Cap. 24

Imagem daqui.

Existia uma lembrança em mim. Apenas uma. Todo o restante parecia ter sido apagado da minha memória. Muita coisa do meu passado não existia mais, agora que eu parava para analisar isso. Não sei como aconteceu ou quais as razões para todas as lembranças sumirem, mas uma permaneceu. E eu não precisei de sonhos para isso, pois as coisas boas da vida sempre surgem espontaneamente.

A primeira coisa que me vinha em mente era a música. A melodia suave e limpa da introdução, realizada por um violão que repetia uma sequência de acordes e dedilhados que logo em seguida acompanhariam a voz de George Harrison em Here Comes The Sun. O ambiente no qual a canção repercutia, vindo de um velho rádio empoeirado, era pequeno. Uma cabine que comportava três pessoas: eu, na época com doze anos de idade, um garoto magricelo e um pouco alto para a sua idade, e que as pessoas, naquele tempo, já diziam ser um pouco fechado para o mundo; minha mãe, que adormecia com a cabeça encostada próxima à janela que exibia a paisagem noturna; e meu pai, que demonstrava cansaço mas não se arriscava a fechar os olhos. Ele aparentava estar tenso, o rosto denunciando o quanto necessitava de repouso. Mas ele permanecia atento a todos os possíveis sons e acontecimentos fora do compartimento. A mão direita se encontrava na altura da cintura, porém o sobretudo negro que vestia caía sobre ela, fazendo parecer que ele escondia algo, como naqueles velhos filmes sobre a máfia. Em seu rosto, uma evidente carga de arrependimento.

O seu comportamento também era atípico. Não apenas estava suando mais do que o comum, mesmo que o clima não estivesse muito quente, mas também se encontrava inquieto. Regularmente ajeitava o seu chapéu, mas nunca deixando mostrar o que escondia em sua mão. Foi quando ele notou que eu o observava.

— Tudo bem, filho?

Lembro de ter respondido de maneira desanimada, balançando a cabeça em afirmativa. Me encontrava assim mais pelo cansaço da longa e tediosa viagem do que qualquer outra coisa. Além disso, ainda sentia uma dor de cabeça que parecia não querer passar. Meu pai, sabendo disso, constantemente procurava saber se tudo estava certo. Ele abriu um sorriso que demonstrava a sua exaustão. Por um segundo me pareceu que ele poderia cair morto no chão a qualquer momento.

— Animado para conhecer a casa de sua avó?

— Tanto faz — disse, dando de ombros. — Eu nem sei por que estamos indo para lá. Eu me sinto estranho. Como se tivesse esquecido de alguma coisa.

— Isso é normal em viagens. Além do mais, deixamos muita coisa para trás — ele falou com a voz carregada de tristeza. Na época eu era muito novo e ingênuo para entender, mas, pensando agora, parecia que havia muito arrependimento nele. — Amigos, alguns familiares, os lugares que gostamos de frequentar. Muita coisa. E nos resta começar de novo. Deixar o passado para trás e focar no que temos agora. Você vai se adaptar muito bem. E voltaremos ao Rio algum dia.

— Mas não é isso que eu quero dizer. É como se alguém importante não estivesse aqui. Ou alguma coisa.

— Como assim? — Ele perguntou, me olhando de cima e apresentando um pouco de confusão e curiosidade em sua expressão facial. — Quem ou o que você acha que está faltando? Estamos todos aqui, não?

— Não sei. Só é estranho. Parece que está faltando algo, mas não sei dizer o quê.

Ele riu.

— É só impressão sua, filho. Nossa mente está sempre pregando peças. E das melhores. Mas é você quem precisa saber diferenciar a realidade de tudo que é enganoso. Caso contrário, prepare-se para enfrentar um mundo de falsidades, ilusões e deturpações. O melhor conselho que eu posso te dar é esse. Todos tentam nos enganar. Todos. Sem exceção. Às vezes, repetimos mentiras para nós mesmos na esperança de aliviar uma dor que seria melhor combatida se caminhássemos na simplicidade da verdade. De qualquer modo, algumas dessas mentiras servem para o bem, outras para o mal. Não importa qual dos dois objetivos, você precisa saber o que é verdade e o que não é. O mundo das ilusões é agradável de se viver, mas as verdades, por mais que sejam duras, deixarão você mais forte para enfrentar os problemas que surgirão. Não deixar que os outros enganem você é importante. Não permitir que se deixe levar pelas farsas que sua própria mente cria é essencial.

— Isso parece ser difícil.

— E é. Desconfie toda vez que que a vida apresentar algo simples a você. — Ele voltou com o sorriso amigável. — Já está tarde, então vê se vai dormir. Esse também é um ótimo método para escapar da falsidade. Um dos melhores, se quer a minha opinião.

Lembro de ter rido junto com ele após a última frase. A música ainda tocava, já chegando ao seu fim, para logo dar espaço à faixa seguinte. Decidi então me recostar no assento da maneira mais confortável que conseguia, aproveitando o leve embalo do trem e a música agradável. O sono chegou rápido, bem diferente do que costumava acontecer depois de adulto. Cedi com rapidez às forças de Morfeu e logo apaguei. Recordo-me ainda de, em certo momento, ter despertado momentaneamente após ter tido a sensação de ouvir algum baralho do lado de fora. Talvez uma simples trepidação mais intensa do veículo sobre os trilhos. Não era nada demais, mas me deu a oportunidade de ver meu pai entregue ao cansaço e uma parte de seu sobretudo escorregar, revelando o que ele carregava em sua mão. Portava uma pistola, a qual não consigo lembrar exatamente o modelo. Eu queria perguntar a ele qual era a necessidade daquilo. Nunca o vi manusear qualquer tipo de arma e não entendia a necessidade de estar com uma naquele lugar. Anos se passariam e eu continuaria não entendendo. Eu deveria ter acordado ele e perguntado. Mas não o fiz. Optei por voltar a dormir. Afinal, era a melhor alternativa.