Ainda bem que temos o Bolsonaro

Acho ótimo ter uma figura como Bolsonaro no poder a esta altura do campeonato. Ele é o herói daquela sua tia homofóbica que, muito elegante, nem toca neste assunto de mau gosto. Ele representa seu vizinho de bem que, lá no fundo, torce praquele tempo bom da ditadura voltar logo enquanto assiste ao Jornal Nacional.

Ele fala pelo seu chefe machista, pela síndica reacionária do seu prédio e até por aquele seu cunhado que usa roupas moderninhas mas que, depois de tomar todas, fecha o almoço de domingo dizendo que este país não vai pra frente por causa da bandidagem. “Bandido bom é bandido mortô!”.

Bolsonaro não é um delírio, nem uma piada. Ele é, entre outras coisas, a voz dos covardes (que são muitos). Há SETE mandatos, ele fala pra geral o que muita gente tem vergonha até de pensar, mas pensa. Por isso, Bolsonaro é tão funcional do ponto de vista social e sistêmico.

Ele nos dá a oportunidade (pra não dizer que nos obriga) de olhar pro nosso preconceito, pra nossa inadequação, pra nossa ignorância, pro nosso atraso coletivo. Não adianta tirar o cara de lá enquanto tudo que ele representa ainda estiver vivo bem na nossa sala de estar, por que outros virão.

A inteligência sistêmica funciona assim, o erro se reapresenta enquanto não for corrigido, de geração em geração, cada vez mais caricato. Ele anseia ser visto pra ser integrado.

Bolsonaro, Trump e cia são, deste ponto de vista, pessoas que merecem nosso respeito. Eles são necessários, até que deixem de ser. Depende de nós, do que vamos fazer com aquilo que eles nos permitem enxergar de forma tão cristalina. Ainda bem que temos o Bolsonaro.

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