Entre o trabalho e o desfrute: a ignorância como honra ou a alienação como felicidade

Carlos Guimarães
Jul 27, 2017 · 4 min read

Uma inquietação que tenho há tempos e não consegui traduzir para o papel é sobre como funciona a questão laboral no Brasil. Especialmente, sobre as tensões existentes entre o trabalho braçal e o trabalho intelectual. Historicamente, o discurso de que o trabalho dignifica o homem remete a questões que compõem intrinsecamente o ethos do ser humano moderno. Quanto mais se trabalha, mais honesto, digno e socialmente relevante a pessoa se torna. Entretanto, matérias sobre como a pessoa se desvinculou do cotidiano para viver o sonho da vida sem raízes, viajando pelo mundo e adquirindo supostas experiências problematizam esta questão. Atirando para todos os lados e não concordando com ninguém, duas perguntas são lançadas neste texto, sem a pretensão de respondê-las, mas sobretudo, com a intenção de deixar uma pulga atrás da orelha, nem que seja da minha: é mais digno aquele que passou a vida toda basicamente morrendo de tanto trabalhar? A outra: ser um Into the Wild é pra quem quer ou pra quem pode?

Com um certo orgulho, pessoas colocam que trabalham, sei lá, desde os NOVE anos de idade. E que nunca pararam de trabalhar. Carregam isto como uma bandeira, uma qualidade, quase uma divindade. Não obstante, é um certificado de honestidade, dignidade e superioridade. Em contrapartida, sobram discursos a respeito de quem passou a vida estudando e realizando a chamada atividade intelectual. Cria-se um estereótipo, portanto, do que é trabalho válido. É aquele que se faz com força, esforço, dificuldade. Aquele no qual se passam horas e horas a serviço de um patrão, produzindo como mão de obra do empregador e da própria dignidade. Em alguns casos, acha-se normal trabalhar 12 horas por dia, porque é melhor do que ficar desempregado.

De outro lado, geralmente jovens se desprendem de suas famílias, suas raízes e — principalmente- seus problemas para se aventurar numa terra com língua estrangeira, gente desconhecida e supostas múltiplas possibilidades de viver uma vida mais divertida. A rigor, é uma fuga dos males da vida pós-moderna, que são o tédio e a irrelevância. Na sociedade do espetáculo, nada é mais opressor que a irrelevância e nada é mais fácil de obter que o tédio. É a antítese do que foi descrito no parágrafo anterior. Esse povo todo não quer trabalhar 12 horas por dia, por mais que a única coisa que possibilitou o sonho do desfrute tenha sido algo parecido que seus pais fizeram. É um sintoma dos tempos atuais. Não há a preocupação com a consciência, só com as experiências, líquidas, fugazes e descartáveis.

Os dois tipos se opõem. De um lado, um pensamento mais conservador, tradicional e altamente bitolado. De outro, uma suposta ânsia por viver revestida de coragem, mas que internamente lateja covardia. Encarar os problemas reais significa suar. Fugir dos problemas reais significa viver. No meio de tudo isso, uma única coisa não é levada em consideração, chamada conhecimento. Tanto na vida que dignifica quanto na vida que diverte, o conhecimento é despachado, pisoteado, desprezado. Claro que compreendo as diversas formas de conhecimento, a busca pelo saber empírico, o aprendizado pelas experiências e as diversas formas de sabedoria. Todavia, ele aparece como uma coisa abstrata, aleatória e não perseguida. Ninguém trabalha feito louco ou viaja feito deslumbrado para adquirir conhecimento, embora por vezes seja a desculpa perfeita para fugir deste inferno chamado vida real de cada um.

O primeiro grupo considera estudar ao invés de trabalhar uma tremenda vagabundagem. A segunda turma acha que estudar ao invés de viajar e pirar por aí uma grande perda de tempo. Nos únicos casos possíveis de meio de vida digno e/ou divertido, estudar significa não ganhar dinheiro, não suar e não se divertir. No primeiro caso, faltará a quem estuda uma enxada. No segundo, o Google resolve qualquer dúvida. Este desprezo é, na verdade, um grande fracasso humano e é alicerçado numa grande carga cultural histórica que considera apenas o tempo de produção para a sociedade como valor real a se considerar.

Em geral, empresas, gestores e empregadores não valorizam o talento, a capacidade e o conhecimento. O número de horas trabalhadas é o que vai determinar o valor de uma pessoa. É sobre quanto uma pessoa trabalha e não de que forma ela trabalha. É uma análise quantitativa que supera a qualitativa. O poder braçal supera o intelectual. É sobre o quanto você se suja no barro e não sobre o quanto você gasta os neurônios. O ideal laboral brasileiro valoriza a força e não a inteligência. No outro lado, quem foge desse cotidiano atroz vai em busca do novo frenesi pós-moderno, que é a avidez das experiências e da incrível capacidade de jogar fora toda e qualquer coisa — da família à cama quente — em nome do mais. É também uma vida quantitativa, na qual a proporção das horas de diversão é a mesma das horas de trabalho. É, em suma, uma fuga, uma fraqueza, uma ilusão.

Com isso, entre a honra e a alegria, conhecer virou secundário. Conhecer não dignifica o homem como o trabalho e não diverte o ser como o desfrute e o deslumbre. É uma terceira via opaca, via de regra arrogante e, em tempos de tudologia, desnecessária. Não faz suar nem sorrir. O sofrimento calejado e a alienação voluntária se desdobram entre os sentidos reais da vida pós-moderna. O intelectual é desprezado, jogado na vala irrelevante dos boçais e arrogantes. Os pensadores são aqueles que não têm mais o que fazer e que passam seus dias colocando problemas nas coisas. O caminho correto é o da consciência pura do trabalho braçal para uns. Para outros, o live and let live dos falsos andarilhos egoístas, que pensam somente em seus umbigos mal forjados, entre um passeio de bicicleta em Paris e uma viagem de trem para Praga. No fundo, aliena-se para adquirir tranquilidade. A única calmaria possível é a ignorância. O único saber possível está no cabo de uma enxada ou no like de uma postagem. Na minha cabeça, sempre foi no livro, que é coisa de vagabundo ou de quem não pega ninguém.

    Carlos Guimarães

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    Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.