“if”

Hesitamos entre iniciar isto com “if” ou com “se”.

Pragmaticamente, a dúvida é tonta: Usarás “if” se escreveres em Inglês e usarás “se” se escreveres em Português. Esta solução é linear, é fácil de compreender e é simples de empreender. Contudo, o novelo mantém-se.

É que, desconsiderando a tábua de correspondência linguística comummente aceite, mantemos a convicção que “if” se refere com maior propriedade à hipótese de algo ser de um certo modo, enquanto “se” aponta a uma realidade alternativa hipotética. Se o “if” acompanha melhor uma tentativa de ler, de explicar, ou de fixar aquilo que seja, o “se” parece não se conseguir sobrepor à tentação de apelar a extrapolações, a distrair-se entre hipotéticas realidades, aquelas realidades que poderiam sê-lo se.

É uma convicção, uma sensibilidade, que deve bem mais às frases que já ouvimos começar por “se” e por “if” do que a qualquer competente consulta ao dicionário mas, ainda assim, mantém-se. Por conseguinte:

If

Donald Trump não for quem nós pensamos que é?

Alarvemente, temo-nos revolvido e assanhado contra o que nos parece ser um inconsciente caceteiro mediático — alguém que se afigura, a um só tempo, como um perigo para a ordem constitucional interna dos Estados Unidos da América e para a sociedade internacional. Este esforço tem-nos devolvido apenas estupefacção. Estupefacção quando atentamos no progresso das primárias do partido Republicano e na incapacidade deste partido gerar uma alternativa a D. Trump para as presidenciais que se avizinham.

O caso é que D. Trump é, mais do que tudo, um oportunista mediático. Uma massa verde e amorfa que recolhe o nosso assanhamento e o transforma em energia pura. Que reflecte os nossos apoucamentos sob a forma de uma luz quente e alva que ilumina duas vezes o caminho de um certo eleitorado.

D. Trump, um produto possibilitado pelo tea party (e por dois executivos democratas, para mais, negros), identificou um eleitorado não negligenciável de norte-americanos que se encontrava órfão de tutela republicana, eleitorado esse que é mais sensível à determinação que expluda dos gestos e das palavras do que à razoabilidade que emane dos argumentos. Note-se que este eleitorado não é uma ave rara, podendo ser encontrado em qualquer sistema democrático, existindo sempre um ou mais pretendentes a levá-lo à urna.

A novidade Trump prende-se com a resiliência desse eleitorado/candidato ao longo do período anterior às primárias — o qual foi aproveitado para criar, através de um postura confrontadora deliberada, um grupo -, e a voracidade com que está percorrendo o processo de primárias do partido, não permitindo que se forme algum outro grupo mais numeroso e coeso, com condições para tomar a dianteira deste processo de selecção. De notar que nenhuma das candidaturas republicanas demonstrou, até ao momento, querer disputar o espaço a D. Trump durante estas primárias - tendo vindo a ser privilegiada a fuga para o centro face ao confronto directo com o caceteiro de Nova Iorque.

Até agora, e como bem se compreende, o cordão sanitário que de certo modo temos vindo a desenhar em redor de D. Trump foi, de um ponto de vista táctico, um equívoco, o qual lhe tem sido muito útil, concedendo-lhe o oxigénio necessário à combustão que se tem que manter viva e crescente até à escolha do candidato republicano.

A curiosidade de hoje é saber como D. Trump, depois de ungido pela convenção republicana, envergará a respeitabilidade inerente ao título.

A certeza é que estamos a lidar com alguém que não apenas manipula os seus apoiantes como também manipula os seus adversários — e quantos mais adversários melhor, e quanto mais distantes melhor — vogando na imagem que estes dele constroem, a qual lhe tem vindo a atribuir as características de que ele precisa para vingar junto do segmento de mercado eleitoral em que apostou, nesta fase, tudo.

Se

Porventura, D. Trump chegar à Casa Branca após se assumir como um candidato republicano tão disruptivo e confrontador como o foi enquanto candidato a candidato, ser-nos-á revelado, e de bandeja, aquele que é o maior de todos os medos na nossa constelação civilizacional: que a um determinado segmento do mercado eleitoral (simplifiquemos: incivilizado) não esteja já apenas na eminência de ser decisivo mas que possa até já ser maioritário, um cenário que não será um exclusivo dos Estados Unidos da América, nem tão pouco do Atlântico Norte.

A eminência de uma revelação destas é dramática, pois é, mas não justifica que entretanto se vá confundindo o candidato com os seus eleitores, confundindo, mais uma vez, o mensageiro com a mensagem, confusão essa que, conforme ficou cravada na memória de alguns povos, mas longe de o estar em todas as democracias, não resolve peva.

Like what you read? Give Daniel Marques Pinto a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.