Chico Buarque e Pabllo Vittar: uma parábola

Ouvi “Tua Cantiga”, nova música de Chico Buarque. Também resolvi escutar “K.O.”, de Pabllo Vittar. Tudo na mesma manhã. Chico é poeta:

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho a te abraçar

Pabblo, naquilo que se convenciona como qualidade literária, nem tanto:

Me beija a noite inteira
Sexy na banheira
Vou te dar canseira
Quero do inicio até o fim

Há, ainda, a questão musical. O arranjo de “Tua Cantiga” é belíssimo, harmonia no piano, uma cortina sofisticada para a voz minimalista de Chico. Já Pabllo Vittar constrói suas falas sobre um breguíssimo sintetizador, eletrônico, parecendo um teclado de tecnobrega de churrascaria. Até agora canto “K.O”. Já me esqueci de “Tua Cantiga”. Talvez algum dia o povo se esqueça de “K.O.”, como todo hit descartável. Talvez algum dia todos se lembrem de “Tua Cantiga”, referenciada como uma obra clássica em tempos líquidos. Embora toda manifestação artística seja subjetiva, há os chatos como eu, que precisam problematizar, ter a pretensão de refazer enquadramentos e reinterpretar os acontecimentos. Assim, digo-vos: achei “Tua Cantiga” um saco. Achei “K.O.” deliciosa. Afora a questão pessoal, o ponto que quero chegar: a música de Pabllo Vittar é muito mais relevante do que este lançamento de Chico para os tempos atuais.

Pabllo é trans e escancara em seus versos a sinceridade e a importância que os tempos atuais precisam. É o povo cantando, com seu cotidiano amoroso que ainda se reveza entre o folhetim de novela das oito e o desprendimento necessário para a independência. Na letra, ela diz que cansou da vida de solteira e só quer passar a sexta-feira de boas com o mozão, deitadin, que esse amor a nocauteou e agora tudo muda. Veja bem, isto é profundo. Há uma verdade imposta nesta letra que se insere neste contexto de quem hoje domina a música no país, que é o povo (e que bom!). Ali, Vittar, que poderia escrever sobre preconceito, empoderamento, independência e justiça, só coloca aquilo que todo mundo quer: amar. Chico, poeta, também. É uma música de amor. Entretanto, as duas maneiras com que o assunto é abordado são completamente diferentes. A poesia para a “nega” de Chico e a entrega de Pabllo são, em suma, sobre a mesma coisa cantada de uma maneira diferente. A diferença está justamente na relevância da narrativa para tempos atuais: a música de Pabllo é bem mais relevante que a de Chico.

Chico Buarque é, para muitos, um cara que compreende a alma feminina. Evidentemente, é um dos principais artistas da história da música brasileira. Entretanto, alimenta-se de um fetichismo por parte de quem pretende ser intelectual, que hoje é uma espécie de militância. Em tempos de “homão da porra”, construiu habilmente sua imagem de Rodrigo Hilbert dos intelectuais. Chico é bonito, tem olhos verdes, escreve maravilhosamente bem, é engajado, se opôs à ditadura, driblou a violência dos censores com pseudônimo, leu o Brasil de norte à sul e devotou suas canções para as mulheres. Virou uma espécie de legenda acima do bem e do mal no país. Sua obra recomenda tal posto. Entretanto, entendo que sua arte, inegável, sustenta-se muito mais por relevância histórica do que por conteúdo atual. Embora tenha lançado ótimos discos sob o ponto de vista artístico nos últimos tempos, as canções lembradas são dos anos 1960 e 1970, no máximo, dos 1980. Não há nada de errado nisto. O problema é este pedestal, organizado para canonizar nossos grandes artistas e não botar a cachola pra funcionar e, mesmo idolatrando Chico, refletir se “Tua Cantiga” é uma música necessária, relevante ou, até mesmo, legal.

Chico é um item no combo da desonestidade intelectual que massacra aqueles que se julgam intelectuais. Boa parte tem mais preconceito que aqueles que estes rotulam como preconceituosos. Uma música como a de Pabllo Vittar jamais seria aceita pelos pensadores. Talvez o Caetano entendesse, mais para reforçar o seu personagem super open-minded do que por acreditar nisso. Mais pelo conceito do que por compreensão. Enfim, talvez rolasse até uma parceria. Mas, em geral, a unanimidade de Chico Buarque se dá, para muitos, como uma espécie de lista das trinta coisas que você precisa gostar para os outros acreditarem que você é inteligente. É uma mercadoria no pacotão do wannabe intelectual. Com isso, dizer que a música nova é um porre vai te fazer perder pontos.

