Eu, filho póstumo e proscrito.

  • Pai, sobre sua ida há um ano.
Tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.
Walter Hugo Mãe — A Máquina de Fazer Espanhóis.

1 — A descoberta

Estava fazendo sexo, uma transa muito boa por sinal, tudo muito democrático — 3 a 1 — Brincamos eu a Ana, três para ela e um para mim. Enquanto ela se enrola na coberta, levanto-me para fumar um cigarro, sou daqueles fumantes clichês que fumam depois do sexo. Olho as horas no celular: 2hr47minutos, é domingo de madrugada, temos o dia para relaxar. Dez chamadas perdidas. Amor, tem dez chamadas perdidas de um número estranho das 2hr30minutos no meu celular. Deixa disso, vem deitar comigo. Hoje penso que deveria ter ouvido, mas o número desconhecido toca novamente nas minhas mãos.

Rodrigo, é a Elisa, que Elisa? Elisa amiga do seu pai. Hã? Rodrigo, é a Pocket! Ah, oi Pocket… Eu preciso que você fique calmo Seu pai passou mal a noite e… ele não resistiu a chegar no hospital, Rodrigo, não resistiu, ela soluçava — A ligação ou meu cérebro deu uma cortada nessa hora — Meu pai o quê?! Rodrigo, s-e-u p-ai p-as-sou m-a-l e não res-is-tiu a-o che-gar no hos-pi-tal — De novo — Pocket, me explica que eu não tô entendendo. Rodrigo, seu pai faleceu.

A narrativa a partir de agora talvez deixe de fazer sentido, faz um ano e eu me lembro de tudo como se estivesse de uma ressaca de 365 dias. Sentei-me na cama, Ana já havia entendido, pois não se precisa de palavras para entender uma coisa dessas. Respondi: Ta, estou indo para São Paulo. O mudo do celular foi o mudo do mundo por alguns segundos, Agora poderia definir essa etapa da minha vida por “antes daquela transa” e “depois daquela transa”. A fumaça dos meus quatro cigarros seguidos andava em círculos. Era dia dezesseis de agosto, seis dias depois do meu aniversário, sete do dia dos pais. Podia ser outro pai de São Paulo com outro filho de Campinas, mas era eu. O karma de agosto já fazia parte da literatura e agora se prolongaria para a minha própria existência.

Todo meu círculo de nicotina havia virado uma seita das lembranças, lembrava-me de nossas faces guerreando e da porta de sua casa fazendo um barulho estridente atrás de mim quando a fechei, como se não bastasse você, ela também parecia estar me expulsando de lá. Nunca poderei sanar a curiosidade de saber o que aconteceu no dia seguinte quando você percebeu que eu havia ido embora. Podia ter sido às 2hr47 da manhã também, seria bom para história, mas não era, nesse dia me exilei às 4am. Como você bem sabe, não era minha lembrança mais recente sua, pai, mas era a que mais fazia barulho. Nós, os vivos, tratamos a única certeza da vida como surpresa e temos menos medo do que nos culpamos verdadeiramente dela, a morte.

A Ana me abraçou, algumas poesias não detêm jeito com as metáforas. Minha namorada é uma delas. Eu imagino que você esteja pensando três coisas, primeiro, porque você é muito prático “como eu vou pra São Paulo?”, segundo, como você está se sentindo, terceiro como fica a relação com a sua família. Ela estava certa. Você só esqueceu de uma e a mais óbvia: Quais as consequências simbólicas e metafóricas disso tudo. Entrei no banho, um primeiro choro, fazia muito tempo que eu não chorava. Tenho estado desde então em um estado contínuo de lacrimosidade. Ao sair do chuveiro com a Ana, meu celular vibrou, sua ex-mulher, minha mãe, me ligava em resposta da minha mensagem de entrar em contato urgentemente.

Atendi.

Por algum motivo bom para a narrativa minha mãe estava tendo insônia ás 2hr53 da manhã, basta dizer que ela não acreditou em mim, morrer parece piada quando esquecemos que morrer existe. Era como se eu estivesse passando um trote de mal gosto para ela. Depois do meu desespero convencê-la, apenas me disse com seu ar espiritualista, filho se proteja e ah… meus pêsames, sim, meus pêsames… vá se acostumando.

Nunca me acostumei.

2 — São Paulo

Decidiu-se que o quartel-general das mágoas antes do velório seria na casa de sua tia Elza, onde os quatros cantos da família se encontrariam: Franca, Campinas, Londrina e São Paulo. Felizmente ou não, fui o primeiro a chegar. Tia Elza nos abriu a porta com um sorriso no rosto — segundo a minha mãe é este um verdadeiro sorriso de espírita que não se abala com a morte — este sorriso regado a muito bolo, cafezinho e podem usar o quarto para descansar, viu? Usamos. Apossei-me do quarto como um aposento presidencial da tristeza. Ana se virou de frente, deu-me um beijo, Bonito, escuta, se você precisar de qualquer coisa que eu possa fazer, me acorda. Acordei-a diversas vezes apenas para abraça-la e conseguir dormir um pouco no pouco de lar que ali ela representava.

