A biblioteca é uma realidade paralela

Talvez a série norte-americana The Librarians, cuja terceira temporada está sendo exibida no Brasil neste começo de 2017 pelo Universal Channel, não tenha formalmente algo de espetacular — embora eu possa advogar em seu favor certo modo de filmar (tosco/charmoso) que lembra alguns programas do gênero feitos naquele país lá por meados dos anos 1990 (o Hércules de Sam Raimi, por exemplo), pouco antes do boom televisivo ao estilo “padrão HBO” — e não está necessariamente implícito nisso uma crítica a tal padrão, apenas uma saudável distinção. Nesse mesmo sentido, um produtor e membro do elenco, Noah Wyle, disse que o programa seria uma espécie de “entretenimento de escapismo”, nada além disso.

Mais do que a forma e os enredos dos episódios propriamente ditos, o que chama a atenção no seriado são suas premissas. Tratando de magia e ocultismo, seus protagonistas, como o nome revela, são simples bibliotecários, aqui retratados como seres pacatos dotados de imensa capacidade de intelecto e tornados heróis de aventura; responsáveis, portanto, por manter o planeta a salvo de um uso maldoso de magia. A biblioteca funciona como um templo do conhecimento (oculto, mas não apenas), capaz de fazer com que os bibliotecários se transportem para outras localidades e mesmo realidades paralelas (ela própria também estando numa, ou sendo uma).

Para além do mero “escapismo” descrito por Wyle, é interessante notar em The Librarians o retrato metafórico da biblioteca como um local quase sagrado, com vida própria, e um refúgio não apenas do conhecimento e do estudo, como também da fabulação. E do bibliotecário, esse ser sempre tão anônimo, mostrado como alguém cuja subjetividade, riquíssima em imaginação, é enfim exteriorizada.

Em tempos em que a gestão da informação ultrapassa a formação de coleções e o seu armazenamento físico, em que o registro do conhecimento é tornado base de dados acumulados na nuvem (essa outra espécie de realidade paralela e misteriosa, também abordada na série), The Librarians tem como virtude ser uma espécie inocente de ode, consciente ou inconsciente, do imaginário humano e de seu registro até aqui.


Originally published at www.cenarevista.com on January 25, 2017.