Já Vittar fez uma música pop, meio brega, meio escancarada. Brasileira até os ossos, cheia de desbunde, divertida, dançante, suburbana, povão. Ótimo. O mal dos intelectuais brasileiros é que eles, em geral, detestam o povo. Detestam o funk, o sertanejo, a rua. Gostam das rodinhas hipsters, das discussões filosóficas. Falam sobre apropriação cultural e são pesadamente influenciados em suas referências por coisas que vieram de fora. Ouvirão o Chico como um cara que entende a mulher e que fez uma declaração de amor linda para a sua amada e desprezam o fato de que “Seu amor me pegou
Cê bateu tão forte com o teu amor / Nocauteou, me tonteou / Veio à tona, fui à lona, foi K.O.”
é uma declaração de amor maravilhosa, cheia de verdades, de realidade, de brasilidade, de pegada. Não é essa coisa idealizada, cheia de métrica e cuidado, coisa de quem debate tomando um vinho caro, à meia voz, numa sala com lareira, som no volume 2, suave e paumole. O amor de Vittar é despudorado, gritado, rasgado, sincero e pulsante. É barraqueiro, como é o funk, como é o Brasil.

A música brasileira passa pela invasão mais genuína de sua história. Por origem, a bossa nova e a MPB foram sempre aristocratas. Foram ensimesmadas, de guetos com a suposta pretensão da inteligência exclusiva. Excludentes, preconceituosas e arrogantes. O funk é aberto, permissivo e desbundado. Uma bosta de música, artisticamente falando. Mas é brasileira, real, direta, objetiva. A poesia de Chico é linda, lírica e bonita. Só é fechada, hermética, intimista e complicada demais. Chico se tornou trilha de reunião de clube de golfe com charutos, conhaques e pulôvers nos ombros. Vittar é churrasco na laje, tiozão fazendo piada, sol à pino e gritaria. É povo.

Culturalmente, as aceitações sobre a música brasileira sempre se dividiram entre os especialistas e o povo. Gosto popular e gosto especializado nunca bateram, via de regra. Assumir que uma música pop deliciosa como K.O. é mais legal que a cantiga para a amada é algo que nossa intelligentsia jamais admitirá. O que vem do povo, historicamente, é ruim. Um cara como Criolo precisa do aval do Caetano para que os intelectuais o abracem. É um exercício de humildade muito grande admitir que o povão tem a faca, o queijo e as manifestações artísticas na mão. Por muito menos, Paulo Coelho, que é mais inteligente que 90% dos intelectuais brasileiros, era visto como um pobretão da palavra. No Brasil, é proibido fazer sucesso, a não ser que pertença ao grupinho daqueles que pensam. Estamos numa era de projeções. As pessoas idealizam aquilo que elas gostariam de ser e transpõem isso para as redes sociais. Compartilha-se aquilo que é considerado inteligente e no “o que você faz quando ninguém te vê fazendo” ouvir de cantinho Simone e Simaria. Aí está o combo da desonestidade intelectual, que funciona como um pacote de medidas para integração rápida a um grupo considerado inteligente. Quando, na verdade, nada é mais burro do que negar os próprios gostos.

Portanto, no duelo entre Chico e Vittar, ponto para Vittar. Uma música divertida, que eu vou me esquecer no ano que vem, mas que vai me embalar mais do que a chatice sonolenta de “Tua Cantiga”. Meu gosto musical talvez não seja parâmetro, tampouco meu gosto artístico. Achei “Deus e o Diabo na Terra do Sol” um saco e adoro “Rio Babilônia”. Acho “Chega de Saudade” pior que “Eu Quero Ver o Oco”. Heresia é, também, teoria, ideia, prática etc. que nega ou contraria a doutrina estabelecida (por um grupo). Pratico, logo, a tal heresia, ouvindo Pabllo Vittar, dançando Despacito e admirando, profundamente, aquele Chico que escreveu que a gente estancou de repente, quando era jovem, com sangue nos olhos e relevante. Depois, como bom herege, falo mal de tudo isso, mergulhado nas minhas incoerências, esperando o próximo sucesso pra dançar ou arrebentar. Tudo para não estancar de repente.

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