Felicidade e Lembrar
Mais uma vez eu volto a olhar momentos no meu passado que me fizeram feliz. O meu aniversário de dezoito anos, as manhãs de fim de semana que pareciam nunca acabar. Eu era feliz antes? Eu vou me lembar de hoje como um dia feliz?

Eu encontrei essa imagem no meu computador hoje de manhã. É um printscreen de um jogo de realidade virtual, como um chat aleatório, onde você escolhe um avatar e conversa por áudio com outras pessoas. Esse print é de um dia em que eu estava jogando forca com alguns amigos há dois meses atrás. De brincadeira, eu pensei comigo mesmo “estava feliz e nem sabia”. Eu não estava feliz.
No momento desse print eu estava durante um quadro depressivo mais grave do meu ano e momentos como esse eram minha fuga da realidade. Recentemente eu voltei para um estado parecido.
Esses momentos geralmente me chutam para reflexões sobre a minha própria vida em que eu procuro em mim mesmo vezes em que eu fui feliz. Se eu estou hoje me sentindo triste, é porque em outro dia eu pude estar me sentindo feliz. Então, quando foram esses dias? Bem, vários momentos da minha infância eu tenho esse sentimento de “dias felizes”, dias que eu não sentia o peso da vida, dias que eu era inocente dos problemas.
Mas isso não é inteiramente verdade. A minha infância foi muito psicologicamente estressante, mais que agora muitas vezes, e na maioria do tempo eu não estava me sentindo bem. Ainda assim, quando penso em infância, lembro de momentos de ternura, de uma eternidade das coisas (tudo demorava muito pra passar, o que era bom), de momentos de felicidade verdadeira e plenitude.
Essas lembranças são muito leves. Isso tudo em oposto com o meu agora, com a minha volta para esse estado, com a dor no meu coração e o peso ameaçador do futuro. Essas lembranças são plenas, uma plenitude que hoje me falta, são leves, uma leveza que hoje me falta e são inocentes, uma inocência que hoje eu quero tanto. Talvez eu tenha sido tudo isso no passado. Feliz, pleno e inocente, mas eu acho que não. Eu só espero um dia olhar para o presente com a ternura que eu sinto olhando para o passado.
Eu lembro de um lampejo de memória, eu devia ter por volta de uns 8 anos de idade. Era uma tarde muito quente e extremamente entediante de dia das crianças. Eu queria muito jogar videogame, mas eu não podia. Eu me lembro de estar deitado sobre o chão de tapete verde com meus brinquedos azuis, sucumbindo de tédio e calor, mas eu me lembro de uma coisa especial. Na TVE, ou TV Cultura em outras regiões, estava passando um especial de filmes e desenhos para comemorar o dia das crianças. Alguma coisa naquele pacote estatal de “cultura infantil” me marcou, pois eu me lembro que depois de assistir uma hora de orquestra com teatro, eles passaram Viagem de Chihiro. Eu me lembro dessa cena, de estar jogado no chão da sala, com os meus brinquedos, extremamente entediado e com calor, assistindo aquilo que alguém do governo decidiu que deve ser parte da infância de alguém, assistindo o final extremamente confuso de Chihiro. Foi esse momento que ficou marcado na memória, é esse momento que eu tenho como “a minha infância”.

Se eu passasse por tudo isso hoje seria um dia bem chato, e escrevendo aqui também parece muito entediante. Mas, tem alguma coisa que, só por estar no meu passado, é bom. Sempre que eu revejo Viagem de Chihiro eu sinto um pouco da leveza que essa memória me traz, eu sinto um pouco desse tempo em que tudo aparentemente fazia sentido. Mas não fazia. Acho que esse é o ponto que eu quero chegar. Viver essas memórias, esses momentos, lembrar disso talvez seja muito mais feliz e reconfortante do que viver em alguns casos. Talvez eu me lembre de hoje como um dia feliz. Talvez seja melhor fazer as pazes com as lembranças e pensar nelas como fotos em molduras, pensar que essas fotos não são “momentos em que eu fui feliz”, mas coisas do agora que me fazem um pouco mais feliz. Talvez exista um tipo especial de felicidade que só exista no lembrar.