Barba Ensopada de Sangue, p.418/419

Para.

Tu sabe que eu tenho razão. É teu rancor que te impede de aceitar.

Entendo o que tu tá dizendo. Mas não dá.

Não dá?

Não posso aceitar.

Tu tá recusando o pedido de ser padrinho do teu sobrinho. É isso?

Escuta. Eu entendo o que tá dizendo. Imaginando é perfeito mesmo. Mas é impossível. Não dá pra fingir que é possível. Que eu poderia perdoar ele num estalar de dedos. Vocês tão viajando.

Por que tu não pode perdoar ele?

Não é óbvio?

Tu é tão mesquinho assim? Eu te perdoo por ter me deixado ir embora e escrito um bilhetinho pra ti mesmo em vez de falar comigo. Tu é incapaz de perdoar?

Eu não quero o teu perdão.

Te perdoo mesmo assim.

Eu não aceito. Me recuso a ser perdoado.

Rá! Que genial. Isso é bom demais.

O que eu fiz de errado eu carrego comigo. Nada some porque a gente decide, porque a gente quer. Ninguém pode me tirar o mal que eu fiz pros outros. A gente precisa disso para ser uma pessoa melhor. Perdoar é como fingir que não existe. Mas a vida é resultado do que a gente fez. Não faz sentido agir como se algo não tivesse acontecido.

Perdoar não é isso! Tu é maluco! Perdoar é livrar as outras pessoas da culpa. E fazendo isso tu também te liberta. Não é fingir que não existiu. É uma doação, uma entrega. É uma escolha que se faz. Precisa de coragem, mas vale a pena.

Não é uma escolha. Não existe escolha.

Não?

No fundo não.

Se é assim, por que o rancor? Por que o rancor se ninguém escolhe nada? Se a gente só obedece ao destino, ninguém pode ser responsabilizado pelo que faz. Não é? Tudo o que eu fiz, que tu fez e que teu irmão fez não passa de destino. Não tem o que perdoar porque ninguém é culpado.

(Barba Ensopada de Sangue, p. 418/419, Cia. das Letras, nov.2012)

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.