Ensaio sobre a (nova) cegueira

Ela precisa costurar uma nova colcha para aquecer a alma. O local onde está tornou-se frio e já não sente mais as extremidades das pontas dos dedos, o início da insensibilidade começou a incomodar seus movimentos rotineiros.

Onde está faz frio. Quer e, mais do que isso, precisa entender o porquê de ter acordado glacial quando todas as estações embaralharam e os dias ficaram infernais.

A alma foi tomada por tempestades e instaurou-se novas condições climáticas. Fez inverno no rígido verão da primavera.

Sente arrepios onde todos derrubam suor. Estaria doente? Ou curada?

Procura por um remédio cuja bula aponte um diagnóstico, os sintomas e os efeitos colaterais. Ainda não sabe a dosagem ideal. Ainda não conhece mas procura por essa bula.

Por mais que em seu cotidiano e sua localização todos vivenciam o calor extremo encontra-se em pleno inverno. Ao final de uma onda de tremor, percebe algo sagrado.

Nesse novo estado, foi preciso ter novas visões. Dedica boa parte de seu tempo a tentar enxergar o que antes não via.

Tornou-se cega para recomeçar a enxergar. Agora percebe novos cheiros e movimentos sozinha.

A respiração adormecida de quem tinha contato abriu sua nova janela. A porta pode ser construída agora.

O vidro que ainda a separa do novo mundo revelou algumas pequenas vantagens.

Passou a ouvir o barulho das folhas ao vento, o cheiro da grama molhada e das roupas secas do varal, os olhares antes perdidos.

Sentimentos primitivos foram acordados novamente. Já começou a plantar e colher novos temperos para adaptar-se à uma nova alimentação, que acalma a alma.

Pensa em seus antigos símbolos e padrões. Extrai deles sua essência que já não se faz tão soberana.

Os materiais para a nova colcha estão espalhados mas ainda precisam ser selecionados para ser costurados,

Suas prioridades mudaram e deixaram de ser as mesmas da maioria. Sabe que existem outras exceções.

O aquecimento é necessário para poder continuar com suas novas observações cotidianas.

Sente-se cega para o antes porque começou a sentir o presente sem a antiga visão.

Sua atual motivação só lhe dá um caminho: a busca por novos. Sabe que uma hora domará o frio, sem a necessidade da nova colcha.

À chegada, ou talvez o retorno, apesar de tudo curiosamente lhe agrada. E ela acredita na busca porque sente fé. Como nunca sentiu antes.