As edições semicríticas de Hitler

Adolf Hitler quer entrar pela porta da frente do mercado editorial brasileiro. Diante da falta de cerimônia do vilão, este artigo procura colaborar ao debate das “edições críticas de Hitler” tendo consigo três pressupostos: (a) a censura deve ser combatida; (b) discursos de ódio devem ser combatidos; (c) para “desarmar” um discurso de ódio, um editor precisa ter legitimidade para fazê-lo.

Frente ao oportunismo editorial — o de querer publicar Hitler tão logo venceram os seus direitos autorais –, o boicote parece ser a única saída enquanto não apareça uma fundação cujo lastro a habilite publicar Hitler para efeitos educativos e de documentação histórica.

A imprensa brasileira trata as edições semicríticas de Hitler pelo viés da “polêmica” e faz o gosto das editoras interessadas em lucrar com o legado do ditador. Contrariando as promessas de “edição crítica”, uma das editoras apresentou uma campanha publicitária a dois passos da apologia ao facínora. O canto de sereia do marketing atropelou as intenções de uma suposta produção editorial de excelência.

Muito tem se falado que não haveria pior inimigo de Hitler que seu próprio discurso. A importância de se publicar Mein Kampf seria sua questão educativa, a de apontar sua inconsistência e irracionalidade. No entanto, quem acompanha o caso percebe que a discussão está longe de ser sobre “como fazer a melhor edição crítica possível? ”, mas o de garantir que editoras publiquem a qualquer custo um discurso de ódio sem as devidas cautelas.

Do jeito que a “polêmica” está colocada, qualquer edição crítica (mesma que divulgue Hitler na capa), pode ser bem-vinda. Parece haver consenso de que editoras comerciais publiquem abertamente um discurso de ódio que serviu de ponto de partida para um processo totalitário que culminaria no Holocausto. Apenas parece, pois tal consonância inexiste. Talvez o problema seja esse: quem tem a habilidade em desacreditar Hitler, não o está fazendo. Quem está fazendo, transfere para si um poder de desarme que não possui.

A PUBLICIDADE QUE SERVE A HITLER

Sem propaganda não teria havido Hitler. Sem dominar a linguagem da propaganda, não há como desaboná-lo. Para usar a metáfora da bomba, a pergunta é: de que adianta prometer uma edição crítica e esquecer que o desarme do explosivo inclui sobriedade na publicidade? Ou seja: a advertência a um discurso de ódio deve ultrapassar o tratamento do miolo do livro. Ele deve incluir até a capa. Sim: vivem-se tempos em que é preciso dizer o óbvio.

Uma edição crítica de verdade deve combinar uma produção editorial analítica com uma propaganda que anule qualquer potencial foco de nazismo. À liberdade de expressão interessa não só abolir a censura, mas também combater o culto ao nazismo. Qualquer exceção (direta ou conduzida) a tal idolatria não servirá aos propósitos de uma democracia mais plural.

Se qualquer um de nós publicar um livro que inspire racistas, pode ser alvo de processos e prisões. No entanto, se editarmos Adolf Hitler corremos o sério risco de sermos associados à “defesa da liberdade de expressão” no Brasil. Falta lógica nessa argumentação. Vale reforçar que a acorrida ao líder nazista se deveu à liberação de seus direitos autorais. Ou seja, simples questão de mercado.

Hitler se tornou um dos ícones do século XX, o que dificulta separar a publicação de sua obra de uma homenagem. Se “Mein Kampf” pode ter seu conteúdo discutido e servir à educação pela cidadania como contraexemplo, beira o ridículo pregar tal propósito estampando a imagem de Hitler e da suástica na capa da prometida “obra crítica”.

Ao se associar o rosto icônico do líder nazista, o livro ganha uma conotação difícil de separá-la do nazismo. Por mais elementos pré e pós-textuais que acompanhem a obra, uma capa com Hitler cujo miolo traga “Minha Luta” continuará sendo uma obra digna de ser CULTUADA por fanáticos. O risco é de apenas trocar a moldura de um dos quadros expostos numa galeria de ódio. Sendo que a proposta “crítica” seria a de colocar um filtro diante dessa representação de quem tornou o racismo política de Estado.

