O mau do bom Cosme

Cumade Silva


Muitos não esquecerão de Cosme. Sabe-se bem que ficará lembrado por muito tempo após sua morte, mais que os nove meses de lembrança cedidos antes do nosso esquecimento, para empatar com os de gestação. Assim acreditam muitos: antes de nascer somos amados por nove meses até vir a vida; quando morremos temos nove meses, para vagar, resolver pendências e então somos totalmente esquecidos.

As suas obras serão por muitos contadas, de Cosme não, de outros. Incrivelmente, ele não é protagonista de seus feitos, mas está sempre lá, coadjuvante, exercendo papel de observador. O homem era bom, no seu interior, mas como somos julgados por nossas ações, ninguém tem ciência do fato. Para o resto do mundo ele é mau, não só de fazer o mal, mas de ser seu articulador e arquiteto.

O caso mais importante da vida de Cosme ocorreu na semana passada. Para entendê-lo bem, é necessário conhecer um pouco da sua infância.


Diz-se que o malvado de verdade sabe esperar, tem o sangue frio. O mau sabe o tempo certo, sem pressa. Ao contrário do bom, que se entrega à ingenuidade da euforia, ou à sabedoria da paciência.

Vários casos acusam a maldade de Cosme, exemplificam este certo momento de espera que o mal prevalece. Ainda na infância se observara sua maestria para o errado. Tinha uma cachorra chamada xola, que adorava se deitar à entrada de casa, onde diversas vezes era chutada aos tropeços no chão. A cachorra não viveu o suficiente para conhecer muito do mundo. Com fim trágico nos abandonou. Um dia, passeando com Cosme, corria alegre pela beira da estrada, sem conhecer o perigo entrou na frente de um carro. Cosme não fizera nada, vira tudo, esperara assistindo. João estava próximo, vira a cena e não demorou para espalhar o boato. “Cosme não fizera nada”, chegou ao ouvido de todos. Até hoje sua vida fora sempre assim, estava presente nas desgraças, mas nunca fazia nada.

A fama de Cosme cresceu, fez várias vítimas e acidentes: sempre aos assustados, descrentes e desafiadores. Agora, tragicamente, morreram dois homônimos seus. Cosme fora um nome muito comum na região, vários foram batizados assim devido a um poderoso político da cidade que fizera inúmeras benfeitorias. Hoje porém, muitos temem ser confundidos com o nosso Cosme.


Voltemos ao fato. Era fim de tarde e três de nome Cosme esperavam na parada de ônibus. Cosme, odiado por muitos devido sua fama, fora jurado de morte por um coronel. Neste dia os seus assassinos o procuravam. Nem ao menos um Cosme desconfiava do mal que viria.

Os matadores se aproximaram e fizeram breve pergunta.

“Cosme?”

Dois se apressaram, confirmaram com a cabeça e morreram. Cosme não fez nada, apenas assistiu.

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