O menino, o mar

3. Boca cheia de sal

Depois de encarar o medo se entregou ao mar. Tudo foi questão de percepção. Foi recebido, reverenciado, tocado e beijado pelas ondas. Sentiu se pleno. Pertenceu. O lugar de onde veio e de onde nunca deveria sair. Mas como disse, foi tudo questão de percepção. Quando o ar deu lugar a água e seu corpo se perdeu no mais fundo azul, nada mais restava. Apenas a sensação de cair em espiral até a colisão.

Não que ela o queria para engrandecer, pois sua grandeza azul tornava a adição do iludido garoto diluído desprezível. Assim como a massa do elétron no átomo. Embriagado de sal não pode perceber a ardilosidade por trás daquele toque, daquele carinho. Quando percebeu já era tarde demais. Mas não estava fadado a morte, pois a sua utilidade era limitada. Apenas grandes homens merecem a morte.

Num breve acordar, seus olhos foram recebidos pelos raios de sol. Seu coração pulsava baixinho aliviado como se uma prece tivesse sido atendida. Sua pele antes fluida agora estava salgada. Sua respiração alternava entre desejos opostos. Pensamentos solvidos pela emoção. Seu corpo repousava na areia conselheira. No final, tudo era seu novamente. recordou que queria encontrar pérolas enquanto pertencia. Mal sabia que para que exista pérola, a pobre ostra deve ser triste. Talvez agora tivesse uma.

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