O dilema do analista de futebol moderno: as contradições que afastam um novo público

Carlos Guimarães
Aug 25, 2017 · 6 min read

O novo comentário esportivo é mais atento ao conteúdo do que à forma. No passado, havia uma dedicação especial ao estilo, à acessibilidade e aos recursos de linguagem. É normal que aconteça uma transformação no modo de comunicar e operar os costumes jornalísticos. A tecnologia e o acesso rápido à informação desafiam os comentaristas. De uns tempos para cá, ao invés de somente reproduzir formatos que eram consagrados numa época em que, por exemplo, não havia internet, passamos a agregar novos elementos para a análise. As análises tática, de desempenho e de aspectos relacionados ao jogo em si são bem vindas. No entanto, o analista moderno parece estar virando o fio em seu próprio ensimesmamento. Ao contrário da preocupação dos antigos em levar sua mensagem para as massas, o comentarista dos tempos modernos caiu numa armadilha: cada vez mais, ele está falando com as paredes.

Entendo que sou um representante desta análise moderna de futebol. Também reconheço meu deslumbramento com o tema, que de fato é fascinante. Compreender o jogo de futebol como um duelo de estratégias, de armações táticas, de possibilidades de ataque e contra-ataque e conceber a partida como um confronto de pensamentos são coisas que deslumbram. Quando fiz o curso da Universidade do Futebol e passei a conviver com um pessoal que me explicou muita coisa e se dedicou ao assunto, tive esse efeito colateral. Achei que, por ter o conhecimento, deveria entregar a mensagem na marra para o meu interlocutor. Comecei a criticar o que vulgarmente se chama de “velha escola” da análise. Entender o jogo por este viés era como descobrir a roda. Incensado por ouvintes e seguidores como uma “novidade”, passei a adotar este tipo de procedimento como uma “nova ordem” ou uma “nova verdade” na comunicação esportiva. Como todo processo cultural precisa de um trauma para que seja quebrado, procurei entender os motivos desta rejeição. Depois de um bom tempo, vendo gente que não procurou estudar ter mais aceitação do que os estudiosos dos novos tempos, percebi as razões deste descaso: a maneira com que os analistas modernos se comunicam.

O discurso funciona, também, como um recurso estilístico para produção, obtenção e manutenção do poder. A linguagem pode ser método para a retenção e/ou do conhecimento. Quando você vai ao médico, por exemplo, ele diz que há um trauma encefálico ocasionado por uma contusão acidental. Traduz-se por “bateu a cabeça e formou um galo”. Por assim dizer, praticamente todas as profissões adotam termos técnicos como dispositivo autentificante do seu próprio ethos. A produção de um vocabulário específico restringe a compreensão do tema. Além disto, gera uma sensação de arrogância que não é bem vinda à massa que se julga atingir. O conhecimento, ao invés de compartilhado, é retido. É propagado apenas para um gueto seletivo, escolhido e julgado pelos mesmos como merecedores desta atenção. Ao invés de ser espalhado para que outras pessoas também compreendam os pormenores do jogo, é cada vez mais hermético, fechado e tratado como um fenômeno interno. Não teria problema nenhum, não fosse uma das principais reivindicações dos analistas, a de que “não se debate sobre o jogo em si no Brasil”.

Futebol é, acima de tudo, lúdico. É um despertador de paixões e neste âmbito as discussões se desenvolvem no Brasil. Em um debate com amigos, veio um contraponto interessante: o público quer saber as razões pelas quais seu time perde ou ganha? Acredito que a parcela que requer este conhecimento tem aumentado. A cada dia, há mais interessados sobre as análises táticas, os números do jogo, as estratégias consideradas e o esporte como forma de conhecimento. Entretanto, existe uma cultura. Atualmente, ela indica que o futebol é consumido de forma passional, recreativa e sentimental. Entender o jogo como algo mais profundo, os meandros que constroem vitórias, as capacitações que reúnem o esporte, a multiplicidade de áreas envolvidas na concepção de ideias, equipes e clubes, são pontos colocados ainda em segundo plano. Culturalmente, nossa compreensão sobre o futebol ainda é baseada no “ganhou, tá bom; perdeu, tá ruim”. Será que é preciso estender ao grande público as minudências dos processos científicos e estratégicos do futebol? Isto não tiraria a ludicidade do esporte?

