A era do medíocre: como o senso comum regula nosso pensamento

Virei fã do senso comum, este termo que determina as noções gerais dos pensamentos da humanidade. Tornei-me fã por conta da minha mediocridade perante as coisas. Sou um medíocre quando decido escrever ou falar sobre coisas que não entendo. Convém, aqui, salientar que entendo de quase nada. Talvez nem da minha própria existência, menos ainda da de vocês. Vá lá, conheço alguma coisa daquilo que me propus a conhecer, que basicamente constitui meu ganha-pão. Fora dele, não sei patavinas do mundo o meu redor. A minha especialidade é conseguir colocar no papel — ou na tela — alguma coisinha que observo a partir dos meus próprios privilégios, ou quando sobra tempo. Ou seja, quando escrevo um texto, é basicamente empírico, solto e cheio de fendas e fissuras, facilmente detectáveis. Meus textos são um exemplo perfeito do que é o senso comum. Não há nada de errado nisto. A leitura de vocês também é baseada no senso comum.

O senso comum é uma maravilha, pois, sobretudo, funciona como um regulador das atividades humanas civilizatórias. Instituído através de uma construção social que educou o mundo ocidental de uns séculos pra cá, ele reúne as condições necessárias para que tenhamos uma noção do que é certo ou errado. Dele, partimos para conceitos enraizados na sociedade, como moral, costumes, ética, decência, honestidade, lealdade, felicidade ou liberdade. O senso comum faz de nós seres civilizados. Claro que há uma incidência maior ou menor de como tais itens descritos são relativizados na sociedade. Os costumes, principalmente, são variáveis de acordo com aquele famoso conjunto de crenças e valores que adquirimos na nossa trajetória. Mas não fogem muito de uma uniformização evidente. Ninguém sai nu, latindo como cachorro, tentando ingerir um pastel pelo nariz ou beijando o joelho alheio na rua. Há costumes e eles são respeitados. Há valores básicos de moral e ética que são, em tese, seguidos. Há, enfim, um conceito natural do que é certo e do que é errado.

Cá entre nós, de senso comum pra senso comum, vamos aos tempos atuais, onde esta expressão, da qual sou fã e refém, é classificada por quem “pensa” como uma manifestação do ser humano médio. Condenar o senso comum (algo que já fiz) é, especialmente, um ato de arrogância. É, também, uma manifestação gerada pelo senso comum, aquela que categoriza o “cidadão médio” como um ser incapaz de alcançar questões que somente o “cidadão acima da média” consegue. No entanto, nesse mundo de redes sociais, onde não podemos ficar por fora de nada, surge uma nova categoria produzida pelo próprio senso comum: o anti-senso comum.

O embasamento feito por quem condena o senso comum é bem simples: em todo e qualquer assunto, busca-se três ou quatro frases, teorias, palavras ou nomes que irão configurar uma hipótese, estudada por 15 minutos. Esta busca é feita na fonte de conhecimento (sic) mais pródiga do mundo pós-moderno: o Google. Quinze minutos. Só. Suficientes para a construção de uma hipótese emblemática e original a respeito de todo e qualquer assunto. Com talento, é possível passar a imagem de um especialista em qualquer coisa. A era atual, aliás, é dos seguintes tipos: (a) o especialista em qualquer coisa, popular tudólogo; (b) o sommelier de assuntos alheios, popular fiscal de cu; (c) o que não quer se incomodar, popular está fazendo a coisa certa. Tem também o chato do textão, o popular eu. Como eu sou um escravo deste senso comum e tenho um pouco de cada coisa, tomo como exemplo o caso do Santander pra ilustrar onde eu quero chegar.

