Crise econômica em uma sociedade consumista.

O ser humano é, por excelência, um ser que deseja. Somos insaciáveis, a todo momento queremos novidades. A mesmice nos entristece, a rotina nos enlouquece. Buscamos transformações a todo momento. Ficar parado, estagnar, não é com a gente.

É intrigante pensar como lidamos com essa sede nos tempos de hoje. Quando estamos cansados do atual ser que somos, quando o dia a dia se torna um peso e só pensamos no passado ou no futuro, é porque é hora de mudar. A grande questão é: mudar o que? Mudar onde? Precisamos de algo novo, mas o que poderá nos saciar?

A saída muitas vezes é ir às compras, afinal, se existe um universo que se inova todo dia, é o universo mercadológico. Mal se compra o aparelho X e já lançam o aparelho X2, depois o X3 e assim por diante, em um intervalo tão pequeno entre esses lançamentos que, muitas vezes, nos confundem as ideias. A lógica, portanto, se torna simples: preciso me inovar, o mercado é inovador frenético, logo é nele que está nossa solução.

O problema é que, embora o sentimento de inovação de fato exista no consumo materialista, este parece pouco intenso e aquele vazio logo preenche sua vida novamente. Então você, tomado pela lógica do consumo, procura o novo lançamento outra vez. O sentimento de inovação surge, mas logo o vazio volta e, dessa vez, mais rapidamente do que da outra vez. Com o passar do tempo, e com o aumento constante do consumo, você percebe que essa forma de sair da rotina, de se inovar, não está mais dando conta do vazio que preenche você. É necessário consumir cada vez mais para preencher cada vez menos, e quando você se dá conta, está viciado. Sim, viciado em consumir, viciado em compras, doente, se enchendo cada vez mais de vazio.

O consumismo não é um assunto novo na nossa sociedade, sabemos disso. Até pouco tempo ele ainda era possível de sustentar, uma vez que a economia estava propícia a esse tipo de comportamento. Mas hoje os noticiários nos bombardeiam com manchetes referentes à crise econômica, desemprego e queda no poder de compra dos cidadãos. Como então, nesse cenário, dar conta de nossos desejos, nossas sedes, se o remédio (ou droga) que usávamos está ficando cada vez mais longe de nosso alcance?

Essa não é uma pergunta fácil de responder, e propor uma solução universal é negar a individualidade de cada um. Porém, ficar estático esperando a solução cair do céu também não se mostra uma atitude saudável, ou sensata. Nessas encruzilhadas um exercício interessante de se fazer é buscar em sua memória sensível os momentos em que se sentiu um ser potente, feliz, com as energias pulsando e, sendo realista, buscar os momentos em que isso aconteceu com o menor custo monetário possível.

É provável que na busca por tais memórias você acabe se deparando com músicas marcantes, um bom livro que leu, filmes e séries emocionantes, peças de teatro inesquecíveis, atividades simples como uma brincadeira junto das pessoas que você ama, uma conversa descontraída, um abraço, um beijo, ou palavras que marcaram.

Esses momentos, de alguma forma, suprem de maneira muito mais intensa aquele vazio que sentimos, eles nos inovam não materialmente, eles nos inovam no espírito (seja lá o que isso quer dizer para você). São os momentos em que o seu vazio é preenchido por outras pessoas, ou pela própria natureza (como por exemplo quando contemplamos uma bela paisagem ou brincamos com os bichinhos de estimação), e não por algo cujo valor é meramente econômico. O preenchimento é para sempre, a sensação é marcante. Você se lembra da sensação de comprar um novo aparelho celular? É provável que a resposta seja não. Mas e da sensação de abraçar quem você ama? O coração acelerado por um filme bem produzido? A meditação ao som daquela música que é trilha sonora da sua vida? O arrepio que dá ao se deparar com uma impressionante pintura, fotografia ou colossal construção arquitetônica? A emoção que toma conta de seu ser ao comemorar uma conquista no esporte? O sorriso que não sai do rosto quando você está compartilhando emoções com as pessoas que são importantes para você? Ou até mesmo os momentos tristes que são compartilhados com essas pessoas.Todas essas coisas nos marcam de maneira intensa. Nos fazendo rir, chorar, gritar, pular, trancar a respiração, e na maioria das vezes o valor monetário disso pouco importa. SER é bem melhor do que TER. Com a crise o que nos resta na maior parte do tempo é o SER, uma vez que TER será cada vez mais complicado.

Em uma sociedade consumista passar por uma crise econômica é um momento bastante crítico. Para suprir nossos desejos alguns hábitos terão de ser substituídos por outros e fazer essas transformações não é algo fácil. Dar valor às coisas simples e buscar nas pessoas queridas as soluções para os desafios, é uma boa forma de não cair na depressão e principalmente de se redescobrir, enxergando no mundo um lugar bom para se viver e nas pessoas a energia necessária para vencer os obstáculos.