Como ter um milhão de amigos no Twitter

Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos. Acho até que conseguiu, porque vendeu pra caramba. Fez discos, conquistou popularidade, compôs e gravou músicas que o povo comprou. Roberto Carlos nem me parece tão legal assim pra ter um milhão de amigos, mas ele é um cara importante. No Twitter, Roberto Carlos não tem um milhão de seguidores. Tem, de acordo com sua conta verificada, 661 mil seguidores. Todo brasileiro sabe quem é Roberto Carlos. Você sabe quem é Maju Trindade? Nem eu. Você também não vai saber quem é neste texto. A única coisa que interessa sobre Maju Trindade aqui é sobre o número de seguidores dela no Twitter: às 13h37 do dia 30 de agosto de 2017, a arroba @majutrindade tinha 4.307.589 seguidores.

Acho que a Maju deve ser mais legal que o Roberto Carlos, porque nesta era de pós-modernidade e de distorções das noções de poder e popularidade, ela superou o Rei. Com seus quatro milhões de brothers, alguma coisa ela tem, por mais que eu não consiga enxergar. Mas o meu distanciamento com o tema não permite isso e, infelizmente, jamais permitirá. Maju escreve para o universo teen, com a temática adolescente e o rompimento de regras que este campo consagrou ao longo dos tempos. As normatizações vigentes no estereótipo da adolescência mudaram. É um tanto estranho que isso seja manifestado no ambiente das redes sociais, que, em tese, tem abrangência para todas as faixas etárias. Ou, se pegarmos o Twitter, ao menos é vendido assim. Entretanto, é preciso sair da superfície e investigar como funciona esta rede social na criação desse star system paralelo (tema já abordado em outro texto meu). O Twitter, mesmo sem querer, é um ambiente teen.

Na noite de domingo, dei uma passada na minha timeline do Twitter. Eram três os assuntos predominantes: os cavalinhos da Dupla Grenal no Fantástico, o último episódio de Game of Thrones e a exibição do Video Music Awards (VMA) da MTV. Eu tenho certeza que, caso fôssemos para o recreio do primeiro ano do ensino médio de uma escola particular de Porto Alegre, os assuntos seriam os mesmos. A gurizada do futebol tirando onda com os cavalinhos; os mais antenados, nerds e geeks, com o GOT; o pessoal mais próximo do mundo pop falaria sobre o VMA. Ou seja, a divisão por temas se dá muito mais por interesse do que por faixa etária. Adultos e adolescentes falam a mesma língua no Twitter. Não há um distanciamento de interesses entre a minha geração e a galera que tem 15 anos. Talvez, além da evidente diferença física, a separação se dê através do vocabulário, mas não tanto assim.

Um dos motivos para este interesse em coisas do mundo teen por gente da minha idade é a obsessão que temos pela nostalgia. Vi Trainspotting 2. Fiquei triste. Eu me diverti com o filme, mas percebi que, assim como Mark Renton e sua turma, a gente se perdeu em autorreferência. Como nos episódios de domingo à noite, o filme ilustra mais ou menos como a gente tenta, a todo custo, reviver sensações que tínhamos na nossa adolescência. Minha geração tem medo de crescer e se apega em todos os objetos que possam dar algum tipo de sentimento nostálgico que nos remeta a esta época. A gente adoraria o nosso star system paralelo, mas empacamos no obsoleto. Gastamos nosso tempo com os mais improváveis revivals, como o pagode dos anos 90, os reboots de franquias da época no cinema e as pencas de literatura pop consumidas. A gente dá views pra Banheira do Gugu, pros vídeos com os Mamonas Assassinas, vai no show do Hanson, torce pela volta das Spice Girls e não entende que nosso tempo passou. Faltou um update, uma versão nova, uma atualização nos interesses. Faltou um reboot em nós, por mais que tentemos, ridiculamente, chegar lá.

