Der Kapital — Eça de Queirós

“(…) Mas a bacante, subitamente calma, começou a comer com uma gula afectada, rindo sem motivo, metendo os dedos no molho, limpando-os ao cabelo de Artur. E Melchior, tranquilo, recomeçou a gozar.

— Hem, meu amigo, bela pândega…E queria você ir para Oliveira de Azeméis!

Artur sentiu uma pancada no coração: viu de repente a casa, lá longe, o quarto da tia Sabina e a face agonizante sobre o travesseiro de folhos engomados; uma campainha tocava na rua, vozes entoavam o Bendito: era o padre Joaquim com os sacramentos, seguido de vizinhos de opa escarlate…E no quarto, cheio do terror da morte e dos aparatos da agonia, corriam as lágrimas de Ricardina e soavam lugubremente as orações de Joana…

Para expulsar esta alucinação, bebeu de um trago um copo de conhaque. E, quando saíram do gabinete, cambaleava e jurava à bacante, com a voz entaramelada, que havia de casar com ela.

Ao chegarem ao salão de baile, a quadrilha final começava e o cancã electrizante de Orphée aux Enfers fez-lhe reviver a excitação. O baile tomava o aspecto de uma troça bêbada: pessoas desmascaradas tinham expressões de fadiga imbecil, outras agitavam-se, bruscas, de mau humor, violentas; só alguns, roucos de gritar, iam ainda balbuciando pilhérias. Artur, diante da bacante, debatia-se furiosamente: o álcool dava-lhe a raiva dos movimentos convulsivos: punha uma cólera no bater dos pés, um frenesi no agitar dos braços; o capuz do dominó caíra-lhe, o botão do colarinho saltara, e com a face lívida, manchada, suada, torcia-se numa demência, soltando ganidos. Mas ao som estridente da orquestra, o galope começou: era uma confusão amarfanhada de corpos engalfinhados, arremessando-se desengonçadamente, com pulos grotescos, patadas desesperadas no soalho…Uma poeirada sufocava, e e o regente, com o colete repuxado, a camisa aparecendo-lhe na cinta, agitava a batuta, impelindo os agudos. A espaços, nos ritmos mais pausados, toda aquela grossa multidão se balançava, tomando fôlego, com uma vasta aspiração arquejante…Mas logo os compassos electrizantes estalavam: o regente desengonçava-se, as faces inchadas sopravam nos clarinetes, e os estridores das flautas e os uivos das rabecas partiam, impelindo o galope, como chicotadas sonoras atiradas aos rins da canalha. Todos se arremessavam. Caudas de vestidos descosiam-se, tranças postiças caíam sobre as costas penduradas por um gancho, vozes agudas gritavam numa exaltação impetuosa; e turcos, Aquiles, dominós, pastorinhas, fadistas, prostitutas e bêbados, cambaleantes, iam num tropel de troça esbandalhada, com um desengonçamento demente, num turbilhão circular — enquanto o ponteiro negro já marcava, gravemente, a primeira hora triste de quarta-feira de Cinzas.

A última sensação clara de Artur foi a sua entrada numa tipóia, com uma mulher: doido de álcool, abraçado a ela, num frenesi, procurava mordê-la; ela repelia-o, socava-o; ele arremessava-se e lutavam, esguedelhando-se, enquanto a tipóia rolava a trote largo, na rua já clara, onde as leiteiras iam tocando as suas vacas.

