Sobre abusos, histeria coletiva, doenças e nossas relações

Essa semana, surgiu na internet a história da youtuber inglesa Marina Joyce, seus fãs começaram a divulgar a possibilidade de ela estar sendo mantida em cárcere privado por alguém e/ou sofrendo abuso de alguém, sendo obrigada continuar a gravar seus vídeos, eles levantaram uma série de fatos que comprovariam isto. A história se espalhou e causou uma comoção e ganhou proporções mundiais, chegando a acusarem o Estado Islâmico de ter a sequestrado (De onde tiraram isso hein?). Admito que eu fui contaminado pela histeria coletiva criada, fiquei aflito e curioso com o caso, me preocupei com a situação, com direito a textão no Facebook. Fui levado pelas emoções a um primeiro momento antes de raciocinar sobre o assunto e isso é normal com qualquer um, o sentimento surgir antes de pensamos sobre algo, contudo depois me informei um pouco mais, vi as críticas, algumas com base outras nem tanto. Após de toda a comoção pública, Marina e sua família disseram estar tudo bem com ela e não existia motivo para preocupação.

Agora eu duvido da teoria de sequestro, porém nos vídeos dela é possível notar uma grande mudança ao longo do tempo em seu comportamento. Algumas pessoas levantaram a possibilidade de uso de drogas ou de alguma doença psicológica/psiquiátrica e até usaram esse argumento para desmerecer a situação como se ser doente fosse menos grave. Mas até o presente momento não há nenhuma outra informação sobre isso.

Primeiro eu gostaria de especular o porquê de isto ter nos chamado tanto a atenção. Na minha opinião talvez porque seja difícil não se interessar pela velha história da donzela em perigo presa em algum lugar por pessoas muito más. Mas também porque mexeu em um assunto muito delicado como o abuso, algo infelizmente presente na nossa realidade e que muitas vezes nos negamos a enxergar e não precisa ser só abusos nos relacionamentos amorosos, nas relações de trabalho, familiar, amizades etc. As pessoas podem abusar e serem abusadas, mas nós não conseguimos acreditar e aceitar o que se passa. Alguém próximo pode estar sofrendo por isso e não fazemos nada a respeito, mas quando acontece com alguém distante de nossa realidade fica mais fácil projetar e nos identificar gerando grande comoção. Todavia precisamos tomar muito cuidado com as situações como essa de histeria coletiva (não sei se estou usando o termo correto para descrever esse fenômeno, mas tudo bem me corrijam se eu estiver errado) porque deixamos nosso emocional dominar e o racional fica de lado, quando o mesmo correto seria os dois andarem a lado a lado em equilíbrio. Podemos acabar julgando e tomando atitudes de maneira precipitada e dificilmente termina bem.

Abusos podem ocorrer com qualquer, mulheres, homens crianças, pobres, ricos, por aí vai e necessitam ser identificados e combatidos, precisamos nos conscientizar das coisas que acontecem próximas a nós sim e ao menos tentar mudar e melhora-las e não só com nossos conhecidos, mas também com aqueles cujo a sociedade em geral não costuma prestar atenção devido a sua situação. O caso desta youtuber pode ter servido para chamar atenção para o assunto até mesmo se ela não estiver sofrendo de fato com isso e a discussão não pode simplesmente morrer.

Outro ponto percebido por mim foi que muitos na tentativa de elucidar a história, levantaram outras hipóteses. Disseram que ela é usuário de drogas, relacionando o comportamento delas nos vídeos recentes com o de viciados. O uso de entorpecentes não deixa de ser um tipo de abuso então necessita de nossa atenção também. Trouxeram também a possibilidade de ela possuir algum distúrbio mental, vi falando sobre esquizofrenia, contudo não é possível diagnosticar somente na base de especulação. Mas o que me chamou atenção e me deixando preocupado foi que alguns usaram essas desculpas para diminuir a situação. Falando coisas como “olham isso aqui, ela não foi sequestrada seus burros, ela usa drogas, ela é doente, ela é só uma louca, vamos nos preocupar com coisas mais importantes”.

Abuso de drogas é sim uma doença grave assim como a loucura, ou melhor dizendo doença mental é, sendo preciso dar atenção para essas situações e não usar como argumento para desmerecer uma pessoa, tornar a situação pela qual ela passa algo banal e sem importância. E fazer isso é algo recorrente, eu poderia até mesmo citar um caso recente na nossa política nacional, onde usaram o termo “louca” para diminuir a pessoa sem tentar entender todo o cenário nesta situação.

O caso da Marina Joyce serviu para trazer reflexões acerca desses assuntos (histeria coletiva, abusos, drogas, doenças mentais) que devem ser tratados seriamente, se desmerecer ninguém. Precisamos tomar cuidado com casos como esse para não sermos levados pelas emoções, como eu fui no primeiro momento. Necessitamos aliar sentimento e com a razão para assim ter uma percepção claro do assunto abordado. Temos que dar atenção não só aos casos distantes de nós, mas principalmente aos que estão perto, sermos sensíveis a situação do próximo, pois se fosse com nós mesmos gostaríamos de outras pessoas se sensibilizando conosco.

Então é essa a minha opinião sobre os assuntos levantados, ainda estou esperando por mais informações sobre a garota, a história pegou minha curiosidade mesmo. Eu poderia ter me aprofundado mais sobre esses temas e outros também, mas o texto ficaria muito longe. Espero que quem leia esse texto e reflita, levantando outros pontos não abordados aqui mas relevantes da mesma forma.