50 anos do Golpe de 1964: 

Ditadura Nunca Mais!


Ditadura Nunca Mais

Aconteceu em São Paulo, na última segunda-feira o Ato Ditadura Nunca Mais, promovido por 140 entidades que reuniram centenas de pessoas no pátio da antiga sede paulista do DOI-CODI, um dos centros de repressão.

Segundo a Comissão da Verdade da Assembléia Legislativa de São Paulo, 57 pessoas foram assassinadas no local, entre elas o jornalista Vladmir Herzog em 1975.

Parentes das vítimas, políticos, cidadãos e ativistas dos direitos humanos homenagearam os mortos e pediram a punição de militares que participaram das torturas e assassinatos.

O Deputado Ivan Valente, também preso e torturado durante a ditadura, esteve presente, homenageando amigos e companheiros que foram vítimas da ditadura militar brasileira. Ivan Valente participa das lutas populares desde as grandes mobilizações da juventude, nos anos 60, quando foi dirigente do Centro Acadêmico da Escola de Engenharia Mauá. Como membro da geração, que em 1968, despertou para a militância política na resistência democrática à ditadura. Foi perseguido, preso, torturado e condenado pelo regime militar. Ajudou a fundar o “Comitê Brasileiro pela Anistia/SP” e dirigiu o jornal socialista “Companheiro”.

Em sua trajetória política de mais de 40 anos, o deputado Ivan Valente batalha pela consolidação da democracia e luta principalmente pela liberdade de organização, de manifestações e com o direito do povo de conquistar a igualdade social e uma vida digna.


“Decorridos 50 anos do início da ditadura civil-militar no país, este é o momento para grande reflexão, mudança e mobilização social. Continuam na ordem do dia a reforma agrária, educação pública, gratuita e de qualidade, melhoria da rede de saúde pública, bons empregos, renda, saneamento básico, moradia, liberdade e democracia”.
Dep. Ivan Valente — PSOL-SP

Durante o ato, um manifesto foi lido em coro por centenas de pessoas no Pátio do DOI-CODI:

“Hoje, 31 de março de 2014, completam-se 50 anos do golpe que implantou a ditadura militar brasileira, que atingiu violentamente nosso povo por longos 21 anos.”

“Mais de 70 mil pessoas foram presas e perseguidas e 437 foram mortas e desaparecidas, de acordo com levantamento realizado por familiares das vítimas nas últimas quatro décadas. Esse número pode chegar a milhares se considerado o extermínio de indígenas a mando dos governos militares.”

“A prática de tortura e de outros crimes contra a humanidade foi generalizada e sistemática. Este prédio é a clara demonstração disso, pois era possível ouvir, do lado de fora, o grito das pessoas torturadas por horas e dias seguidos. O terrorismo de Estado, executado pela ditadura, teve o comando do alto escalão das Forças Armadas e foi financiado diretamente por muitos empresários e suas entidades, que se beneficiaram com a ditadura militar e ainda hoje estão na elite econômica do país e na estrutura do Estado.”

Leia o Manifesto na íntegra aqui

Neste local e nesta data, vamos lembrar o nome de cada um dos assassinados neste prédio, em memória e homenagem às suas vidas e lutas. Desse modo, reverenciamos e homenageamos suas histórias e papéis de resistentes, a quem tanto deve o Brasil.