Quando acordou, ao meio-dia, achava-se deitado num cubículo escuro, de cheiro infecto. O seu olhar estremunhado, vagamente inconsciente, fixava-se numa cortina escarlate, que a luz de uma saleta, fora, traspassava. Estava em mangas de camisa, com as botas calçadas. Ao seu lado, uma mulher estirada ressonava alto. Ficou um momento entorpecido, sem memória, ouvindo, fora, alguém mexer em louça, um arrastar de chinelas. Então o baile, o cancã, a bacante, reviu tudo nitidamente, como na véspera, à luz crua do gás…Sentia um mau gosto na boca, uma dor lancinante na nuca, e tinha a certeza, sem a ver, que a criatura a seu lado não era a bacante e devia ser medonha, suja, com um hálito pestífero. Como viera ali parar, àquele catre de que sentia o enxergão de palha mole? E quase tinha medo de saber, de ver: achava-se bem naquela escuridão, com todo o corpo derreado, uma sonolência vaga errando-lhe no cérebro, nas pálpebras. E então, imóvel, com os olhos cerrados, como se nas trevas bestiais em que o seu espírito estava ainda afogado uma aurora espiritual se levantasse devagar, começou a recordar, a ver diante de si toda uma paisagem do Mondego, por uma tarde de Verão: nos salgueiros espessos, onde a sombra está enleada e adormecida, os pássaros chilram alegremente; nas colinas de uma doçura suave de linhas, casas branquejam e sob o céu de um azul-claro, transparente, o rio corre, com um vagar saudoso, numa toalha límpida em que pedaços de areia reluzem; alguma coisa de doce, discreto, terno, erra no ar subtil, e, devagar, um bote onde negrejam batinas vem encostar debaixo dos chorões, junto à entrada melancólica da Quinta das Lágrimas…Via-se ali, passeando com amigos, na doçura pacífica da tarde clara, falando de poetas, recitando versos, ou então, calado, perdido nalgum cismar romântico e nobre. Depois, via um pedaço da entrada de Oliveira de Azeméis a Ovar, onde, no fundo de terras baixas, um regato corre, entre as altas ervas, todo escurecido pela sombra que derramam as árvores debruçadas; uma frescura eleva-se da água, da erva verde… E sentava-se ali, com um livro, cheio do enternecimento que lhe davam aquelas florescências frescas e as águas humildes…Patas de insectos roçavam a superfície do ribeiro quase parado; os musgos cobriam as pedras do seu aveludado tenro e florezinhas azuis, roxas, tímidas, pequeninas, exalavam um vago aroma agreste; madressilvas, agitadas num movimento do ar, faziam errar o seu perfume adocicado; um silêncio doce, em que só se ouvia o gotejar do fio de água, dava um silêncio doce, em que só se ouvia o gotejar do fio de água, dava um abrigo terno às almas delicadas — e a sua dilatava-se, enchendo-se da serenidade das coisas, cobrindo-se de transparências, e exalando como um aroma próprio, uma simpatia ascendente.

De repente, a mulher a seu lado saltou para o chão e, com passadas moles que faziam ranger o soalho, foi beber água ao jarro: espreguiçou-se, equilibrando-se ainda mal nos pés, e correu a cortina escarlate: uma luz larga entrou, bateu nos olhos de Artur — e ficaram plasmados um para o outro, sem se conhecerem, tristes.

Artur, sem uma palavra, saltara também para o chão e enfiava o paletó que ficara aos pés da cama, enquanto a mulher apertava atabalhoadamente uma saia, com tonturas ainda, que a faziam, por momentos, encostar a mão à parede, soprando com força.

Artur tinha agora uma curiosidade, em que havia uma repugnância, de saber se tinha beijado aqueles beiços, ainda roxos de vinho da véspera, e tocado aquele corpo mole, caído, gasto, que exalava um cheiro acre; mas não se atreveu a perguntar. Não disseram uma palavra: a mulher vestia-se à pressa — e Artur, remexendo nos bolsos, atirou para a mesa, a pagar a hospitalidade, os seus últimos dez tostões. Era tudo o que possuía. Depois procurou o chapéu, mas não aparecia; e a mulher, então, com uma voz rouca, como se lhe faltasse a campainha da laringe, disse:

O senhor deixou-o talvez no baile, no alugador de fatos…

E como ela mesmo se mascarara de homem, pôde dar a Artur o chapéu que usara — um chapéu desabado, imundo, sem fita, e todo pisado de solas de botas. (…)”

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