A minha praia

Embarquei na história clichê do escritor que busca a inspiração no silêncio, no isolamento e no ócio para finalizar um artigo sobre programação no radiojornalismo esportivo de Porto Alegre. Cá estou em Atlântida Sul, procurando na atmosfera do mar e do mato e no silêncio de uma praia pequena em dia de semana os recursos necessários para esta espécie de namastê intelectual que vai me jogar para as páginas do Word como um faminto digitador de palavras e notas de rodapé. Paro, penso, escuto uns sapos e o barulho das ondas. Escrevo um parágrafo e volto a olhar a rua vazia, as casas com poucos vizinhos e as nuvens carregadas anunciando uma chuva que nunca chega. Atlântida Sul é assim de segunda a sexta. Inspiradora. Não para aquilo que preciso.

O litoral gaúcho deveria ser alvo de intensos estudos sobre seu estado de espírito. A faixa reta de areia que compreende Dunas Altas a Itapeva (tiramos Torres e o litoral sul dessa jogada) é uma sequência de vegetação rasteira, dunas de médio porte, pequenos cursos d’água, araucárias, ruas de paralelepípedo sem manutenção, imensas poças d’água, mar frio, gelado e cortado por feixes de dejetos despejados na água, com um comércio típico que mistura fliperama, barracas de crepe de qualquer chocolate Nestlé, vendedores de frutas de Terra de Areia, caminhões com produtos coloniais de Maquiné, sorveterias self-service, condomínios de luxo e dezenas de lojas de materiais de construção. Esta faixa tem dois grandes cortes, que são Xangri-lá/Atlântida/Capão da Canoa e Tramandaí/Imbé, estas últimas separadas por um rio onde pescar é a diversão. Onde há o grosso da infra-estrutura, evolui-se para a gourmetização do local, embora seja assim desde sempre. Atlântida sempre foi uma espécie de Miami das tatuíras, Capão a nossa babilônia maravilhosa do minigolfe e Tramandaí uma espécie de marco zero do nosso litoral. Em Atlântida tem hamburgueria já e sempre teve filial de casa noturna badalada. O mar é igual ao do Magistério e é só um pretexto, já que a red zone da Avenida Central fica longe da praia. O litoral gaúcho não é turístico, mas se você acha que o melhor dele é um lugar VIP na balada da Maori ou uma selfie descolada na plataforma, você está desperdiçando aquilo que a nossa faixa de gaza praiana tem de melhor: debruçar-se, desbravar, agarrar e se envolver na mais profunda melancolia confortante que você possa imaginar.

Há uma questão cultural nisso. Certamente, essa melancolia é muito mais sentida por quem vivenciou suas férias na praia. No meu caso, desde que lembro de existir enquanto um ser, passo o verão em Atlântida Sul. Antes, na verdade, em Tramandaí, mas há pelo menos 33 anos aqui estou nesta casa, a mesma. Boa parte de infância, pré-adolescência, juventude, vida pré-adulta, adulta e crise de meia idade entre os meses de dezembro e fevereiro foram degustados nesse trajeto inviolável entre a Guarujá e o mar. São 12 quadras até chegar às úmidas, batidas e escuras areias de Atlântida Sul. Duas quadras até o centrinho, este antro de devassidão moral sub-13.

Semana passada, vi um grupo de meninos bebendo e fumando. Combinaram arranjar briga. Direcionaram-se para a esquina e os perdi de vista. Eu só queria um crepe, que não estava bom. Quando olhei pra eles, pensei em mim nessa idade e nos meus amigos eventuais de verão, tinha o grupo da praia e o grupo do colégio e uns que eram dos dois grupos. A gente fazia o mesmo. Ao invés de um olhar inquisitório, fui tomado de uma intensa vontade de acompanhar até o fim o que eles estavam fazendo. De certa forma, enxerguei minha imagem em 1993 participando daquilo, mas eu não era de briga. Ali, esta presente melancolia deu lugar a uma nostalgia tão profunda que me levou para muito longe, para mais de 20 anos atrás e pensei na importância desses dois meses na praia pra minha história. É como se esse ambiente fosse um buraco de minhoca temporal de dois meses entre os 12 do ano que servisse como uma espécie de ritual de iniciação para aquilo que aparentemente é ilegal, imoral ou engorda. Só que num ritmo juvenil. Só que numa atmosfera lúdica. É um processo de iniciação das coisas, de primeiras vezes, descobertas e decepções, desilusão adolescente e esperança naquilo que não se sabe muito bem o que é. Um salvo conduto das obrigações, um livre arbítrio temporário e ilusório, com território demarcado, mas sem hora pra voltar.

Hoje, fui até o mar pensando nisso. Neste texto, naquilo que eu deveria escrever e naquilo que eu preciso escrever. Preciso escrever sobre isso. Estou aqui, abraçado nesta bendita melancolia nostálgica que salva minha alma, dissipa meus rancores e absolve meus eventuais pecados. É sobre isso que se trata o litoral gaúcho. Não é sobre o mar, sobre a natureza ou sobre sua infra-estrutura. É sobre o jogo de taco no meio da rua, sobre a primeira vez que se volta da balada com o dia amanhecendo, sobre todas as primeiras vezes, sobre o Capãotur na principal, sobre aquela criança que joga flíper, que na verdade era eu há 25 anos. É sobre a minha história.

São 19h25 e eu preciso retomar o texto sobre rádio, porque há um deadline, mas já está quase no fim. Depois eu deito na rede, observando o movimento da Saquarema numa noite de quinta-feira, quase ínfimo, pacato e igualmente melancólico. É melhor que a balada em Atlântida, melhor que um mergulho neste mar, melhor que um condomínio fechado. É melhor porque sou eu. Aqui, eu sei quem eu sou. Aquele ali, topando com o pé numa ponta solta de paralelepípedo na rua, jogando Street Fighter no fliperama do centrinho, comendo um crepe queimado, voltando de madrugada sozinho pela rua ou andando de bicicleta sem olhar para os lados. Porque é preciso voltar a um ponto de partida pra que a gente se reconheça como realmente é. Aqui, eu enxergo isso. Enxergo tudo. Tudo.

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