Alceri Maria Gomes da Silva, Alex de Paula Xavier Pereira, Alexander José Ibsen Voerões, Alexandre Vannucchi Leme, Ana Maria Nacinovic Corrêa, Ângelo Arroyo, Antônio Benetazzo, Antônio Carlos Bicalho Lana, Antônio Sérgio de Mattos, Arnaldo Cardoso Rocha, Aylton Adalberto Mortati, Carlos Nicolau Danielli (Carlinhos), Dorival Ferreira, Edson Neves Quaresma, Eduardo Antônio da Fonseca, Emmanuel Bezerra dos Santos, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira (Chico Dialético), Francisco Seiko Okama, Frederico Eduardo Mayr, Gelson Reicher, Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, Grenaldo de Jesus da Silva, Helber José Gomes Goulart, Hélcio Pereira Fortes, Hiroaki Torigoe, Iuri Xavier Pereira, João Batista Franco Drummond, João Carlos Cavalcanti Reis, Joaquim Alencar de Seixas, Joelson Crispim, José Ferreira de Almeida, José Idésio Brianezi, José Júlio de Araújo, José Maria Ferreira Araújo, José Maximino de Andrade Netto, José Milton Barbosa, José Roberto Arantes de Almeida, Lauriberto José Reyes, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, Luiz Eurico Tejera Lisboa, Luiz José da Cunha, Manoel Fiel Filho, Manoel Lisboa de Moura, Manuel José Nunes Mendes de Abreu, Marcos Nonato da Fonseca, Norberto Nehring, Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, Raimundo Eduardo da Silva, Roberto Macarini, Ronaldo Mouth Queiroz, Rui Osvaldo Aguiar Pfützenreuter, Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, Virgílio Gomes da Silva, Vladimir Herzog e Yoshitane Fujimori


“Que 2014 seja o ano da verdade e também o da justiça.
Ditadura Nunca Mais!
Punição aos Torturadores de Ontem e de Hoje!”

Dia sombrio
Cinquenta anos após o Golpe de 64, militares e torturadores assassinos continuam impunes. Em 2004, Ivan Valente prestou depoimento sobre a prisão, tortura e condenação pelo regime militar.

