Dedos Gélidos

Noite estrelada — Van Gogh

A escuridão era um conforto, estendeu seus braços e me ofereceu seu peito.
Mesmo a desconhecendo, senti como se tivéssemos um laço onde suas origens se perdem nas raízes da eternidade.
Era tudo tão escuro. Mas também, vindo da claridade, onde tudo era luz, lúcido e claro era certo que nada haveria de ser visto.
Mesmo na claridade, onde o sol irrompe do horizonte e penetra pra dentro de seu ser, havia uma barreira onde os raios eram bloqueados ali.
Dando um gosto confuso de solidão, de não pertencer a aquilo, de não pertencer a ninguém.
Ao pegar nos dedos gélidos senti como se fossemos mãe e filho. Aquela negritude, completa onde nada existia. Na dor ausente eu me identificava.
Mas com o decorrer do tempo como a pupila de um gato que se adapta para receber mais ou menos luz, meu olhar foi se adaptando a escuridão.
Aos poucos já pude ver nuances no escuro antes nunca vista. Começou com áreas mais negras que as outras, depois começou o movimento do que não era negro e a essa altura, havia figuras, informações e aquela escuridão primordial já se mostrou que de escuridão, só tinha o desconhecido.

No fim a luz interior começou a escurecer.