Esta falta de sintonia (e a consequente vontade de tê-la) com os tempos modernos gera uma incompreensão absurda em nós. A gente não faz a menor ideia do que captura e cativa o jovem, mas seguimos perseguindo isto. Como um vovô garoto de pulôver, a gente só quer saber o que vem por aí. Nossa geração é muito bem informada, mas não nasceu com a Internet. Os adolescentes de hoje convivem com ela desde cedo. A gente é da época em que tudo era mato. Eles já têm o peixe na mesa e frito e sabem qual a receita para deixá-lo melhor. A gente teve que aprender a pescar. Mas a gente não quer ficar de fora. No mundo atual, hiper-realista, hiper-espetacular, hiper-tudo, ninguém quer perder nada. Desconhecimento sobre algo mais hypado é perda de poder. O problema é que a gente não entende o hype. Na verdade, a gente não precisa dele. Don’t Believe the hype, mas como assim? O hype é pop, o mundo é uma eterna busca pelo pop.

O conceito de popularidade também se pulverizou um pouco com a Internet. Naquele estereótipo do “Te Pego Lá Fora” (falei que somos obcecados pela autorreferência), Buddy Revell perdeu pro Jerry Mitchell. Aquele modelo do popular garotão atleta que se dá bem com as mulheres morreu. Pop é quem entendeu a Internet. Pop é quem tem milhões de amigos com criações do novo milênio: os gifs (de preferência, com cachorros, cara de tédio ou feições de artistas famosos), os memes (é memes ou menes, eu nunca entendi isso), os fabricantes de novas tendências (pra quê propaganda na TV, contrate um digital influencer e deixa postar no Instagram) e os chamados produtores de conteúdo digital. Não entendi muito bem esta lógica. Melhor, não entendi muito bem o que é o tal conteúdo digital. Eu não entendo nem os memes. Eu ainda gosto dos anos 90. Sou a mais perfeita personificação de um indivíduo mergulhado nas tais referências pessoais e não consegui olhar para o lado para perceber como é montado esse sistema.

Boa parte da minha geração não entendeu, mas não vai admitir. Por isso, anda em círculos tentando acompanhar como opera este circo. O Twitter tem uma linguagem própria, que passa longe da responsabilidade pessoal sobre aquilo que se escreve. São códigos que se manifestam em frases, em relações e naquilo que mencionei anteriormente. O uso correto destes códigos determina quem é ou não um influenciador digital. Não é sobre conteúdo, é sobre projeção e entendimento da rede. Estes códigos são, via de regra, consagrados em um formato teenager, adolescente, sem riscos ou repercussões mais sérias e amplas. Amplia-se para o Instagram, onde, ao invés do texto, a construção da imagem é através de fotos. Por incrível que pareça, com todo seu espectro moralizante, inquisidor, falso e arbitrário, o Facebook é a rede social mais democrática. O Facebook não é o terreno de domínio dos teens. Como toda rede mais plural, tem de tudo. Se não é território, não é poder, e o adolescente não se sente dono deste campinho.

Já escrevi também que sou um peixe fora d’água nas redes sociais e isso é por puro incômodo sobre o seu conteúdo predominante. Ou por não encontrar empatia em quem domina este campo. Em quem tem este poder. Talvez porque eu não consiga sair da armadilha autorreferencial, que me deixa num Dia da Marmota preso em algum lugar de 1998. Ou talvez por não entender como um menino que não diz nada consiga ter 1 milhão de seguidores. Ou de amigos. Ou por não entender como uma pessoa possa achar legal ter diálogos abertos sobre sua vida íntima. Ou por não compreender como funcionam estes códigos. Ou por não entender estes dialetos e estes diálogos. Ou por não saber conversar direito com as redes sociais. Por não falar esta língua, que, pelo que vejo, outras pessoas da minha geração seguem tentando.

Dias desses, usei a palavra “top” pra definir algo muito bom. Ficou ridículo. Não sei falar esta língua. Imediatamente, fui alertado que a palavra não condizia com o que eu sou. É só uma palavra, mas ela, talvez, pertença a um mundo que não é meu. Eu não tenho um milhão de seguidores. Tem gente que tem. Tem gente que usa a palavra “top”, que é coisa de teen. No fundo, não importa o conteúdo. É sobre como se situar num campo explorado, basicamente, por gente que entende do assunto. A exploração deste campo fértil é livre para quem acha o máximo um perfil de alguém que ninguém sabe quem é, mas que tem um milhão de amigos por postar fotos e vídeos em busca da sua autoafirmação. Nada mais adolescente que isto. Nada mais Twitter que isto. Conferi o perfil. Bastaram três posts. Fiquei calado. Recolhi imediatamente a minha moral de cuecas e, só de raiva, escrevi um capítulo inteiro da minha dissertação. Ficou top.

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