Minha avó, meus tios, todos os primos chegariam em pouco tempo trazendo lembranças interestaduais da minha ruptura com você, que foi, ao mesmo tempo, rompimento com eles também. E agora? E agora que entre eu e minha família só havia um filho póstumo? Para mim, pior que a morte presente, apenas ser desacreditado na minha tristeza por ela. Ouvi vozes distantes três anos do tempo e levantei, não houve um momento desse dia que meu coração não estivesse em disparos. Minha tia, Mayara, bate na porta, abri. E ali todos estavam me encarando, e foi aí que cada um me abraçou solenemente e foi aí que eu entendi: Somo todos póstumos de Wellington Pinheiro Lopes.

De repente o corredor onde todos estavam se alarga, chega uma figura em véu negro, minha avó, que é vaidosa, decidiu fazer o papel da morte ela mesma. Como se ela mesma pudesse te carregar e como mãe te entregar a mãe de todos, Maria. Ela me abraça como se abraçasse seu último legado em terra. Deus me levou seu paizinho embora, não me abandona jamais, não fica longe de mim, nos desaba. Pelo menos eu, mesmo que precoce, ainda estava dentro da cronologia vital. Os dez mandamentos deveriam dispor sobre que nenhuma mãe devesse enterrar seu filho, só assim eu acreditaria em deus, se você o conheceu, dê essa ideia para ele do seu querido filho.

Das criaturas que sofrem, a mais pequena era a que eu mais simpatizava. Sua sobrinha de nove anos, Yasmim, coisa que eu mais amo no mundo, não conseguia chorar como eu — o choro é o senso comum dos lutos — mas pelo menos tinha a coragem e a licença poética da fragilidade. Muito astuta, a Yasmim ficou entre eu e a Vó, em um círculo de abraços, como se dependesse dela conter toda nossa tristeza. Ao mesmo tempo, na cabeça da minha prima, como você morreu a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e do nada, isso poderia acontecer com todos ali dentro, na verdade ela estava certa, mas não vamos contar isso para uma criança. Depois de muitas relutâncias infantis ao meu cigarro, sanduíches feitos, manhas e balanço, ela entendeu que para lidar com a sua morte eu precisava descansar e só então consegui dormir, ouvindo um pouco as vozes de fora.

Mas o corpo vai ser liberado ás quatro ou às cinco?

Tem que pagar o fiscal, em? Se não pagar eles não liberam.

*Bate na porta

Rodrigo, a gente sai daqui a meia hora, viu?

Mas é a cinco ou às seis?

*meia hora depois

Rodrigo, daqui a meia hora a gente sai

Mas não era às quatro?

Rodrigo, Ana, vem comer alguma coisa que daqui a pouco a gente sai

Sempre há uma hora descontraída das sensações. Você me expulsou de casa por divergências políticas e morais. Coincidentemente, o dia que você morreu foi o de uma das maiores manifestações a favor do impeachment da presidenta, você não viveu para ver o golpe, acho bom, talvez tivesse me expulsado de casa de novo. Seu corpo estava no IML da Av. Paulista, quando saí de meus de meus aposentos, sua família discutia de quem era a culpa de seu corpo estar atrasado para o velório: Do Haddad, prefeito de São Paulo, por não ter construído mais IMLs, ou dos manifestantes golpistas. Acho que foi a primeira vez no dia que eu conseguiria esboçar um sorriso, nem na sua morte consegui fugir da política.

3 — Velório, minha bastilha subjetiva

O maior frio que eu senti na minha vida foi durante o seu velório. Eu já estava todo vazio por dentro e o vento gélido me atravessava feito beeruta em aeroporto. Além de você, todo o calor do mundo havia sumido naquele 16 de agosto, mesmo os abraços de consolo não ajudavam muito. Durante eles, eu não lembro em que exato momento ali eu deixei de ser Rodrigo Cruz Lopes e passei a ser visto como um espectro ambulante seu. “Olha só como eles se parecem”. Para os outros, eu não era o Rodrigo em luto, eu era um resquício de Wellington a quem se podia depositar o que não foi resolvido. A Denise, sua viúva, havia ido dormir depois de resolver as burocracias e todos os pêsames ficaram para mim, como pesam os tais pêsames. A Ana disse que eu cumprimentava as pessoas mecanicamente com um tapinha nas costas como se esperasse algo, da mesma maneira que elas me diziam as mesmas coisas como um mantra pré-definido, “Vai ficar tudo bem!”, “você e seu pai se parecem muito”, “Qualquer ajuda é só falar comigo”, todas vindas de pessoas que eu não lembrava, não conhecia ou não via há anos. Parece-me que este ritual sádico serve para velar a alma dos mortos a partir da tortura da dos vivos.