Depoimento de 2004
Eu, Ivan Valente, professor e engenheiro, nascido em 05 de julho de 1946 , relato para efeito de registro histórico e nos termos da Lei 3744/2001 do Estado do Rio de Janeiro, minha prisão política ocorrida no dia 19 de julho de 1977 na cidade do Rio de Janeiro, bem como os fatos que se sucederam após o ocorrido.
Minha prisão aconteceu no horário aproximado de 18 horas, na rua Real Grandeza, em frente o Cemitério São João Batista, bairro de Botafogo, cidade do Rio de Janeiro.
Pude visualizar pelo menos 6 homens que me deram voz de prisão, com metralhadoras encobertas por pedaços de jornal. Fui colocado imediatamente num veículo da marca volkswagen (fusca) de cor azul, algemado, encapuzado e ameaçado com uma arma na cabeça. Começaram no carro as ameaças e torturas psicológicas. Fui levado a uma dependência militar que depois soubemos ser o DOI-CODI do I Exército, na Rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca.
Neste local, fui fotografado, deixado nu e encapuzado. A partir deste momento, fui submetido a 10 dias seguidos de torturas que envolveram choques elétricos permanentemente, na chamada “cadeira do dragão”, espécie de cadeira de barbeiro onde os presos eram amarrados para serem seviciados. “Pau-de-arara” e o chamado “telefone”, asfixia com saco plástico ou com o próprio capuz, também foram utilizados.
Vários dias e noites foram passados na chamada “geladeira”, espécie de câmara frigorífica, dentro de uma outra caixa de concreto e porta de frigorífico, ambas no formato de um cubo. Era uma câmara acústica, refrigerada, com câmeras de TV. Aí monitoravam todos os gestos e movimentos dos presos. Era o “Big Brother”. Alguns dos fatos relatados estão detalhados em longa carta que eu e militantes do Movimento Pela Emancipação do Proletariado — MEP escrevemos da prisão, denunciando o funcionamento do sistema. O Jornal do Brasil e outros deram ampla divulgação dos fatos.
Dez dias depois, eu e outros presos políticos fomos colocados num camburão, onde foi retirado o capuz. Pelas frestas do veículo pudemos ver que fomos transportados para um estabelecimento militar, situado na Tijuca, perto da Praça Saenz Peña, onde reconheci o local, pelo fato de ter residido nas redondezas por algum tempo.
De lá, fomos levados para o Departamento de Polícia Política e Social — DPPS, localizado à Rua da Relação no centro do Rio de Janeiro. Depois de 10 dias no DOI-CODI, com a quebra da incomunicabilidade, pudemos ver os advogados e relatar as torturas.
Os interrogatórios prosseguiram no DPPS, com ameaças, pressões, chantagens psicológicas e agressões como tapas na cabeça e chutes, e mais, com a presença dos mesmos torturadores que nos seviciaram no DOI-CODI. Pelo menos três companheiros presos regressaram à Rua Barão de Mesquita, entre eles o jornalista Luís Arnaldo Dias Campos.
Debaixo de agressões e torturas psicológicas (como as ameaças da volta de todos ao DOI-CODI), iniciamos uma greve de fome que se prolongou por vários dias. No meu caso, fui submetido a 14 horas de interrogatórios e pressões, com 6 dias de greve de fome e tendo, praticamente, não me alimentado nos 10 dias anteriores passados sob tortura, no estabelecimento do Exército.
Foram cerca de 50 dias passados no DPPS, interrogado pelo delegado Borges Fortes, sempre acompanhado de torturadores do DOI-CODI que se identificavam como participantes de tortura nos 10 dias da incomunicabilidade. O tempo todo tentaram forçar depoimentos, forjar respostas e auferir informações para o meu indiciamento e dos demais presos políticos na Lei de Segurança Nacional.
Nesse período, pude observar e sofrer na carne o exercício da função do DPPS como extensão, órgão auxiliar e complementar da máquina de tortura funcionando sob a égide do Comando do I Exército.
Tenho a relatar, ainda, que após vários dias preso no DPPS, em função das pressões e das queixas dos familiares, dos advogados e da mídia sobre o estado de saúde lamentável dos presos, foi enviado aquele órgão um legista, um farsante, um cúmplice do sistema, que desmerece a profissão e o juramento médico, nada constatando sobre a situação dos presos políticos.
Minha família contratou médico pneumologista que constatou deficiência respiratória causada por violentas pancadas no tórax, ocasionadas pela aplicação da modalidade de tortura denominada “cruz”, onde o preso com os braços abertos recebe violentos golpes no peito. Outro médico ortopedista, também contratado por minha família, detectou problemas graves no joelho, um “derrame” (inchaço que impede o movimento). Esta seqüela no joelho esquerdo permanece até hoje, já que tive os ligamentos partidos por conta de violentas pancadas laterais.
Terminada a fase de interrogatórios, feita da maneira relatada, fomos transferidos para o presídio Esmeraldino Bandeira, em Bangu, Rio de Janeiro, onde aguardamos o desenrolar do inquérito.
É o relato de interesse, para os fins previstos.
São Paulo, 19 de novembro de 2004.
Ivan Valente



Reencontros

Idibal Piveta — advogado de presos políticos em 1977, dentre eles Ivan Valente. Fundador do Grupo de Teatro União e Olho Vivo
Idibal Piveta — advogado de presos políticos em 1977, dentre eles Ivan Valente. Fundador do Grupo de Teatro União e Olho Vivo

Stanislaw Szermeta — preso político, militou junto com Ivan Valente no POC (Partido Operário Comunista) no começo da década de 1970 e foi dirigente do movimento de oposição metalúrgica no estado de São Paulo.
Martineli — Líder Ferroviário perseguido pela ditadura

Abaixo Assinado


Diretores do Sindicato dos Químicos de Osasco-SP
“ Os punhos cerrados ficarão em nossa memória e amanhã, mais do que hoje, serão um pesadelo para os ditadores e seus sequazes”

Trecho da Carta dos 10 companheiros condenados, acusados de pertencerem ao Movimento pela Emancipação do proletariado. 12 de dezembro de 1978