Constelações Familiares restauram o fluxo do amor

Nas famílias, tudo é por amor. Entender isso por meio da perspectiva das constelações familiares foi algo libertador e muito transformador para mim. De repente, tudo fez sentido. Estava perdoado. O sofrimento foi transformado em compaixão e paz. Tomei minha história e minha família com gratidão, assumindo o compromisso de que a partir de mim tudo seria diferente. Eu curaria a mim mesma, os que vieram antes e os que virão depois de mim. Com amor, todo o meu amor.

Conheci a técnica de constelações familiares em 2013, enquanto estava em tratamento psicoterapêutico e realizando outras terapias energéticas para dar suporte ao duro processo de, enfim, passar a minha história a limpo. Uma das minhas terapeutas sugeriu que eu conhecesse o trabalho que tem como foco curar as relações de família. Senti na hora que devia fazer, e fiz. Foi uma experiência extremamente forte, que lançou uma grande luz sobre o meu destino. Eu, que tive um começo de vida cheio de desafios, uma família desconstruída pela separação de meus pais e, anos depois, pelo assassinato brutal de minha mãe, tive ali a oportunidade de ressignificar tudo, a partir de um novo ângulo, o do amor.

“A constelação familiar é uma técnica desenvolvida pelo terapeuta alemão Bert Hellinger em mais de 30 anos. Em psicoterapia, nosso objetivo é fazer com que os traumas registrados no inconsciente possam se tornar conscientes, ou seja, vir à tona para serem liberados e curados. Para isso existem muitas ferramentas. Na minha opinião, nenhuma delas é tão eficaz quanto a constelação. Através dela, o inconsciente se revela de forma muito contundente e rápida. Conteúdos que demorariam anos para serem acessados com psicanálise, por exemplo, emergem em minutos”, diz Kátia Soubihe Abutara, psicóloga transpessoal, que realizou diversas formações com o próprio Hellinger.

Minhas três primeiras constelações familiares foram feitas com outra terapeuta, mas o trabalho de Kátia, com quem fiz mais duas sessões, me impressionou bastante. Ela faz dezenas de constelações por mês, e conseguiu formar um grupo de voluntários muito especial que dá suporte ao trabalho realizado no espaço Mahalila, na cidade de São Paulo. Sensibilidade, boa formação e grande experiência por parte do facilitador fazem muita diferença no sucesso de uma constelação.

A TÉCNICA — Teólogo e filósofo por formação, Bert Hellinger foi padre por 20 anos e missionário na África, onde conviveu com o povo zulu. Foi lá que começou a perceber as dinâmicas ocultas que governam os clãs, os grupos, as famílias. Depois de renunciar ao sacerdócio, Hellinger estudou Psicanálise, Gestalt-Terapia, Análise Transacional e começou a trabalhar com terapia familiar. Ao longo das últimas décadas vem desenvolvendo e aplicando em todo o mundo uma nova técnica dentro da Psicoterapia Sistêmica, a constelação familiar. Figura controversa, Hellinger não é dado a muitas explicações racionais sobre a ferramenta que criou, embora novas teorias da Biologia e da Física deem embasamento ao seu trabalho. Sua abordagem é empírica, lastreada pelos fenômenos observados na prática terapêutica e nos resultados de seu método.

“A constelação não tem cunho religioso, embora muitas pessoas achem que sim, pois o que ocorre numa sessão tem algo de misterioso, pois não é entendido pela mente. O que acontece, basicamente, é que com esta técnica conseguimos acessar o campo de informações de um grupo familiar, chamado de morfogenético. Eu costumo chamá-lo de biblioteca virtual da família, que contém o livro da vida de cada pessoa desse sistema, tanto as com vínculos de sangue como todas aquelas que tiveram laços fortes, de amor ou dor,” explica Kátia.

Uma outra forma de entender este campo é imaginá-lo como o rio da vida, onde nossos antepassados choraram, e lá caíram suas lágrimas. Trabalharam, e deixaram cair seu suor. Morreram, e seu sangue foi derramado nesse leito. Nós nascemos dentro desse rio também e, querendo ou não, tendo conhecimento ou não, acreditando ou não, somos influenciados positiva e negativamente por essas águas, por toda essa ancestralidade. Hellinger fala da influência de até 21 gerações.

