O paradoxo do brasileiro
-É por isso que o Brasil não vai “pra frente”.
-O brasileiro não sabe votar.
- O brasileiro é muito acomodado.
- O brasileiro é malandro, é corrupto.
Assim disseram alguns brasileiros, que vivem por aí a falar mal dos brasileiros.
Eventualmente o fazem do conforto do seu sofá enquanto, com o celular na mão, atualizam-se por meio do whats app sobre o que “acontece” no Brasil.
Na época das paralisações dos caminhoneiros diziam que essa tentativa de abastecer, trabalhar, honrar seus compromissos, isso é coisa de gente acomodada, egoísta, alienada, burra, gente que não está sabendo aproveitar a chance de “mudar o país”. Ainda que ninguém soubesse explicar direito de que mudança estavam falando.
Durante a copa o discurso era que se você se preocupasse com o Brasil como se preocupa com o futebol este país seria outro.
Agora, durante campanhas eleitorais, temos mais xingamentos ao brasileiro, ele não sabe votar. E não ouse contestar as soluções simplistas para problemas complexos apresentadas, isso também é sinal de burrice.
Não importa o momento, eles sempre sabem o que você deveria estar fazendo para “mudar o Brasil”.
Não se vê muito espaço para ouvir, debater ideias, entender reivindicações, respeitar quem pensa diferente, compreender as causas e os futuros possíveis, criar pautas, espalhar qualquer coisa que não seja puramente reclamação dos brasileiros.
A considerar pelo exemplo que costumam dar, para mudar o Brasil precisamos seguir compartilhando vídeos cheios de críticas ao brasileiro no whats app. Textões no facebook. Copiando e colando todo tipo de xingamento ao “brasileiro” que qualquer besta razoavelmente articulada tenha elaborado.
Aprendemos com eles que ser um brasileiro politizado é descer a lenha no brasileiro. Esse ser fajuto que não sabe votar, não tem educação, não sabe quando e nem como se manifestar.
Inteligente mesmo é quem fala mal de brasileiro. Temos grandes bastiões da sapiência em seu pedestal, cheios de certezas sobre o porquê o Brasil não “vai pra a frente”.
Seja lá onde for essa “frente” para onde tanto querem nos levar, vindo de quem vem, será que não estamos no lucro em não ir para lá?