Não conseguia chorar, mas parecia que involuntariamente uma hora ou outra eu explodiria e faria um escândalo, transformar aqueles sentimentos todos em uma torre de Babel, fazer chegar aos céus a minha angústia para fazer com que os deuses descessem. Eu queria muito a minha mãe, eu havia decidido de maneira um pouco tosca que não entraria para ver o caixão sem ela, lembrava-me que no velório da sua vó Bia, foi ver o corpo que me fez desabar. Tinha medo de me perder de mim. Em compensação, o Celso, meu melhor amigo, chegou, abraçou-me mesmo sendo alérgico ao cheiro de nicotina. Foi a maior prova de amor.

Ele chegou com sua irmã e mãe que ficaram um pouco, eu não sei como me portar em velórios. Bom, é simples, tem o momento choro, o momento catarse e o momento descontração, que geralmente vem atrelado ao momento comida, eu te aviso quando for cada um deles — Algumas pessoas vieram me abraçar — Como ta a sua religiosidade hoje? Me diz você, que é mais cético e sonhou que seu pai morreu — ele havia me contado antes — Digamos que deus ganhou um pontinho.

Seu velório foi o cenário perfeito para eu sair do armário como fumante, você mesmo nunca ficou sabendo disso. Tive o prazer de fumar um cigarro com a Pocket, que me abraçou e me contou que ela também fora exilada da sua casa aos berros e retornou, como eu, sem um pedido de desculpas. Segurou nas minhas mãos, fitou-me de baixo para cima, seu pai te amava muito. Brigava comigo por você ter ido fazer ciências sociais — Riu. Se amor por mim foi afirmado por muitas pessoas, mas nenhuma delas me convenceu o suficiente como você poderia.

Minha mãe e minha avó chegaram, atrasadas e brigando, como sempre. Sua ex-esposa estava feito um furacão, que burrice a minha achar que ela iria ser indiferente perante a você. Que burrice a minha achar que ela poderia estar ali apenas para me consolar. Não tinha remorso, tinha ódio, para ela você havia desistido da vida. É engraçado o mundo moderno, as culpas, divina e individual se misturam na hora da morte. Abraçou-me, entrou para ver o caixão, ignorando a minha triste covardia, voltou um monstro de energia, tratou o ódio dela como se fosse meu. Não. Peguei-a pela mão, estava na hora, ninguém ia me dar a coragem que eu procurava. Cheguei a sala onde seu corpo habitava temporariamente, dentro de um caixão de madeira fechado, suspenso por um suporte de metal com uma janela de vidro em seu rosto — não entendi até agora porquê te enclausuraram, aproximei-me do vidro. Era perceptível que sua metafísica já havia se libertado, a imagem de sua matéria não me remeteu a absolutamente nada, contudo, hoje, suas fotos, suas gravações e mensagens estão todas deturpadas a partir dela, todas elas subpostas por aquele momento.

Fomos eu e minha mãe para trás da sala do velório, em uma espécie de jardim, onde insetos de cemitério saídos dos desenhos de beetlejuice brincam. O tom da conversa foi de briga, a Ana e o Celso estavam lá. Lembro-me pouco do motivo, tratava-se da minha mãe achar que o ódio dela também era o meu. Não era. Também de todas as pessoas, não era ela que eu queria que me depositasse as expectativas de como eu deveria me sentir. Eu gritei e entre o grito e as lágrimas nasceu um pequeno monstro de luto que eu deixei de carregar no peito e começara a dominar o mundo, a melancolia agora é por conta da casa.

Depois de conversar com a minha mãe, a tia perguntou onde estava a Yasmim, logo depois meu tio, com a mesma pergunta e minha prima. A questão era, se nenhuma das pessoas que normalmente ficam com ela estão com ela, onde estava a criança. Não precisou muito para acha-la, estava com a Ana e o Celso. Meus três guarda-costas emocionais estavam brincando de melissinha. Celso, eu disse, Vamos comer? Vamos. Ri de novo, mais leve, o monstro agora me fazia companhia ao lado.

4 — Enterro

Mayara me cutucou umas 8hr, falando como eu e a Ana dormíamos bonitinhos naquele banco de couro do cemitério municipal, seu pai será enterrado ás 10am, eu trouxe um chocolate quente para vocês, Celso dormia no outro banco. Essa cena até parece de um domingo normal. Vovó ficou do lado do caixão a noite inteira, nem sei se ela dormiu, ela e minha outra avó ficaram fofocando na madrugada. Preferi não ir para casa, seria como se o narrador sumisse e as páginas de um livro ficassem em branco.

