Água entre as rochas

Vejo escorrer a umidade nas paredes do meu quarto

Vejo os brinquedos de minha filha entulhados em um canto

Escondidos das lágrimas

que escorrem dos muros internos de nossa muralha doméstica

Oculto-me no sofá devorador

Imponho resistência com a rocha de meu peito

Vejo as ruas sangrando lágrimas

As pedras do calçamento ocultas entre a lama

do mundo

da cidade

da vida

Quando as pedras se escondem

Que caminho trilhar?

Vejo o caminho que me traz de volta pra casa

Ele não parece o mesmo que me tirou dela

A água toma conta de tudo

Mas não estava assim antes?

Vejo as rochas se abrindo

Cedendo frente à persistência da chuva

A dureza cede, criam-se infiltrações

Um caminho novo

Caminho para quê?

Caminho para quem?

Não seria assim que as coisas apodrecem?

A rocha se tornará nova?

A rocha se tornará rota?

E a cidade?

E o eu?

Vejo águas e rochas lutando.

Vejo chuvas e concreto se opondo

Vejo amor e desilusão se confundindo

E me pergunto, o que, exatamente, é aquilo,

O que é que quebra as rochas e arrebenta as pedras?

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