O legado Johan Cruyff

Certa vez, li um artigo sobre origem, desenvolvimento e características do “tikitaka” do Barcelona e seus princípios: a marcação pressão, a valorização da posse de bola, o agrupamento de jogadores para linhas de passe, a importância física para adquirir superioridade numérica nas fases do jogo e a fundamental importância de preencher o espaço e neutralizar as atividades do adversário.

Imediatamente retornei a uma referência clássica de modelo de marcação pressão e ocupação dos espaços inteligentes em campo: o jogo entre Holanda x Uruguai na Copa de 1974. O vídeo, de quase três minutos, apresenta os lances em que a Holanda, sempre com superioridade numérica, marcou a saída de bola do Uruguai com capacidade física e leitura de espaço extraordinários. Era o futebol total, que consistia em reunir nos terços de campo, com ou sem a bola, o maior número de jogadores com o objetivo de desarmar o adversário e de articular uma jogada ofensiva.

Em 1974, tivemos o último grande ponto de corte no futebol mundial. Alguns defendem que o Barcelona de Guardiola estabeleceu este rompimento em termos de história da evolução tática, mas (não é uma conclusão definitiva) creio que aquele timaço tenha sido o aprimoramento das ideias da Laranja, um upgrade nos conceitos que o mundo conheceu nos anos 1970. Ali, houve o alicerce, a revolução para tudo aquilo que entendemos sobre futebol coletivo nos dias de hoje.

Cruyff, o craque do time, levou o conceito de Rinus Michels para a academia, para a prática e para o deleite dos teóricos. Foi estudado e praticado, como filosofia, como idealização de um futebol compatível com o momento, na demanda física, nos princípios e subprincípios desenvolvidos, na ideia de que uma proposta coletiva de jogo é necessária para a implantação do futebol atual.

Johan Cruyff foi o único gênio da bola (era um cracaço) a introduzir o modelo com o qual se consagrou como um pensador do mesmo, um avalista da totalidade, um diretor que de fato contribuiu com um legado que até hoje não foi superado. Talvez Guardiola consiga, quem sabe, mas é o único hoje em dia, mas lembro que, embora bom jogador, dentro de campo Guardiola não era como Cruyff.

Ao observarmos o modelo ideal de futebol perseguido pelos estudiosos, enxergamos Cruyff. Um dos maiores de todos os tempos, que perpassou a própria habilidade de jogar bola. Cruyff utilizou uma leitura impressionante do campo de jogo para provocar as estruturas do futebol e deixar na história tudo aquilo que queremos com o esporte: a ideia de futebol total, muito próxima do futebol perfeito. E isso não é pouca coisa.

(VÍDEO ABAIXO: O PRINCÍPIO DE MARCAÇÃO ALTA ADOTADO PELA HOLANDA DE 1974 CONTRA O URUGUAI)

https://www.youtube.com/watch?v=TsMfOXlKuDA

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