Todos aqui devem se lembrar da campanha publicitária feita para a Folha de S. Paulo, em 1988, por Washington Olivetto na W/Brasil. Enquanto a câmera dava um zoom-out, saindo do plano fechado em pixels até o rosto de Hitler, contavam-se as muitas façanhas de um líder. O desfecho era: “é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. O comercial “Hitler” foi premiado com Leão de Ouro no Festival de Cannes e é um dos únicos comerciais ibero-americanos na lista dos cem melhores de todos os tempos, publicada em 2000 por Berneci Kanner. Sim, vivemos tempos em que é preciso dizer o óbvio — II: o rosto de Hitler é um ícone da “banalidade do mal”.

REVOLTA À CENSURA JUDICIAL

A “censura judicial” dirigida à nossa imprensa acontece repetidamente, embora não cause a mesma comoção que o impedimento da circulação do pensamento de Hitler. Não deveria ser assim. Por exemplo: em julho de 2015, a juíza Luciana Antunes Ribeiro Crocomo, do Departamento de Execuções da Infância e da Juventude de São Paulo, proibiu que Folha de S. Paulo publicasse reportagem sobre relatórios feitos por profissionais da Fundação Casa e que avaliavam a situação dos adolescentes internados na instituição.

Outro capítulo que expõe um parente próximo de nossa cultural de censura: a decisão do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, de manter sob sigilo informações de interesse público na área de segurança (Resolução nº 7, de 3.fev.2016). Diz a nota de repúdio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji): “ao classificar boletins de ocorrência como informações pessoais e colocá-los em segredo por 50 anos, Moraes inviabiliza a produção de reportagens e pesquisas acadêmicas sobre criminalidade”.

Historicamente, o Brasil institucionalizou a prática da censura. Chegou-se ao ponto de haver concurso público para contratação de censores nos anos 1970. É, portanto, mais fácil lutarmos contra ela, por ser um inimigo de rosto reconhecível. No entanto, a “opinião pública” demonstra não ter a mesma habilidade em repudiar os discursos de ódio. Lutar pela “liberdade de expressão” — defender “até a publicação de Hitler” — não pode significar avalizar edições manquitolas em sua capacidade de desengatilhar Hitler. Repetindo: não adianta a editora prometer um miolo crítico e trazer uma superfície acrítica.

Defender a liberdade de expressão não significa apenas lutar contra a censura, mas em denunciar “Minha Luta” como discurso de ódio. Está longe de ser o melhor dos negócios contemporizar com nazista. Ou melhor, só pode ser isto: um bom negócio, puro business.

AS PRATELEIRAS DE ÓDIO

Os ataques às “edições críticas de Hitler” não se deve apenas a oportunismo evidente delas, mas ao fato de que podem “aquecer um determinado segmento do mercado”. Ou seja, levar, a médio prazo, à criação de “prateleiras de ódio” nas estantes das livrarias. E, sob o manto da “liberdade de expressão”, editoras muito menos sérias que as atuais podem querer ampliar o escopo da “documentação histórica” supostamente crítica e, por exemplo, darem um acesso mais “democrático” aos infames “Protocolos dos Sábios de Sião” e “A História Secreta do Brasil”, de Gustavo Barroso, membro fundador do Integralismo.

O debate causado pelas “edições críticas de Hitler” serve para expor a extrema responsabilidade das casas editoriais, que recebem isenção de alguns impostos para promoverem a cultura e a pluralidade de ideias. Debates éticos não podem ser ignorados no campo editorial, para os quais devem ser evitadas argumentações rasteiras como “esse livro está na internet”. Afinal de contas, o que não está?

Se fôssemos pela lógica de que basta um conteúdo estar na web para ser publicado, haveria problemas sem demora. Isto é, quem defenderia a circulação de um livro que ensinasse métodos infalíveis de se suicidar? E a de um que detalhasse técnicas de tortura? E a de um título que mostrasse como transformar pasta-base em cocaína? E a de um que explicasse como se tornar um homem-bomba ou como entrar para a jihad do Estado Islâmico? Pois é isso mesmo: se tal conteúdo não está na superfície, está lá na deep web. E se carregamos nas cores, é para esclarecer que a liberdade é também um ato social.

Defende-se um legalismo bisonho preocupado em levar Hitler de qualquer maneira para as prateleiras das livrarias. Mas nos perguntamos: se a obra de Hitler se tornou pública, então quer dizer que Hitler vai ser menos Hitler por isso? Provavelmente ele seguirá sendo o mesmo ícone que é. Tais ideias poderiam ser mais fáceis de apresentar, caso a “polêmica da publicação” não tivesse desandado diante da decisão do juiz Alberto Salomão Junior, da 33ª Vara Criminal do Rio de Janeiro (RJ), que proibiu a comercialização, exposição e divulgação de “Minha Luta” (Mein Kampf, 1933) em todo aquele Estado.

