Eu, em cima do muro

Tenho muita coisa para escrever sobre o que está acontecendo no Rio Grande do Sul. Começo a escrever, paro. Encaminhei umas linhas sobre (mais uma vez) a violência urbana em Porto Alegre. Não funcionou. Ainda tento um texto sobre o atual momento do jornalismo brasileiro, com demissões, descrédito e desconfiança. Paro.

Brinquei esses tempos que estou na fase de “austeridade de opiniões”. Opinião apenas para aquilo que devo dar, textos apenas sobre o que preciso escrever: meu artigo da pós, minha pesquisa, meus comentários na rádio, futebol. Nada mais. A desmotivação prática do dia a dia afeta a criatividade.

Qualquer texto sobre a situação do Estado vai gerar um debate ideológico. Esquerda x direita. Quem é de esquerda responsabiliza a direita e vice-versa. Não há espaço para o bom senso quando se está impregnado de carga ideológica. Não existe meio termo. Há apenas o oito e o oitenta, não há argumento, não se pondera. Se eu sou Sartori, aconteceu porque o PT deixou assim. Se eu sou PT, jamais aconteceria isso que o Sartori tá fazendo. Nestes casos, apenas há o jogo do empurra-empurra. Há o diagnóstico da culpa, nunca a previsão da solução. Ninguém quer apontar um caminho para ir, só mostrar quem errou o caminho para chegar.

Qualquer texto sobre violência urbana dá no mesmo. Se há uma revolta com os assaltantes, ferimos os direitos humanos. Se buscamos entender as razões e discutimos o sistema, nós apoiamos vagabundos. Não há meio termo, não há a discussão racional a respeito do tema. Novamente, oito ou oitenta.

Na verdade, as pessoas duvidam que uma opinião pode ser dada sem o extremismo de A ou B. As pessoas também duvidam que é possível opinar sobre assuntos onde há bandeira (clube de futebol, partido, religião) com o cérebro e não com o escudo que eu amo.

Quanto mais leio um esquerdista, torno-me mais de direita. Quanto mais leio um radical de direita, fico mais à esquerda. Quanto mais leio um torcedor que manifesta ódio ao adversário, mais simpatia a este eu terei. Não sou anti nada, mas estou tomando uma certa repulsa por quem é anti alguma coisa. Estou virando o anti-anti. Desde o princípio contra quem odeia algum partido, alguma religião, algum time, alguma preferência de alguém.

Virei um murista. Vivo num muro tentando equilibrar as coisas, penso sempre no outro lado, não me posiciono radicalmente a favor ou contra qualquer ideologia, costumo respeitar quem pensa contrário e me posiciono de maneira racional, tentando observar todos os lados possíveis. Mas, com tudo isso, já tenho minha bandeira: sou contra quem odeia.

Eu odeio injustiça, dia de chuva, inverno, comida ruim e fila de banco. Mas eu não odeio quem pensa o contrário de mim. Eu não entro num casulo, tapo os ouvidos e não olho para os lados, como se não existisse nenhuma verdade que não seja a minha. Eu entendo quem não pensa como eu, quem não é como eu, quem não gosta das mesmas coisas que eu, quem não anda do mesmo jeito que eu. Eu não sou a verdade, sou apenas uma pessoa, diferente de todas as outras no modo de pensar, agir, proceder e gostar. Mas juro que não entendo o ódio das pessoas.

No fundo, é mais um componente nessa minha fase de ceticismo, pessimismo e uma espécie de resignação precoce: eu parei de escrever para não ler que as pessoas odeiam. Talvez eu esteja fazendo como Sérgio Ricardo quebrando o violão: vocês ganharam! Deixa aquele garoto que queria mudar o mundo assistindo a tudo em cima do muro. Quieto. Alienado.

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