‘The Void’ e as homenagens vazias do horror throwback

O cinema movimenta-se constantemente, em ondas, como um oceano sempre agitado. A essas ondas dão-se nomes e estipulam-se conjuntos de regras e características, demarcando fases e períodos na história da sétima arte. Geralmente, espera-se que os movimentos se concluam para que tal apontamento seja feito. Em menor grau, especialmente dentro do horror, gênero constituído por diversas tendências periódicas, esses movimentos podem ser perceptíveis em tempo real.

Na década atual, destaca-se dentro do horror o que vem sendo chamado de movimento throwback, um retorno estético ao cinema de gênero produzido no final dos anos setenta ao início dos anos noventa. Movimento esse que é encabeçado por cineastas que se formaram sob influência desse período e das transformações propostas pela estética pós-moderna. Dentre os expoentes que se encaixam nesse grupo, um dos mais interessantes talvez seja Corrente do Mal (2015), de David Robert Mitchell, que faz uma apropriação plástica e sonora de um estilo puramente Carpenteriano, mas com uma liberdade de forma e conteúdo que se adéqua a demandas de seu próprio tempo. Em contrapartida, outros parecem satisfazer-se na simples repetição dessa forma, em um sistema onde homenagem e duplicação se confundem, dispensando a originalidade e a inventividade como se fossem artifícios banais, em prol de uma série de acenos a um público que, supostamente, deveria se divertir com as familiaridades apresentadas e nada mais. The Void é um retrato muito pertinente desse segundo grupo.

Projetado pela dupla Steven Kostanski e Jeremy Gillespie, integrantes do coletivo Astron-6, The Void foi parcialmente bancado pelos fãs, através de uma muitíssimo bem sucedida campanha de financiamento coletivo no Indiegogo. Na época, a verba de produção já existia, de forma que a proposta era de, por meio dessa ação, expandir o tempo de pré-produção, para a criação de efeitos práticos mais realistas. Atingindo 158 % do valor almejado, o time de produção honrou a proposta, entregando criaturas grotescas e hiper realistas, porém dentro de uma película que mais parece o monstro de Frankenstein, ou mesmo uma colcha de retalhos, tamanha a similitude com outras obras.

No primeiro plano do longa, temos um movimento de câmera que simula um POV, enquadrando uma porta com um triângulo preto pintado — símbolo chave na trama. Em seguida, quebrando a ideia do ponto de vista, um homem entra em quadro, desesperado para fugir do local. Em seu encalço, uma mulher, também em pânico. O motivo de tal pavor é uma dupla armada de rifles, que os está caçando. A mulher é exterminada pela dupla misteriosa, ao passo que o homem escapa em direção à floresta, no frio da noite. Mais adiante, o rapaz literalmente tropeça na frente de uma viatura estacionada no meio do nada, com o xerife Daniel, nosso herói, atrás do volante. O policial interrompe um diálogo, no qual se apresentava como um preguiçoso, para socorrer o rapaz até o hospital mais próximo. Estabelece-se aí o primeiro elemento central ao plot, oriundo de Assalto à 13ª DP (1976), de John Carpenter. O hospital está oficialmente fechado, com a equipe prestes a ser transferida para outro local, mas na prática ainda funciona como emergência. A equipe conta com apenas quatro funcionários, além de dois pacientes e um acompanhante.

A ação se desenrola sem muitas delongas, seguindo um caminho ainda dentro da filmografia de Carpenter, ou mais especificamente de O Enigma de Outro Mundo (1982), no qual há um entrelace entre o horror cósmico de H.P. Lovecraft, através da ameaça que vem do espaço e a indução à loucura e a paranóia, com o body horror, outra tendência do gênero, caracterizada pela alienação do próprio corpo na forma de mutações e deformidades. Em The Void, cujo título já remete ao cosmológico — O Vazio -, a loucura se infiltra discretamente dentro do hospital, tomando a mente de uma enfermeira, perturbando-a e permitindo o acesso de algo estranho ao nosso mundo.

A primeira cena de mutilação on-screen já surpreende pela qualidade dos efeitos práticos realistas. A enfermeira retira uma tesoura de dentro da órbita ocular de um paciente, num claro aceno ao splatter/gore de Lucio Fulci. Em seguida, ao ser surpreendida pelo xerife, revela o próprio rosto mutilado: dizendo não reconhecer a si mesma (auto-alienação), descarnou o próprio rosto com a tesoura. Ao contrário do plano anterior, o quadro em que somos expostos a esse ato de brutalidade é mascarado pelo uso de sombras, recurso recorrente ao longo do filme e forte aliado dos efeitos práticos.

Nos minutos seguintes, após esse contato com a enfermeira louca, o próprio xerife é acometido de visões abstratas e estranhas, característica comum às representações audiovisuais da obra de Lovecraft. Ao recobrar a consciência, depara-se com uma rápida sucessão de eventos: um outro policial chega ao hospital; um grupo de cultistas utilizando roupas brancas com um triângulo preto sobre o rosto faz cerco ao local; a enfermeira morta começa a mostrar sinais de necromorfismo (transformações físicas que se dão após a morte, como visto em Dead Space) com tentáculos saindo de seus orifícios; os dois homens misteriosos apresentados no começo do filme também dão as caras.