Apenas para remontar parte da construção da “polêmica”, é evidente que editora censurada não estava disposta a exaltar o líder do nacional-socialismo em sua produção editorial. No entanto, ao lançar uma campanha publicitária baseada na face de Hitler e nos emblemas nazistas, ela não cumpriu a crítica que prometera. Ou seja, um tema que já era delicado se tornou insustentável em termos éticos. Mas nada que justificasse o injustificável ato de censura.

A “opinião pública” bem que poderia criticar a limitada capacidade educativa das editoras comerciais recém interessadas em neutralizar a mensagem de Hitler. No entanto, ela se bandeou toda para criticar a censura — inimiga que nos traumatiza muito mais que os discursos de ódio. E como se dispensa falar contra a censura, esse artigo também aborda algo que não viu em outros lugares: fazer uma distinção entre censura e boicote. Se discursos de ódio “atuais” são crimes que merecem processos e prisões, talvez a única saída para o caso atual de Hitler venha a ser o boicote às edições semicríticas.

A OPÇÃO DO BOICOTE

Um livro como “Minha Luta” não deveria ser editado e divulgado como um provável best-seller que irá encabeçar semanas a fio a lista de livros da revista Veja. Repetindo: Hitler se tornou um ícone da “banalidade do mal”, da transformação do racismo em política de Estado. Em termos literários, sua obra ora é totem, ora é tabu — mas nunca deixa de ser um discurso de ódio. Diante dos traumas do Holocausto, fica difícil contemporizar com o genocida.

Apesar de não ser impossível editar e publicar um texto amaldiçoado, o tamanho de sua advertência (“caveat”) precisa anular o caráter de apologia. E não foi o que aconteceu devido à ambição publicitária da obra que terminou (equivocadamente) censurada. Lembremos que uma das editoras, que é alvo da “polêmica”, presta enorme contribuição à nossa imprensa. Lamentavelmente, na hora de desarmar os espíritos e mostrar serviço de sua “edição duramente crítica a Hitler”, ela tenha optado por uma campanha publicitária desastrosa. Também é decepcionante ver um editor consagrado usar seu lastro de influência para promover uma obra semicrítica — porque acrítica publicitariamente — e tentar desqualificar quem pensa diferente dele.

Para um país que aceita tão bem a censura judicial a jornalistas, estranha o fato de que Hitler comova tanto. Talvez, fosse bom recuperar episódios como Bücherverbrennung, no qual nazistas espalharam 20 mil livros na Bebelplatz (praça de Berlim) e tocaram fogo em livros de “degenerados” como Albert Einstein, Sigmund Freud, Thomas Mann, Erich Maria Remarque. O ano 1933 nem está tão longe para esquecer tal passagem histórica e saber que sem Hitler e “Minha Luta” não haveria essa fogueira feita de “degenerados” segundo os nazistas.

Em síntese, especialmente ao leitor que me chama para a conversa: “Então quer dizer que você é a favor da censura de livros? ”. Não, sou contra Hitler e o que ele representa. Sou contra o Holocausto. “Você acha que uma lei deveria impedir a edição de um livro? ”. Jamais; mas recomendo ao eventual “editor crítico de Hitler” que ele tenha a clareza de que a publicidade precisa repetir o tom crítico prometido nas notas de rodapé e nos elementos pré e pós-textuais. Ou que ele deixe o expediente para quem tenha a legitimidade para fazê-lo.

Para finalizar, enquanto prospera a “polêmica” da publicação de Hitler, assiste-se à transformação do líder nazista em peça de liberdade de expressão. E o pior: por obra de edições semicríticas, incapazes de reconhecer seus erros publicitários, que só beneficiam o culto ao abominável personagem. Enquanto o mercado se portar com oportunismo e soberba — tratando com bazófia seus críticos e se fazendo de surdo para as demandas da sociedade civil —, ele deixa poucas opções aos indivíduos. A que mais toma volume é a do boicote às edições semicríticas.

* Ben-Hur Demeneck é jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação (ECA-USP). É ombudsman do jornal RelevO desde outubro de 2015. A versão final deste artigo data de dia 18/2/2016, mas só agora circula na internet.

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