção à porta. A natureza é sábia o suficiente para saber que sou inofensivo se comparado ao monstruoso golem que continua com seu dono em seu interior.

Frustrado por ser ignorado pelo gato, decido parar de olhar este animal burro que insiste em permanecer estático, séssil, bentônico, imóvel. Tão imóvel quanto uma porta….uma porta…

Sem precisar pensar muito, chego à conclusão: o gato era a estática porta; e eu, o irracional gato.

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