Aprisionados no perímetro do hospital abandonado, cercados por cultistas armados de facas, enquanto um monstro surge de um cadáver e a desconfiança paira sobre o ambiente, o que temos é, basicamente, o plot de Assalto à 13ª DP misturado com O Enigma de Outro Mundo, mas vastamente inferior a ambos. Cinematograficamente falando, falta à direção e ao roteiro um senso de ritmo apropriado, para se obter a sensação de paranoia e medo tão presentes na obra de Carpenter. Tudo acontece de forma repentina, sem tempo para reflexão ou impacto, tudo funciona na base da correria e da gritaria. As transições falham, repetidamente, em demarcar passagens de tempo. Em alguns momentos, os cortes abruptos chegam a ser bizarros, como na cena em que o monstro captura o policial na frente de todo o grupo, sem que ninguém perceba.

Uma outra falha retumbante de The Void, que por sua vez é relegada ao roteiro, é a forma expositiva com que trata seus personagens. Quase que cirurgicamente, as informações chave sobre cada um deles são entregues de mão beijada, em momentos avulsos de pura conveniência, na esperança de que seja criada uma conexão. Quando, posteriormente, esses momentos são chamados à tona para acrescentar dramaticidade à jornada daqueles personagens, simplesmente não há peso algum. A dinâmica entre os sobreviventes do hospital é bem esquemática, no sentido de que tudo acontece graças às decisões arbitrárias, fruto de um roteiro fraco, incapaz de estabelecer motivações concretas e que se apoia na ideia do inexplicável lovecraftiano como muleta.

Durante os dois primeiros atos não há qualquer aproveitamento do ambiente. O grupo está trancafiado em um hospital aparentemente gigantesco, mas não existem outras saídas e não se estabelece um senso de familiaridade ou continuidade com aquele espaço, devido à montagem e ritmos confusos. O primeiro monstro, por exemplo, parece estar em vários locais diferentes ao mesmo tempo, sem que haja qualquer contiguidade entre suas aparições. A estipulação de um espaço geográfico bem delineado é recorrente no trabalho de John Carpenter, sendo um de seus elementos mais notáveis, e que aparece em outros filmes inspirados em sua filmografia, como no próprio Corrente do Mal, ou Sala Verde, de Jeremy Saulnier.

Não obstante, esse mesmo espaço subaproveitado torna-se um dos maiores méritos de The Void, no momento em que se transforma, no melhor estilo Silent Hill, em uma versão infernal de si mesmo. A confusão e a falta de continuidade passam a ser um ás na manga, exatamente por gerarem um senso de inseguridade e dúvida sobre o que há atrás de cada porta — e tudo que há nesse lugar é de uma monstruosidade profana e assustadora. É aqui que os efeitos práticos e o conceito visual de uma dimensão infernal alcançam o ponto de êxtase. A destruição e deformação do corpo, sempre realizada através de efeitos práticos, é brilhante e, mais uma vez, faz um throwback. especialmente às formas brutescas pensadas pelo artista Masahiro Ito nos anos 90 e aos mortos-vivos lentos de Romero e Fulci. Cabe ainda um apontamento interessante: dentre os personagens do grupo, são as mulheres que possuem os corpos mais modificados pela força ali presente, levantando uma interessante consideração sobre o medo que o homem possui da forma feminina.

No interior do hospital, uma realidade indizível e incompreensível se faz presente. O conceito de bem e mal parece banal, frente ao poder incomensurável e extra planar que ali existe. Mais uma vez, os conceitos visuais por trás dessa força transcendental surpreendem pela qualidade plástica, mas não trazem nada particularmente novo ao jogo, já que o grande antagonista parece uma versão atualizada do tio Frank, de Hellraiser, não só em aparência, mas em ideias; as imagens abstratas lembram Beyond the Black Rainbow e a última cena é uma cópia descarada de Terror nas Trevas. O misto de ideias e conceitos jogados em um liquidificador produz várias respostas que atiram para todos os lados, sem que haja coerência dentro de seu próprio universo. Originalidade não é fator preponderante para que se exista algo de qualidade, caso contrário os subgêneros seriam fadados a inexistir, mas a completa ausência dela, intencionalmente, deixa um vazio a ser preenchido.

O final aberto e provocante é quase inerente às obras lovecraftianas, mas o que ocorre aqui vai além disso. É um final esburacado, fruto de um projeto em que muito se dedicou à criação de efeitos práticos e uma identidade visual marcante, que funciona bem como uma obra divertida e cheia de acenos ao passado, mas que não acrescenta nada e que falha em reproduzir muito de suas grandes referências, além de negligenciar o bom cinema. Indo além do deslumbre provocado pelos efeitos, fica apenas um filme bem intencionado que serve como diversão passageira pouco rigorosa e que é impossível de descrever sem recorrer a comparações intermináveis.