Bacaninha


Oito horas da noite. Chovia. Não, não chovia. Chovia muito. Chovia a ponto de eu poder fazer um xingamento desnecessário. Aí eu fiquei ali por alguns minutos, observando a água torrencial que caía. Daí comecei a pensar. Pensar nas coisas mais fúteis da vida; vez ou outra lembrando de outras mais importantes. Refleti sobre minha existência na terra. Qual o meu significado aqui. Não cheguei a nenhuma resposta e então resolvi ponderar sobre o que haveria em casa pra comer. Afinal, a larica estava braba. De dar dor de cabeça, sabe?
 
 O ônibus estava vazio. Um sábado a noite chuvoso, perfeito para se afogar nas cobertas enquanto assiste algum filme de roteiro barato para te fazer esquecer que a sua vida é uma merda inconstante e fugir dos problemas. Os seus problemas. Os problemas do mundo. Ou você pode sair por aí e tentar esfriar a cabeça, assim como eu. Esfriar até demais. Dar uma enxaguada nos pensamentos. Enxaguar para não morrer interiormente. Não antes da hora.
 
 Subiu uma moça com uma criança como se espera que todas as crianças venham a ser: fofinha, pequena, olhinhos fechados, do tipo que deixa com vontade de apertar, enfurnada em roupinhas de frio. Uma graça. Desajeitadamente, a moça passou a roleta com bolsa, guarda-chuva e uma criança. Eu poderia ter ajudado, mas estava na parte mais central do ônibus, sabe? Bem no finalzinho do centro, onde ficam aqueles bancos mais elevados por causa da roda. Mais perto dela havia um senhor e dois outros jovens. Eles a auxiliaram, foram mais rápidos do que eu. Ou mais educados.
 
 A senhora se sentou no banco que estava na frente daquele em que eu me encontrava. A garota estava acordada, mas tão quieta. Uma coisinha minúscula tão silenciosa bonita agradável de se ver. Aprecio o silêncio. Voltei minha atenção para a janela. Para a chuva. Senti minha boca seca e minha garganta também. Arranhando. Cortando. Mas está chovendo muito lá fora, então isso me alivia de alguma forma. 
 
 Normal.
 
 O motorista resolveu parar de fumar e ir trabalhar. Abandonou os colegas na rodoviária, tragou uma vez e jogou fora aquele cigarro, ainda com uma pequena brasa que logo foi dissipada. Se colocou em posição e nos guiou para nossos rumos. A melhor coisa de passear de ônibus quando tudo está calmo é que você pensa nos mais diversos tipos de coisa. É bacana o sentimento. Mas, ainda assim, odeio ônibus. Talvez seja claustrofobia. Mas no metrô isso é pior. Sei lá. Mas acho que no metrô eu teria menos chances de sofrer um acidente. Tem que ver isso também, né? Nunca se sabe. Às vezes imagino como seria o choque entre dois trens. Devastador, com certeza. Mas improvável de acontecer. Impossível ou improvável? Sei não. Talvez isso seja apenas loucura. Vivo para ser louco, mas a minha loucura é ser normal quando os outros dizem ser loucos. Vivo para escrever. Quer maior loucura que isso?
 
 Digressões…
 
 Fez o trajeto de sempre. Passou por uma parte mais complicada. Do tipo perigosa, sabe? Ou será que era paranoia minha? O bairro em volta era completamente tranquilo, mas aquele lado ali sempre me dava calafrios. Pode ser um preconceito besta, mas a mente imagina mil possibilidades, não é? Mas o bom é que logo eu chegaria. Levaria uns cinco minutos de ônibus. Engraçado imaginar que, com um ônibus, são cinco minutos de viagem do ponto A ao B. A pé, esse mesmo trajeto pode levar uns quarenta minutos. Talvez eu tenha exagerado, mas uns trinta levaria. Sem dúvida. Tipo a vida. Às vezes ir de A a B leva mais tempo do que poderia rolar se você a conduzisse de outro jeito.
 
 Me preparei, né? Estava longe ainda, mas a gente sempre fica ligado. Aí parou num ponto, o jovem casal desceu. E numa tentativa de passar despercebido, me surge um bacaninha tentando enganar o motorista. Ele achou que foi sorrateiro o suficiente pra não ser notado pelo velho e sua experiência de vida, mas nós dois estávamos cientes que o cara no comando apenas não queria se estressar. Queria ir pra casa tanto quanto eu. Vida de condutor de ônibus deve ser depressiva pra cacete, né? Sei lá, parece que é. Dificilmente vejo um feliz. E passam o dia cheirando a cigarro e café, além de ficar com aquele som irritante zumbindo a cada puxão na cordinha ou apertando os botões. Alguns chamam de “cigarra”. Eu prefiro “dar o sinal” mesmo. Soa melhor. Ah, e sem falar dos passageiros problemáticos.
 
 O bacaninha ficou ali, meio tenso. Usava uma bermuda azul e uma camisa branca onde havia os dizeres “Save The Future”. Bem irônico para a situação na qual ele logo se encontraria. Não dava mais do que quinze anos pro moleque de roupas surradas. E ele estava ali, na atividade, meio confuso. Inquieto. Será que ele sabia o significado das palavras na camisa?
 
