Sobre os Perigos do Extremismo: Um Editorial

(Nota: Esse texto foi originalmente escrito para ser lido no episódio 06 do podcast Feijoada Noturna, como resposta a críticas que recebemos e que, em nossa consideração, foram injustas e agressivas. Após conversar com meus co-hosts no programa, decidimos por não usá-lo no episódio. Como o considerei um bom texto meu, resolvei publicá-lo aqui.)

Boa noite a todos. Antes de começar o programa de hoje, nosso primeiro especial de Resenha de Filme, quero começar com um comentário opinativo. Um editorial, por assim dizer. Queremos falar sobre dois assuntos; um deles é gigantesco, cujas repercussões ainda nem começamos a sentir, e que moldarão o futuro de todos os seres humanos nos anos vindouros. O segundo, em comparação com o primeiro, é insignificante. Mas, como disse Lawrence da Arábia, “Grandes coisas têm pequenos inicios”, e isso vale tanto para as coisas boas como coisas ruins. Logo, resolvi inclui-la neste editorial.

Na noite de sexta-feira, dia 13 de novembro de 2015, terroristas atacaram uma série de pontos públicos na cidade de Paris. No momento em que escrevo, o número de mortos nos ataques estão em 129, com outras centenas de feridos. Também até o momento em que este editorial está sendo escrito, as suspeitas da autoria recaem sobre terroristas do Estado Islâmico. Outros, na internet ou não, já falaram sobre o assunto com mais propriedade e profundidade do que me sinto capaz no momento. Sugiro que procurem estas pessoas para opiniões profissionais sobre este tema. O meu único comentário é afirmar que o Estado Islâmico é uma dessas coisas que começaram pequenas, foram deixadas à sua própria conta por tempo demais, e agora assombram nossos pesadelos.

O que podemos dizer, o Pedro, o Ronaldo e eu, é que nossos pensamentos estão com os Parisienses e os Franceses como um todo, assim como todas as outras pessoas no mundo que sofreram, ou sofrem, com o fanatismo, o extremismo, religioso ou não, e com o terror, para não falar de outros tantos problemas. Queremos acreditar que, se podemos imaginar um mundo onde tais males não existem, e nossas artes, religiões e ciências comprovam essa capacidade, somos capazes de, um dia, torna-lo realidade. E é esse futuro que desejamos construir, e é uma das razões pelas quais começamos o Feijoada Noturna, entre outros projetos que desenvolvemos juntos: com humor, debater as grandes questões do dia-a-dia.

O que me leva ao segundo assunto, que é ao mesmo tempo um esclarecimento, um pedido de desculpas, e um apelo à racionalidade e à ética. No sábado, fomos acusados, de maneira bastante agressiva, por membros de um outro programa, de sermos cristofóbicos. A justificativa para tal ataque teria sido um comentário, feito por mim, no nosso segundo programa. Ao tratarmos do projeto de lei nº 5069, de 2013, que essencialmente criminaliza o auxílio ao aborto, mesmo naqueles casos em que tal procedimento é permitido pela lei, e tira das mulheres o direito de decidir sobre realizar ou não esse procedimento, questionamos como esse projeto, de cunho declaradamente cristão, pode estar em vias de ser aprovado em um Estado cuja condição laica é cláusula pétrea da Constituição da República de 1988. Em resposta, afirmei que o projeto foi de autoria de políticos da chamada Bancada Evangélica, em sua maioria sacerdotes ou membros com posições em igrejas cristãs de denominações diversas, e deixei claro, ou pelo menos assim imaginei, que os responsáveis são os eleitores desses senhores. Pois, não é nenhum ato de irresponsabilidade ou cristofobia da nossa parte deduzir, muito corretamente, de que esses senhores foram eleitos por membros de suas congregações religiosas, para defender os interesses dessas congregações em primeiro lugar, e da República em um distante segundo lugar. A atuação desse grupo, nas duas casas do Congresso, é evidência mais do que o suficiente.

Pois bem. Infelizmente talvez tenhamos sido demasiado vagos, ou melhor dizendo, não fomos explícitos o suficiente em nossa crítica. Esquecemos que vivemos em tempos de extremismo, em que as pessoas defendem as causas de sua escolha com ferocidade, e por que não, fanatismo. Infelizmente tornou-se procedimento padrão, para usar uma expressão triste porém acurada, atirar antes e perguntar depois. Capacidade de comunicação, interpretação de texto, seja ele escrito ou falado, e, principalmente, ética profissional e social; todas habilidades necessárias à vida em sociedade, e que são as primeiras baixas em tempos de cólera. Além disso, nesse enorme tribunal que se tornou a internet, estimulada pela distância, a impessoalidade, e o anonimato, não existe a garantia, também constitucional, da presunção de inocência. Condena-se primeiro, e então o condenado, com alguma sorte, consegue explicar o seu lado da questão. Mas aí o dano está feito.

Portanto, eu falo por mim e, espero, meus co-apresentadores, quando digo: em momento algum, quisemos afirmar que toda a comunidade cristã é responsável pela existência de uma bancada evangélica no Congresso, e pelos atos desta. Fazemos mais, e afirmamos saber que, em verdade, a grande maioria dos cristãos, independente de denominação, repudiam as ações desses senhores e senhoras; assim como entendemos que a maior parte dos mulçumanos repudia as ações de terroristas como aqueles do Estado Islâmico. Portanto, repudiamos também a pecha de cristãofóbicos de que fomos acusados.

Mas, ao mesmo tempo, não podemos fazer como parece ser prática corrente, e ignorar a responsabilidade individual e coletiva. Portanto, também afirmamos, mais uma vez: a culpa da existência de uma bancada evangélica, e pelos atos de seus membros, é sim responsabilidade de pessoas, em sua maioria ligadas às denominações de origem desses senhores, que os elegeram, e que o fizeram com a indiscutível certeza de estarem votando por um projeto de governo baseado nos ditames de sua fé particular, e não nas orientações expressas, em especial, nos artigos 1º a 6º da Constituição da República Federativa do Brasil, que garantem e protegem um Estado Democrático de Direito, laico, em que a liberdade de expressão artística e de escolha política e pessoal, e de pluraridade cultural, étnica, de gênero e religiosa. É hora de nós brasileiros aceitarmos que a principal responsabilidade pela nossa sociedade, nossa política, e nossas atitudes, é nossa, e tão somente nossa. E que, se desejamos achar um responsável por nossos vícios e nossos problemas, devemos começar e terminar a busca em frente à um espelho. Portanto, se vivemos em um país em que estes direitos estão sobre constante cerco por políticos mal intencionados, e culpa é nossa, que os colocou lá.

Encerro então, este texto, com um apelo à racionalidade, à ética, ao diálogo, ao benefício da dúvida antes da condenação, ao viva e deixe viver, à construção e não à destruição, à moderação e ao equilíbrio. Podemos ser melhores que isso que vemos agora, se assim quisermos. Obrigado, boa noite a todos, e voltamos à programação normal.