Não sei nada de arte. Nada. Sou pouco visual. Não sei fotografar. Sou pouco impressionado com imagens. Não vou a museus, a não ser quando é de meu interesse (basicamente: comunicação, música e futebol). Não entendo de pintura. Não tenho nenhum conhecimento sobre artes gráficas. Meu gosto é raso sobre o assunto. Vejo uma pintura e acho bonita ou feia. Acho a maioria feia. Não sei diferenciar arte barroca de arte abstrata. Sou um burro das artes. Gosto de ler e ouvir. Não sou muito de ver. Mas, vá lá, tenho meu pitaco sobre o que são manifestações artísticas em geral. Gosto de cinema, música e leitura. Tenho lá meu parco conhecimento sobre História. E, sobretudo, respeito o gosto dos outros. Achei as pinturas do Queermuseu feias. De mau gosto. Não iria. Nem sabia da existência. Sobre isto, apenas digo que, como alguém que respeita todas as manifestações artísticas — inclusive as que não entendo e não tenho vontade de ver — como legítimas. Também entendo que toda arte é válida e que ela opera como uma representação de um recorte da realidade. Acredito que a arte precisa instigar, incomodar e provocar. Portanto, tais manifestações, mesmo incompreensíveis dentro do meu limitado perímetro de entendimento, são necessárias.

O movimento que pressionou o Santander a retirar a exposição foi baseado no senso comum, especialmente do tipo (b) mencionado anteriormente. Os bons e velhos fiscais dos costumes alheios entenderam que a mostra era uma afronta aos valores éticos, morais e aos tradicionais costumes da família brasileira. Certamente, 99% de quem comentou viu lá uns quadros em resolução baixa pela internet pra chegar ao definitivo e inquisitório juízo de valor. Ou seja, outra característica do senso comum: a gente faz juízo de valor para tudo. A resposta, claro, na internet, veio em forma de senso comum. A justificativa inicial, evidentemente, foi esta: de que o senso comum proibiu a mostra. Logo, para fugir desta lepra chamada senso comum, vieram os especialistas. O Google mostrou o mapa da arte mundial em três passos. Surgiram, em 15 minutos, os experts em arte. E lá vieram as teses sobre “os museus que visitei”, “os quadros que me impactaram” e sobre como Goya, Picasso, Michelangelo, Dalí e Miró faziam suas obras. Minha TL do Twitter virou uma grande aula de Educação Artística pós-moderna, com grandes professores que pretendiam ensinar ao MBL o que é arte. Mamãe falei tem Google também, gente, calma lá!

Como em todo duelo entre os polos que reproduzem as nossas ideologias facebookianas contemporâneas, as armas eram as mesmas: o senso comum funcionando como batata quente revezando entre as mãos da esquerda e da direita. Combate-se, logo, o senso comum com mais senso comum. Só que este, formado há pouco, é o novo senso comum: o dos especialistas de 15 minutos, forjados a base de textão no facebook e de postagens malandríneas de arrobíneas que admiramos. Uns disfarçam a falta de conhecimento apontando para a devassidão alheia. Os outros, como resposta, apontam a sua própria falta de conhecimento supondo burrice alheia. Finalizam, ainda, decretando falta de humildade noutrem. Disfarçam a sua própria falta de humildade valendo-se dele mesmo, o bendito senso comum, com as clássicas “ninguém é melhor que ninguém” ou “vocês não podem julgar os outros”. Conversa fiada. Como todos sabemos, a rede social serve pra gente mostrar ao mundo que somos melhores, mais felizes e mais realizados que o vizinho. Queremos puxar um pouco do verde da grama alheia para a nossa. A busca é por transformar esta grama em mato seco, para que possamos dizer que agora o jogo mudou: a nossa é mais bonita.

Neste jogo de gato e rato, o senso comum nos regula como marionetes. Escravos que somos, rejeitamos o mesmo e ofertamos este ente maravilhoso aos nossos inimigos. Tédio, mediocridade e irrelevância são os combustíveis de aflição da vida moderna. Temos os três, mas é muito duro admitir que possuímos os mesmos males daqueles que tanto condenamos. Nada é mais medíocre que não assumir a própria mediocridade.