 Bacaninha se levantou. Gostei desse nome: Bacaninha. Bacaninha foi perto do motorista, não podia passar por causa da roleta, que ficava mais a frente. “Aí motô…” o ouvi dizer. E só isso, não queria saber o que tava acontecendo ali na frente. E então bacaninha me surge com uma arma na mão e manda o “motô” parar. Uma arma, cara. Pô, cara. Uma arma. Cadê o save the future? Nas minhas mãos, talvez. Mas como salvo alguém que tá prestes a me colocar numa situação onde outro alguém tem que me salvar? O cara, que era outro cara fora o cara ao qual me refiro, ou seja, o cara na direção, na sua longevidade e décadas de labuta, ignorou o indivíduo armado. Daí ele resolveu disparar pra afirmar que não tava de brincadeira. Pois é, sempre foi mania de gente velha querer subestimar os mais jovens. O tiro acertou só o vidro, então ninguém se feriu. O guia parou e o garoto fez o assalto. Ele estava tremendo, mas não perdoou ninguém. Nem o senhor mais a frente, nem um grupo de senhoras mais ao fundo, ao qual eu nem reparei entrar. A moça com o bebê então não fez nenhuma diferença pra ele, apenas pegou dinheiro. E veio pra mim também. Tremendo. Nervoso.
 
 Bufei. Sempre tive alguns conhecimentos de artes marciais. Meio enferrujado, é verdade, mas a memória é boa e no instinto a gente acaba fazendo coisas que nem imaginamos ser capazes. Podia dar uma surra num moleque de quinze (ou menos), com metade do meu tamanho, magricela e tremendo de medo, que estava mais perdido do que gordo em rodízio de pizza. Mas não. Não quis arriscar. Não sei se foi insegurança pela arma e a dúvida. Dúvida de ser mais lento que o dedo no gatilho. Talvez fosse medo e eu não quisesse assumir. Afinal, era uma arma. Então, peguei qualquer cinco reais que tinha no bolso da calça e dei pra ele. Falei que só tinha aquilo. Li os seus olhos; sabia que eu estava mentindo. Mais do que isso: ele estava ciente de que eu sabia que ele sabia que eu estava mentindo. É meio chato isso, né? Dá um nó na cabeça essas frases longas e com palavras repetidas. A língua é uma merda. Opa, cadê o politicamente correto? Mamãe me educou pra nunca xingar. Tudo bem que ela solta uns palavrões em ocasiões raras, mas eu entendo. Acho que eu estresso ela demais. Mas também sou a salvação dela, né? Filhos… Vai entender. Acho que só compreenderei se for pai. Mas não devo ser pai, acho pouco provável. Não sou o tipo de indivíduo capaz de constituir uma família. Será que Bacaninha teria filhos algum dia? Será que a mãe dele sabe que Bacaninha tá metido com coisa de desgraçar o Save The Future? Ele é a salvação ou a sina dela? Qual foi, Bacaninha? Tua mãe tá chorando, moleque. Vai acudir quem sempre tentou te proteger do mau mal que o homem mau faz ao fazer mal a quem faz mal por falta de opções antônimas ao mal de tudo que há na vida e que a vida é.
 
 Bacaninha, ainda nervoso, resolveu não insistir. Baixou a arma, foi até a roleta, “escalou” o troço e foi pra perto do motorista. Pegou alguns trocados, já que o velho exercia a função de cobrador também. Não conseguiu levar tudo, era adrenalina demais para seus quinze anos. Ou menos, sei lá. Nunca fui muito bom adivinhando essas coisas.
 
 Ele desceu do ônibus. Após alguns segundos, ouvi xingamentos, cochichos, palavras de indignação. Voltei minha atenção para a chuva. Ao menos tentei, já que a garotinha no colo da mãe se pôs a chorar. E chorou até o meu ponto. Aí eu levantei, dei o sinal. Ou a cigarra. Naquela hora me veio uma música na cabeça. Não uma música já existente, mas algo que eu poderia usar pra compôr um dia. Isso acontece direto, é uma sensação boa. Me virei pra pequenina ali nos braços da mãe.
 
 “Por que chorar? Você ainda pode nos salvar…
 Apenas depende de você, corrigir os erros da época em que eu ainda era um bebê
 Não sei quanto a mim, mas você não nasceu em vão. É o futuro dessa geração.”
 
 Ela adormeceu, sabe? Tipo, muito rápido. Foi engraçado. A mãe me agradeceu, com uma expressão simpática. Aí desci no meu ponto, pensando na vida. Pensando no Bacaninha com sua camisa de Save The Future. Mas pensando também em como eu havia criado aquela bosta. Que rima forçada. Coisa de idiota. Descartei totalmente a possibilidade de usá-la algum dia. Eu me martirizei por ter pensando naquilo. Forçado. Bacaninha foi forçado a fazer aquilo, não foi? O mundo força você a se forçar.

É, acho que eu não tenho utilidade nenhuma. Desejei boa sorte para a pequenina dentro do ônibus, no colo da mãe. Queria saber o nome daquela coisa que dorme com qualquer canção besta. Tão lindinha. Crianças. Espero que ela possa me perdoar um dia. Perdoar a mim e ao Bacaninha. Perdoar-nos por não termos salvo o futuro.

Será que Bacaninha ao menos aprenderia inglês?

Bacaninha. Que irônico.