Na noite anterior, meu primo William havia passado a noite inteira me mimando, passava de um lado e me oferecia água, quando voltava de outro me vinha com chocolates. Ele conversava com minha mãe, depois ela me contou que ele estava desejando muito que eu voltasse pra Londrina, mas e a briga dele com a família, ela perguntou, não existe mais, Mel, não existe mais. A partir daquele momento, a morte não garantiria mais o espaço para a picuinha dos vivos. Mais ou menos.

Os tios me chamaram para a cerimônia que seria antes do enterro de seu corpo. Uma multidão se aglomerava ao redor de seu caixão, quando apareci de mãos dadas com Ana, minha visão era de todas as pessoas abrindo uma claraboia para eu passar, pensavam que eu, como o último pedaço vivo da sua alma, deveria ter passaporte VIP para aquele momento mórbido. Eu não rezei o pai nosso coletivamente com o resto das pessoas em luto, eu sei que você não liga, sempre foi acostumado com a minha resistência muda a momentos religiosos, afinal, você mesmo fazia churrasco em sexta-feira da paixão, não cometi um pecado tão grande assim.

Diferente do dia anterior, fazia sol, dias felizes em momentos como esse geram um descompasso entre nosso coração e o mundo. O caixão passou a ser preparado para que sua residência final à sete palmos fosse concluída. O titio, o William e o Marcius carregaram seu caixão para o carro dos coveiros. Ana e Celso colocaram suas mãos, cada uma em um ombro e fomos todos seguindo na direção do jazigo da família. Mamãe conversava com alguém atrás de mim, Monique ia a frente com sua mãe, Simone, as duas de braços dados e óculos escuros. Naquele momento eu não diferenciava nenhum som e a minha volta as coisas desfocaram, era como se eu, o Celso e a Ana andássemos em uma neblina ensolarada enquanto na minha cabeça um vinil quebrado embaralhava Ney Matogrosso com Fernando Pessoa:

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento

NÃO: Não quero nada.

A tempo

Já disse que não quero nada.

Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho e lembrei de um tempo

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Porque o passado me traz uma lembrança do tempo que eu era criança.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

que mal fiz eu aos deuses todos?

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

do escuro eu vi ao infinito sem presente, passado ou futuro

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Senti um abraço forte e já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim que não tem fim.

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

De repente a gente vê que perdeu ou está… perdendo alguma coisa

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

morna e ingênua que vai ficando no caminho.

Enquanto seu caixão descia e eu soluçava meus prantos pela primeira vez em anos Ana me beijava e abraçava meus cacos na tentativa de manter meus pedaços intactos. Na descida encontrei com Denise, que em um ato de desespero, me abraçou. Pocket disse que ela sabe que errou comigo, mas isso não vale à pena dizer aqui. Em vida você não tentou resolver nossos conflitos, não é morto que vai fazê-lo. Depois de um ano sei, que na verdade o ato impulsivo de sua viúva foi decorrente de uma mudança de perspectiva, se antes ela tinha raiva, pois eu me parecia muito com a minha mãe, agora, como para todos os outros, eu era o mais próximo de uma reencarnação.

5 — Prólogo

Primeiro vieram os pesadelos, e a minha incapacidade de ficar sozinho ou fazer qualquer coisa muito simples: cozinhar, dormir, comer, andar. Para uma pessoa como eu, pedir ajuda dos outros foi um dos conselhos mais sofridos que sua morte me trouxe, só foi depois disso que eu entendi por que as pessoas te desejam tanta força quando falece um ente querido. Descobri que a burocracia do Estado não espera o tempo da tristeza, foram seis longos meses lidando com as duas coisas que você deixou pra mim: parte de seus bens e a teimosia da Denise. Foi desse modo que resignação virou a palavra da vez. Aceitar que existe apenas uma não explicação sobre uma coisa que é grande demais para a estúpida cognição humana. Nada explica para além de uma metafísica desacreditada por que se dá e arranca a esperança de ter um pai ao mesmo tempo e com a mesma força que se tira um marido e, anacronicamente, um filho. Passados três semanas, eu cheguei a esquecer sua voz e para recuperá-la salvei o único áudio do whatsapp que você me mandou. Você visitou-me em sonho todos os dias durante três meses e por esses tempos ainda anda passando para dizer oi e parece que sempre passará, pois a única coisa que permanece é a metafísica, seus restos em cada um dos que ficou. Essa é a única e verdadeira memória póstuma.

Like what you read? Give Rodrigo Cruz a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.