Há registros positivos nessa biblioteca virtual familiar, mas há também muitas memórias de fatos traumáticos, que assim o são porque infringem o que Hellinger chama de “as ordens do amor”. Abortos, roubos, assassinatos, exclusões de todo tipo, inversão de papéis, mortes prematuras. Tudo isso afeta negativamente os sistemas familiares e seus membros individualmente, em menor ou maior grau. “As necessidades e ordens do amor falam do direito de pertencer ao grupo, de dar e receber em equilíbrio e hierarquia. Elas trabalham juntas para preservar a família. Então, uma vez que estas ordens são quebradas, é gerado um desequilíbrio em todo o grupo, o qual terá que ser reparado em algum momento para que o amor possa voltar a fluir plenamente e o sistema se mantenha de forma funcional”, esclarece Kátia.

Enquanto a harmonia das relações não é restabelecida, há um preço a ser pago pela família. A transgressão cometida lembra a todos que está bem ali na sala de jantar ou no porão escuro, na forma de doenças, acidentes, perdas, dificuldades profissionais, no campo financeiro, afetivo. De geração em geração, até que o erro seja retificado. Não raro, um “inocente” toma pra si as transgressões do passado e as personifica de alguma forma. Uma criança com uma doença grave, um adolescente suicida, pessoas com vícios altamente destrutivos, o “grande perdedor da família”, por exemplo. Desta forma, o que estava oculto pode ser visto por todos através daquele membro da família para, então, ser curado. Quando entendi esta dinâmica, fiquei absolutamente desconcertada. De repente, passei a ver tudo de uma forma diferente e a me pacificar com os antigos algozes de minha família.

COMO FUNCIONA — As constelações familiares podem ser feitas individualmente, com o auxílio de objetos que representem os membros da família, ou em grupo. As sessões feitas dessa última forma são muito ricas e costumam promover uma catarse maior, o que, ao meu ver, torna a experiência mais potente em todos sentidos. A ideia é recriar o campo familiar com a ajuda de pessoas que representem os membros que têm relação com a questão que está sendo trabalhada naquele momento.

Quem está constelando, o cliente, escolhe um tema para ser trabalhado. Pode ser uma dificuldade pessoal específica, como a incapacidade de se relacionar afetivamente, ou de conseguir um emprego. Pode ser um quadro de obesidade, depressão, síndrome do pânico. Ou, como no caso da minha primeira constelação, a necessidade óbvia de reorganizar o meu núcleo familiar principal, já que meus pais se separaram quando eu ainda era bebê e minha mãe fora morta quando eu tinha apenas 12 anos. Aos 31, em terapia, eu já tinha plena consciência do quanto isso tudo havia me afetado negativamente durante toda a vida e estava trabalhando diligentemente para ressignificar o meu passado e criar um futuro diferente.

Em grupo, funciona assim: a pessoa que está sendo constelada escolhe entre os participantes voluntários quem vai representar seu pai, sua mãe, seus irmãos e assim por diante. Os participantes vão se posicionando na sala de acordo com a condução do constelado. A biblioteca virtual da família começa a ser acessada desta forma e a questão pode emergir, ou não, a partir do nível de abertura e permissão do próprio campo. O invisível tem sua inteligência. O incrível é que, sem ter o menor conhecimento da questão ou de quem está representando, o participante começa a ter sentimentos e emoções que pertencem ao membro da família que ele está representando naquilo que, às vezes, parece uma peça de teatro. O cliente pode assumir o seu próprio lugar na sessão ou apenas observar alguém que ele escolheu para o representar, o que é muito interessante também, embora eu sempre prefira assumir meu lugar em algum momento.

Em alguns minutos, a dinâmica começa a funcionar e, espontaneamente, como num passe de mágica, os representantes passam a expressar os mais variados traços de humanidade: afeto, raiva, desprezo, gratidão, ternura, ódio mortal. O papel do constelador é captar estas informações, descobrir onde está o nó e desatá-lo com a ajuda do grupo. “Quanto mais livre a constelação, melhor. Eu dou espaço para a coisa emergir, interferindo o mínimo possível. As desordens são facilmente encontradas e solucionadas sem grandes esforços na maior parte das vezes, pois a natureza do ser humano é amorosa e sempre tende ao perdão, à reconciliação”, ressalta Kátia.

Quando um emaranhamento é identificado pelos sentimentos, emoções e sensações dos participantes, a harmonização é feita por meio movimentos e frases-chaves sugeridos pelo terapeuta e repetidas pelos “atores”. Frases do tipo: “eu lhe perdoo e liberto para que siga o seu caminho”. Reverências aos antepassados são muito comuns, assim como a reorganização das posições originais de membros de famílias em que, ocasionalmente, filhos ou irmãos assumiram papel de pais, por exemplo. Os excluídos e abandonados são recolocados no campo. Sabe-se que a situação está harmonizada quando os participantes se sentem bem, quando há um sentimento comum de bem-estar, o que, em geral, vem depois de momentos difíceis em que muita dor é sentida antes de ser liberada do sistema.

