É hora de aceitar que você não sabe nada de economia

E que podemos mudar isso

Esse texto é uma resposta a este texto.

Não entender economia não é um crime: graduação de 4 anos, curso de cálculo, muita abstração, modelos, matemática… Mas é irresponsável, para dizer o mínimo, sair emitindo opiniões sobre o tema.

O texto que eu aqui discuto é só um em uma coleção: o Gustavo Tanaka é um bode expiatório de uma coleção de atrocidades econômicas e considerações baratas muito comum, infelizmente (culpa das nossas escolas?). Doi o coração ler este tipo de texto, informo.

Não, dizer que você era capitalista não irá reduzir o tom das críticas: só mostra que você defendia uma posição que você não refletiu muito. Infelizmente, ou provavelmente este texto não seria necessário se você tivesse refletido um pouco.

Eu não tenho nenhuma pretensão de defender o sistema: longe de mim esse tipo de ideia. É por isso que eu estudo economia (essa é história para outro texto). Tem muita coisa errada sim, mas dizer a torto e a direito que outro sistema é possível e que o “capitalismo” é culpado é uma péssima maneira de influenciar o debate. Calçando as sandálias da humildade, espero fazer alguns adendos importantes ao mar de achismo do texto supracitado.

O ponto de esgotamento de recursos é um clássico das críticas ao sistema. Se a gente pelo menos tivesse pensado em um sistema racional de alocação de recursos… Ah sim, ele existe: o mercado. Coitado do mercado: os desejos são infinitos e os recursos limitados. Quando não temos tudo que queremos, sobra para o sistema.

A quantidade de pessoas extremamente pobres está caindo… Mostre algum amor pelo sistema

A miríade de desejos humanos não é páreo para as limitações de um mundo que não é o Jardim Do Éden. Mais ar limpo demandará menos carros na rua, menos produtos sendo fabricados menos várias outras coisas. E, enquanto é fácil escrever sobre o tema — em um computador importado, talvez, tomando café colombiano na Starbucks — é muito difícil admitir que nós gostamos de consumir. Paciência: o mundo vai se tornando mais sustentável a passos largos. Basta lembrar que cavalos poluem 100 vezes mais (cem vezes mais, não se trata de um erro de digitação) do que carros por milha viajada: excrementos, leitor, excrementos. Sem contar as largas áreas que são desflorestadas para alimentar esses animais.

É claro que cavalos remetem a um ambiente mais campestre, o que logo nos lembra do fato de que o Sr. Gustavo está bastante insatisfeito com o fato de que as pessoas não sabem plantar tomates. O pai da economia já dizia que a riqueza das nações advém da divisão do trabalho. Desafio ao leitor: pegue qualquer objeto da sua casa e me diga se você, sozinho, seria capaz de faze-lo. Essa mesma pergunta já foi feita por pessoas tão diversas como Milton Friedman e seu lápis, e mais recentemente por um homem que decidiu fazer todo o sanduíche. Do zero.

Não é humanamente possível acumular todo o conhecimento para fazer tudo o que o mundo moderno têm. Nem é exclusividade do mundo moderno: tribos fazem divisão do trabalho: homens caçam enquanto mulheres cuidam das crianças, em um exemplo grosseiro.

Eu não sei como se planta um tomate. Eu não sei muitas coisas. Não que isso implique em desconexão total da natureza: existem parques, que só são possíveis graças ao odiado capitalismo. Ou de que outra forma poderíamos deixar espaços absolutamente vazios no meio das cidades? Isto é um luxo, não um direito.

E ai nos vem o que é uma das maiores extravagâncias modernas, segundo o nosso ponderadíssimo crítico: nós alçamos a economia a uma condição bizarra. Cito aqui a barbaridade:

Mas veja bem. A Economia não existe. Não é um ser vivo. O homem criou a economia. Nós mesmos criamos um monstro que nos amedronta e controla nossas vidas.

Eu devo admitir que me falta paciência a este tipo de crítica. Não, o homem não “criou” a economia, da mesma forma que não criou a física, a biologia, a química. A escassez é um dado, e a economia simplesmente trabalha para alocar os recursos escassos da melhor forma possível. Sobreviver foi sempre um desafio do ser humano. Saímos das savanas e florestas, da caça e da coleta, para formar relações interpessoais de troca que permitiram a raça humana alcançar riqueza e prosperidade inigualáveis. Os dados estão ai.

Sim, cada ser humano tem acesso a muito mais riqueza do que o ser humano médio tinha a 300 anos atrás. Mas o capitalismo deu errado…

Em uma frase curta: o mundo é terrível. Ele não te deve nada. Lide com isso.

E também, esperar de um sistema econômico que as pessoas valorizem “as artes” e não outras coisas é uma ideia descabida: a economia é uma ferramenta. Mercados são um meio. Produtores produzem aquilo que as pessoas valorizam. E depois, artes são sim valorizadas: basta ver as tremendas filas que boas exposições geram (a dos impressionistas no CCBB Rio teve filas notáveis). Infelizmente, como eu já disse, em um mundo de recursos finitos, é difícil financiar algo que depende de dedicação e inspiração: artistas também não plantam tomates.

Sempre desejamos mais (das coisas boas): eu gostaria que o leitor tivesse paciência de aturar mais uns 4 parágrafos, e se ele ainda tivesse a gentileza de me permitir demonstrar o Primeiro Teorema do Bem Estar Social… Infelizmente, não é possível: os recursos são finitos (incluindo aqui o tempo do leitor). Em compensação, eu tenho certeza que o Sr Gustavo está, atentamente, observando o contador de likes subir e subir (116 não era o bastante!?)

Óbvio que o sistema atual não é perfeito e longe de mim acreditar que mercados não tem falhas. No caso de carros, por exemplo, vale notar que andar de carro custa menos do que devia: não se paga por usar a rua.. Sim, pedágio urbano deveria ser uma realidade, com tarifas especiais nos horários de pico. E sim, o IPVA deveria ser menor. Ou ainda, no caso da poluição, mercados nem sempre oferecem soluções perfeitas. Isso é amplamente discutido por aqueles que inventam o que não existe — os economistas.

Mas nem por isso o “sistema” deve ser extinto: a ideia de comparar o mundo real, imperfeito como ele é, com utopias, é uma péssima ideia: os recursos são limitados e as vontades, infinitas. Não há mágica, e “mudar tudo que está ai” é vender ilusões. Sim, muita coisa precisa mudar. Mas não, o capitalismo não deu errado