Quando Muhammad Ali fundou um Clube de Leitura

Muhammad Ali comove o mundo com sua despedida. Fiquei quieto até agora porque a sua despedida causou forte impacto em mim, mas dou meu depoimento sobre como ele esteve presente no paralelo 25, Sul, para fundar um Clube de Leitura no Brasil.

Lembro que, a 9 de abril deste ano, na primeira oportunidade que eu tive de fundar um clube de leitura, escolhi justamente um livro que narrava a luta dele contra George Foreman, em 1974, no então Zaire (atual República “Democrática” do Congo). Como mediador do grupo, não tive dúvidas em pegar um dos mais fascinantes livros-reportagem da história: “A Luta”, de Norman Mailer, publicado em 1975.

Coloco Ali ao lado de Gandhi e Martin Luther King Jr. Assim como cada um daqueles tinha profissões de origem — sendo um advogado e o outro pastor — , Ali era boxeador. No fim, cada dessas figuras deu lições de grandeza em favor da descolonização dos pensamentos. Comparo Ali a Martin Luther, mas sei que ele mesmo preferia o ativista Malcolm X. Mas pago (e cubro) pelo emparelhamento deles.

Há uma passagem do livro de Norman Mailer (igualmente perito em sua técnica e exibicionista tanto quanto Ali), em que o narrador considera que aquele peso-pesado apenas lutava para fazer aquilo que mais gostava: falar, falar e falar. Embora fosse um dos exageros típicos do repórter-celebridade (que fala de si em terceira pessoa durante o livro), demonstra a força das ideias daquele lutador que subia ao ringue contra um batalhão de inimigos, em especial, contra o racismo, o belicismo, a discriminação e o conservadorismo.

Apesar de os jornalistas de última hora não tratarem disso em seus especiais, a a imprensa da época esperava que Ali fosse demolido por Foreman. Por essa coragem de lutar contra os mais fortes (por incrível que pareça afirmar isso, pensando no vigor físico de Ali), é que se emoldura sua face de herói misturada ao palavreado de um homem comum. Muhammad ia além do que parecia possível, graças a uma força moral digna dos semideuses gregos.

Graças a Mailer e aos personagens da Rumble in the Jungle (inclusive o nefasto Don King), uma luta foi elevada a condição equivalente à diplomacia, por seu diálogo com a política, com as culturas e mesmo à luta por direitos civis, personificada em Ali, versus uma identificação ao establishment, presente em Foreman. Dito isto, podemos lamentar que 2016 sepulta um tesouro do século XX, no mesmo ano em que fundou um Clube de Leitura no paralelo 25, da remota cidade de Ponta Grossa.

Like what you read? Give Ben-Hur Demeneck a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.