A rua do mundo

Olhar a vida como o ponteiro de um relógio é difícil demais. Usar o tempo como conta-gotas e se imaginar sentada num ponto onde o ônibus nunca virá é uma eterna depressão.

Então, engane o tempo! Finja que ele não existe, ao mesmo tempo que doma suas jubas imaginárias, dê um golpe e suma! O tempo não achará você. Hoje o tempo me perdeu. Nem o vi. Fiz o que quis.

Me convidei para um almoço, que começou com uma cerveja geladinha e tiras salgadas de banana frita. Depois, aquele tempero gostoso, que me fez lembrar de um passado com pessoas que já não estão mais aqui.

A dona do tempero é mãe do meu marido que faleceu de câncer, cujo esposo e avô de meus filhos também se foi pela mesma doença.

Os netos rechearam a casa, a comida e o receber bem completaram aquele vazio quando sentimos saudade da saudade. É como o medo de ter medo.

Relembramos de ambos tirando curativos emocionais, nos abençoando com nossas boas ações dedicadas aos dois, então doentes em vida, curados na alma.

Chegando em casa fui para a morada da outra sogra. Ivo tem alma de criança e seu olhar é um convite eterno para transformar a vida numa deliciosa brincadeira, seja ela qual for. E o convite surgiu:

— Vamos?

Fomos até a casa da vizinha que ganhou um filhote, uma bola de pelo com dentinhos de agulha desesperados por um dedão ou um nariz.

Bartô, ou Bartolomeu, chegou à casa de Baruque, um cãozinho de 11 anos, que se comportava como bom idoso, zeloso com o novato. Ele tinha a paciente certeza de que agora está responsável por um bebê peludo.

O cinza de Baruque se misturava com as cores branco, bege e marrom de Bartô, ávido por chinelos numa dança com tiras.

De repente, outro convite:

— Vamos conhecer minha mãe?

Então vi o amor materializado na forma de uma mãe de cama, colocada com extrema higiene em lençóis bem lavados, um ninho amoroso para o repouso da mãe, antiga boleira da rua, daquelas que fazia formas para casamentos.

Seu rosto fisgou todo meu foco naquele momento. Ela sorria para mim. Pegou em minhas mãos com uma pele aveludada, macia, que não consegui largar mais. Por quanto tempo? Que tempo?! Eu vivia o tocar daquele braço macio de forma eterna.

Como uma criança pura e curiosa, respondeu imediatamente ao meu pedido para descobrir as cores de minhas rosas tatuadas em meus braços. Pedia para tocá-las, ela passava os dedos devagar, como alguém que não queria ver pétalas caindo.

— Virei aqui um dia e ficarei pelada para mostrar todas para a senhora!

Ela continuava a sorrir, sem malícia e com ternura. A conturbação de vê-la doente foi acalmada pelo ambiente de cuidado, amor e dedicação. Ao final de minha visita eterna (não me perdoem pela redundância), ouvi sua voz:

— Você é linda, gostei de você!

Ganhei um abraço. O sorriso dela me contagiou, a ponto de querer revê-la todos os dias, pegar naquela mão macia e tocar seu braço novamente.

Andando pela rua, outro convite:

— Quer conhecer o ateliê da Tita?

Entrei em um mundo feito de vidro. Árvores de vidro, todas as formas de vidro, todas as cores de vidro. Meus olhos embaralhavam nesse arco-íris envidraçado e sentia uma onda de boa vibrações. Me perdi na cuba de vidro em forma de uma flor, cuja pétala caia delicadamente em uma cor serena.

Tita Selicani estava em seu laboratório fantástico com milhares de pecinhas de vidro colorido, os olhos não davam conta de tantos detalhes, puxava o foco aqui e ali para cores diferentes. Lembro de vidros lilás (ou lilases), palitos de vidro coloridos, garrafas, flores… Os olhos realmente não deram conta.

— Hoje é Dia das Crianças e estou aqui, fazendo o que faço desde criança, dizia ela mostrando os dedos cortados. A arte de Tita foi outra ligação a um ato de amor. Seu ateliê é fruto do amor por sua arte colorida, seu coração vibra em um vermelho de vidro. Alquimista dessa substância, ela contou que em algumas obras, sem querer deixava suas digitais irremovíveis.

“O que comprova que o corpo humano é poderoso”, disse. Tita citou acidentes de aviões que, depois de arderem em temperaturas a mais de mil graus ainda preservam digitais.

Enfim, Tita está numa missão. Suas obras brevemente serão vistas em Paris pela segunda vez, como convidada! Embaixo de algo, avistei uma foto preta e branca da Torre Eiffel, a mesma que citei ontem numa conversa descontraída na cama onde eu dizia que meu maior sonho é ficar embaixo dessa obra de arte monstruosa e sentir ali como sou pequena, aos pés da suntuosa senhora de ferro.

O sonho revelado foi arrematado com a reprise de Superman II, quando o homem da cueca vermelha mais poderosa do mundo salvou a repórter abelhuda grudada no elevador da torre parisiense. Nonsense, tão quanto meu desejo de olhar as partes íntimas da dama de ferro, como uma voyeur tresloucada.

Perguntei, como boa repórter, se poderia divulgar essa nova aventura de Tita e seu mundo de vidro. Vi a artista ajoelhada no chão, chorando e agradecendo. Para mim, um prazer. Para ela, um alívio antes do prazer.

A alquimista que transformou tudo em vidro não teve tempo de transformar sua façanha em texto.

Voltei para a rua com um novo sorriso, de gratidão. Contratada como sua assessora de imprensa, já recebi algo valioso: sua gratidão em forma de um sorriso de lágrimas e uma promessa:

— Me envie ainda hoje sua marca! Vou colocar no convite de minha exposição em Paris!

— Tita, não tenho uma marca!

— Crie, invente! Hoje é o Dia das Crianças! Tire uma foto de sua tatuagem de rosa, coloque seu nome. Vou colocá-la embaixo da Torre Eiffel e filmar para você ver que esteve lá, olhando ela lá de baixo!

A rua do mundo possui sorrisos, pessoas, vidas, histórias. Histórias prontas para serem conhecidas e reconhecidas, histórias prontas para serem recriadas!