A melancia na cabeça: a criação de arrobas como personagens da espetacularização nas redes sociais
Começo meu texto do jeito mais lamentável possível. Como é uma grande autocrítica e como, no meu caso, narciso acha feio até o que vê no espelho, não vejo problema nenhum em errar logo no início. Até porque, se não estrago no início, dou um jeito no final. Então, opto por já escancarar meus defeitos nesta espécie de demolição da autoimagem evitando a autoindulgência e, mesmo torto e às avessas, entrar naquela competência de criticar os outros apontando para a minha própria cabeça. Começo, portanto, pedindo desculpas por gostar de uma claque. Sou um pertencente à sociedade do espetáculo, um prato cheio para a nova psicanálise da pós verdade. Em geral, inclusive neste texto, minhas coisas são produzidas para os outros lerem. Só que esta obsessão por ter plateia gera um novo tipo de personagem: aquele que cria uma imagem específica para os outros. Um Bruce Wayne interno, Batman nas redes sociais. Quase um alter-ego que busca o fascínio, ou melhor, premeditadamente tenta alcançar um público alvo, que é o dos interessantes para si. Se aqueles que considero interessantes gostam de me ver assim, pois assim me portarei.
Gosto de claque, mas não muito de criar personagens. Bem da verdade, não sei se é algo que gosto ou não, porque nunca criei. Acho que está mais relacionado à minha própria incompetência em demonstrar coisas que eu não sou. Em vários debates, ouvi que “eu não penso isso, mas se pensar igual a todo mundo, não sai debate”. Ou seja, produzem-se opiniões, facetas e estereótipos para movimentar a roda da sociedade de espetáculo. Debord é moda e agora todo mundo estuda. A rigor, antes de seu pensamento, já se alimentava o fetiche da exposição pública. É legal saber o que pensam de ti. A máxima “falem mal, mas falem de mim” é uma consequência dessa vida onde ostentar vem antes de existir. As redes sociais, com sua ideia de democracia, pluralidade e visibilidade, foram fatais para explorar este campo. Não à toa, elas são o second life de boa parte das minhas relações — ei, da minha, acho, também. Ali, é o lugar onde eu posso dizer uma coisa e, olha que bacana, tem gente que se interessa. Que gosta. Que aplaude. Que idealiza.
Na vida, tudo é uma questão de interesse. O próprio altruísmo é um interesse. O antipessoalismo das relações distantes é uma anestesia para a tensão das relações reais, chatas, embaraçosas e sem público. A impressão que dá é que montamos um espetáculo para as redes sociais. Como atores de uma peça de teatro, organizamos nosso discurso pensando em público alvo, inconscientemente, sem a clara intenção de cooptar alguém, mas com o destino final preciso, de chamar a atenção. Lá quando eu era pequeno, minha avó, que não gostava de aparecer e não gostava de gente que queria aparecer, proferia o famoso provérbio da “melancia na cabeça”. É, percebam, uma sociedade às avessas, onde as redes sociais servem como álcool para a timidez. É uma carmem-mirandização de fora pra dentro. Fora, as pessoas não trocam mais palavras. Dentro, soltam-se e se tornam em 140 caracteres aquilo que elas gostariam de ser, mas não conseguem diante de todas as travas sociais existentes, como medo, angústia, timidez, tédio ou desinteresse (pessoal ou dos outros). Logo, as pessoas utilizam as redes sociais, em suma, com o único objetivo de exorcizar seus medos e abrir um livro que é escrito especialmente para a ocasião. Certamente, já ouvimos que alguém “odeia pessoas”. Mas ali, no conforto do passarinho Twitter, interage com facilidade, fidalguia, sorrisos e demonstrações de amor em forma de emoji com as mesmas pessoas que diz odiar. É uma hipocrisia inconsciente: não gosta de pessoas, mas passa o dia todo, ainda que à distância, interagindo com pessoas.
