QUEBRA DE CONTRATO

Hoje é meu último dia no meu atual emprego.

Escrevo isso no mesmo WordPad onde escrevi vários textos e descontentamentos. Onde escrevi desamores. Onde escrevi términos e mandei por email, porque não posso usar nenhuma rede social durante o trabalho.

Uso o WordPad porque o Word desse computador costuma travar. Percebo, então, que já decorei as manias dos sistemas que opero e até aceitei os defeitos de meu computador com carinho. Aprendi a ficar atento ao cabo do monitor, porque ás vezes ele dá mal contato, e saber que depois do meu almoço, o sistema NUNCA funciona, o que coopera para que eu tire um cochilo na minha mesa.

É engraçado dizer tudo isso, porque durante 1 ano e 6 meses, eu estive aqui, durante 10hrs por dia, com 1hr de almoço. No começo, como em todo relacionamento, eram apenas rosas. Salário na conta todo 5° dia útil. Várias brusinhas. Rolê feito com direito a um combo do Mc quando bate a larica. Aquela dor e satisfação de pagar todos os boletinhos que chegavam na correspondência.

O problema é que depois de um tempo começam as DR’s. Aí o trabalho fica pesado. As contas aumentam e o salário não aumenta proporcionamente, mas aí a gente aperta aqui e ali. A rotina de faculdade-trabalho começa a cansar e tiveram dias que eu só queria sair correndo e gritando. Eu senti falta do sol da tarde batendo no rosto, enquanto minha única janela era meu monitor. Eu senti falta das enxurradas que caíam lá fora sem que eu pudesse aproveitar pra pegar a coberta e ver um Netflix gostosinho.

Mas agora nada disso importa. Porque amanhã é sábado e começa o carnaval. Sem preocupações de manter-me sóbrio por causa do trabalho. Depois tem faculdade, e eu vou talvez poder ficar um pouco no bar com os amigos, sem precisar sair correndo pra não chegar atrasado.

Agora, perto do fim, só penso na trajetória. No Davi que entrou aqui e no Davi que vai sair. Nas metamorfoses pelas quais passei antes de finalmente encerrar esse ciclo. Só consigo pensar em todos os textos que escrevi nesse mesmo WordPad e postei aqui mesmo, no Medium, porque de alguma forma esse caos e correria da minha sala sempre me inspiraram e despertaram meu lado criativo.

Não sei se estou romantizando demais um simples emprego (que nem durou tanto tempo), mas o ato de pedir para sair, só pra poder perseguir meu sonho, parece loucura. Principalmente aos olhos dos outros, que me alertam o quanto está difícil “lá fora”. Sair de um emprego estável pra se aventurar no mercado a procura de um estágio na minha área de formação me causa no mínimo um pânico.

Mas, no fim, é a decisão acertada. E estou feliz com ela.