A questão é, sobretudo, de como classificar este conteúdo. Indiscutivelmente, ele é bom e importante. Mas ele é necessário para a audiência? Ou ele é dispensável diante desta cultura que funciona como um certificado de autenticidade, pureza e honestidade do torcedor? Ninguém é desonesto ou impuro com as próprias paixões. Precisamos realmente entregar estes óculos para amplificar uma visão propositalmente ofuscada pela pureza dos estádios de futebol? Estas perguntas são necessárias para entendermos qual a amplitude do assunto análise tática. Não havendo necessidade do tema alcançar o público em geral, não há de se preocupar. Apenas precisa-se redirecionar este foco e objetivar o cerne para um público específico, para um nicho próprio ou, como usei anteriormente, um gueto. Agora, não é uma obrigação do jornalista esportivo que trabalha na mídia tradicional explicar estar minúcias? Ou seria, num processo de projeção para a audiência, estimular justamente este lado lúdico, que inclui a flauta, a corneta, a piada pronta e as bandeiradas?

Tais questões ainda geram dúvidas. Todavia, há uma corrente que acredita que este conteúdo mais técnico mereça ser estendido para parcelas maiores da audiência. Se o pensamento for este, há um equívoco gravíssimo sobre como ele tem sido repassado. Boa parte dos especialistas nestas análises vem falhando miseravelmente neste objetivo. Não se conquista a massa com dialetos. Não se mudam culturas pelas particularidades. Elas modificam-se pelas generalidades. E, neste caso, não é um problema de conteúdo. Acredito que, se bem propagado, este conteúdo é apreendido de uma forma menos traumática, mais abrangente e acessível para o torcedor. Principalmente, menos arrogante. Um exemplo clássico é a utilização de termos que são incompreensíveis por boa parte do público e que, de imediato, geram a sensação de arrogância. No melhor estilo Bela Gil, você pode substituir “terço final” por “zona de ataque”. “Dar amplitude” por “alargar o campo”. “Jogo apoiado” por “dar opção pro passe”. “Marcação alta” por “marcar a saída de jogo do adversário”. E por aí vai.

A impressão que tenho é que este vocabulário serve como uma espécie de proteção, um mecanismo de defesa deste poder adquirido pelo conhecimento específico que os analistas modernos julgam ter. A expressão própria como um carimbo de posse do conhecimento. Um capricho em defesa do domínio e não da extensão ou da expansão. Dezenas de programas, tweets, blogs, podcasts vídeos tratam hoje a questão da “análise moderna” como um fato novo (sic) dentro das diversas possibilidades analíticas que o futebol fornece. Neste sentido, cabe dizer que somente duas coisas são novas neste processo: os neologismos já mencionados e a atenção de um público que começa a querer ter acesso a este conhecimento. Entretanto, em muitas oportunidades, este mesmo público esbarra nesta parede construída por aqueles que detêm o conhecimento e que, contraditoriamente, julgam querer que este conhecimento seja compartilhado. Ninguém consegue acessar aquilo que não se entende. Mais arrogante ainda é o analista querer que “aquele que se interessa, deve correr atrás para entender os termos”. Isso vai na contramão de como todos os processos que determinaram mudanças culturais aconteceram. Mais importante que entender, por vezes é se fazer entender.

Os analistas ainda não entenderam este dilema. Conhecimento próprio ou compartilhado? Caso eles reconheçam que este assunto mereça ser direcionado para um público específico e interessado, melhor parar de reclamar quando é feita uma pergunta sobre a cor da cueca do treinador. Se o pensamento for o contrário, por favor, repensem. Sou amplamente favorável às mudanças de cultura, mas vocês não estão fazendo do jeito certo. E é fácil reverter esse jogo. É só lembrar de quando vocês eram crianças e diziam que queriam jogar no ataque (terço final), quando vocês mandavam o companheiro de time na pelada apertar a saída do goleiro (marcar alto), quando orientavam o parceiro a abrir bem o jogo (amplitude) ou pro cara aparecer e tocar curto (jogo apoiado). É possível unir o brincante ao acadêmico. É possível unir o técnico ao agradável. É possível transformar o gueto em comunidade. O lúdico sempre explicou o jogo e ninguém precisou trocar de idioma pra que a gente entendesse o esporte que tanto amamos.

Colaboraram para este texto, com debates, discussões, trocas de ideias e inspirações: Ígor Póvoa, Vinícius Fernandes, Luiz Caldas Milano Jr, Alex Bagé, Dado Moura, Chico Garcia, Rodrigo Oliveira, Cristiano Oliveira, Jeremias Werneck, Vivian Leal, Gabriel Pereira Reis, Maurício Wiklicky, Leonardo Miranda, Mairon Rodrigues e diversos seguidores e ouvintes interessados pelo assunto.

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    Carlos Guimarães

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    Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.