É complicado explicar o que de fato acontece em uma sessão. No meu caso, uma das coisas mais impactantes da minha primeira constelação foi incluir o assassino de minha mãe à nossa família — todos que têm vínculos fortes tem o direito de pertencer, de acordo dos as ordens do amor. Depois de mais de uma hora de trabalho intenso, as pessoas que estavam representando a minha família se sentiam bem, menos a moça que fazia o papel de minha mãe. Ela estava deitada no chão (posição em que ficam as pessoas mortas numa constelação) e se sentia mal, fria, com um aperto no coração. Foi então que a terapeuta disse: “Daniela, escolha alguém para representar o atirador”. Escolhi e o posicionei ao lado dela.

Imediatamente, a mulher começou a melhorar. A consteladora me explicou que isso é muito comum em casos assim. Assassino e assassinado têm um acordo, sobre o qual nada sabem os outros. Há quem precise morrer. Haverá alguém para matar. Coube a mim, como filha, respeitar esse acordo e o destino de minha mãe. “Mãe, você morreu, mas eu estou viva. Vou fazer da minha vida algo muito bom e você viverá através de mim”. Assim eu disse àquela mulher e a abracei fortemente. Fiquei minutos aninhada entre seus seios fartos. Ali, éramos mamãe e eu de novo. Choramos juntas. Olhamos uma para outra com sorrisos nos lábios e nos despedimos. Fechei os olhos dela com minhas próprias mãos e ali a enterrei, com toda honra que não pude fazer no seu funeral, no qual eu não estava presente.

AS MUDANÇAS — Os efeitos de uma constelação familiar podem ser imediatos ou não. Costumam reverberar até dois anos. Todos os membros podem ser afetados positivamente, dependendo do seu nível de abertura. “Com a constelação, imprimimos uma nova informação na biblioteca virtual daquela família. Uma impressão harmonizada que permitirá o fluxo desempedido do amor, relações mais saudáveis e destinos mais felizes”, conclui Kátia.

Minha primeira constelação foi numa sexta-feira. No domingo, algo lindo aconteceu. Uma pessoa da minha família que não tinha a menor ideia do que havia acontecido entrou em contato comigo, me tratando de um jeito completamente diferente dos últimos 31 anos. Me chamou pela primeira vez de “meu amorzinho”. Ele nunca chamou ninguém assim. Eu caí em prantos. O fluxo do amor estava sendo restaurado. Eu me sentia pacificada e mais forte. Por que agora eu tinha meus pais e meu lugar legítimo de primogênita, de direito e honra na minha própria família. Agora, eu era a filha amada e sentia que podia receber, que não tinha somente a obrigação de dar. Eu não devia mais nada. E isso mudou muita coisa no que diz respeito a assumir o meu lugar no mundo e me sentir merecedora do que é bom.

Segundo as observações de Hellinger, inconscientemente, nós honramos o destinos de nossos antepassados de forma negativa, muitas das vezes. Por exemplo, uma pessoa que vem de uma família pobre, mas tem muito potencial para enriquecer. Ela pode se sabotar ao ponto de nunca se permitir receber e reter dinheiro, ou mesmo ganhá-lo e encontrar formas de perdê-lo. Por amor, ela não quer ser diferente ou superior aos seus familiares. Ela deseja continuar pertencendo.

Para honrar mães traídas, filhas têm relacionamentos em que sofrem traições. Assim, elas se tornam cúmplices na dor. Um filho que perdeu um pai ainda criança torna-se alcoólico. Ele quer estar junto ao pai, do outro lado da vida, e por isso se mata aos poucos. Para a manutenção do sistema familiar, uma filha se entrega ao pai no lugar na mãe, que por algum impedimento, não assume seu lugar como esposa, ocorrendo o que chamamos de incesto. Diante disso, dessa dinâmica oculta e aparentemente sem lógica das relações humanas, como julgar? Como condenar quem quer que seja? É isso que eu vejo de mais bonito na perspectiva do trabalho das constelações familiares. Tudo é por amor, pelo amor, para o amor

“Penetrar as Ordens do Amor é sabedoria. Segui-las com amor é humildade.”, — Bert Hellinger.

Texto originalmente publicado em Caminhos da Cura: http://www.caminhosdacura.com.br/#!Constela%C3%A7%C3%B5es-Familiares-restauram-o-fluxo-do-amor/cmbz/57b22df60cf2abd7acdbd12e