A diferença é o senso de realidade distorcido pelo glamour de um ambiente onde podemos construir aquilo que podemos ser. O ambiente da rede social reduz improvisos, espontaneidades, imperfeições e verdades. Tudo é friamente calculado. Ali, posta-se a melhor foto. Aquela na qual não estamos bem, é descartada. Ali, postam-se os melhores textos, compartilha-se os textos que são convenientes para mim e para outrem. Ali, cria-se o melhor perfil, estuda-se a melhor frase que supostamente nos define. É uma peça da casa, montadinha, perfeitinha, irreparável. Escolhe-se a briga que teremos, sem medo do olho roxo. Escolhe-se quem machucar, sem o peso de ver uma lágrima escorrer. Escolhe-se o flerte a fazer, sem medo da rejeição cara a cara. Escolhe-se quem plagiar, o que recitar, o que cantar, sem medo de perder a palavra. Escolhe-se qual artista gostar, qual livro dizer que leu, qual o gosto musical, qual a comida perfeita, sem medo de não lembrar (o Google ajuda, tem tempo pra isso). Escolhe-se o que dizer, sem medo do julgamento frontal, este insensível e implacável inquisidor dos tempos modernos. Escolhe-se quem atingir, se com um tiro ou um coração, se com um beijo ou um soco, se com um abraço ou um empurrão. Escolhe-se quem somos.
Entre o incerto e o inseticida, ao fim e ao cabo, a causa da escolha é unânime. Escolhemos por claque. Escolhemos para sermos percebidos, notados, abanados, vistos. No meu longínquo tempo de infância, produziam-se os famosos “meu querido diário” ou o “amigo imaginário”, formas de nos abraçar no conforto da solidão, de dividir espaço com o nosso alter-ego, sem pensar em plateia, multidão ou público interessado. Era o espaço de demonizar nossas anjos e de exorcizar nossos demônios. Um duelo do famoso eu x eu mesmo, sem essa bengala, claramente terapêutica, de ver o público como nosso regulador de autoestima. A autoestima sempre se relacionou com aprovação, satisfação e bem estar pessoal. Nos tempos modernos, liga-se com visibilidade e retorno de um suposto “público-alvo”. Daí, vem a construção do personagem ideal, de uma tentativa, forçada ou não, de me aproximar do meu círculo de interesse através da criação de atividades/interesses similares àqueles de quem admiro. Decodificando: impressionar-te-ei te fazendo acreditar que sou como tu. Que sou como aquilo que supostamente acredito.
A moda, legítima e feroz, e entendendo que sou um prato cheio para toda a sua sedução, capacidade magnética e poder de persuasão, é vender-se ao mundo como um personagem young, wild and free. Ninguém quer ser careta, porque isso é chato, bundão e entediante. Ninguém quer, na rede social, ser ou parecer certinho, tímido, retraído e, agora mais ainda, recatado (já pedindo desculpas pelo termo). O que movimenta o fetiche do imaginário é o espalhafatoso, o vulgar, o aberto, o libertino, o libidinoso, o desbundado, o despudorado, o alegórico, o ostentoso. Toda essa carnavalização é, para os tempos modernos, sinônimo de personalidade, de independência, de liberdade, de afirmação, de sucesso. Parece que só somos um “ser humano da porra” se alguém nos disser que somos “um ser humano da porra”. Os próprios valores pessoais e as convicções próprias, nossas crenças e certezas, não significam de nada se não compartilharmos com esta plateia supostamente interessada. É uma produção constante e exaustiva: precisamos, de qualquer forma, parecer algo para os outros, ainda que não sejamos muitas vezes.
Não sei se, no final das contas, isso não é só carência. Os tempos modernos são implacáveis no seu egoísmo do cotidiano, com muita cabeça baixa e pouco sorriso aberto. Pode ser isso, mas acho que tem mais. Os males da vida moderna são o tédio, a irrelevância e a culpa. Ninguém quer se sentir entediado, irrelevante ou culpado. Para todo mal, há cura. Para a cura, há o remédio. Contra culpa, psicanálise. Contra tédio e irrelevância, a melancia na cabeça, que não foi trazida pela minha avó, visionária, que se antecipava aos tempos e pregava que, em 2017, todos teríamos uma melancia na cabeça para pendurar. Todo mundo — inclusive eu — tem a sua melancia na cabeça, chamada de arroba, protegida por um teclado, escoltada por um avatar, mais chamativa do que se eu saísse na rua vestido de Carmem Miranda. Na pós-modernidade, muda-se o provérbio. Quer aparecer? Vai pro Twitter.
