música aos vivos

música é sempre ao vivo. toda vez que a gente quer ouvir uma música, ela tem que soar, e decorrer no tempo (ou toda vez que a gente quer que mais alguém ouça, ou ouvir junto — já que a música pode também tocar só na nossa cabeça; mas aí já é outro caso).

no último mês (pouco mais, pouco menos) tive o prazer de fazer várias vezes uma das coisas que mais me fazem bem e me alimentam nesta vida: tocar ao vivo. mais que isso: de tocar em espaços, situações, para e com pessoas diferentes a cada vez.

toquei na semana literária de uma escola particular (Escola Nova), para perto de uma centena de alunos e alunas receptivos e animados; toquei em duas escolas públicas ocupadas (André Maurois, municipal, e no CAp da UERJ), em eventos muito distintos, sobretudo no envolvimento e participação de alunos, professores e apoiadores das ocupações — o que me permitiu refletir mais sobre estas; e no Sesc Rio Preto, no interior de São Paulo, numa intervenção do CEP 20.000 capitaneada por Chacal, com mais Breno Góes e Bernardo Valença, para um público de curiosos que se aventuraram no frio de sexta à noite para ver um show de poesia.

nesse, aliás, supostamente éramos dois músicos e dois poetas; todavia, em cima do palco, sozinhos ou interagindo em duplas, trios ou os quatro de uma vez, com muito improviso, fomos todos atores? performers, com certeza; capazes de encontrar espaços e costurar harmonias em tempo real. e se ao vivo a distinção entre poetas e músicos se diluiu, o que dizer da distinção entre poesia e música?

no Festival OcupaCAp, depois de mim, se apresentou a amiga Flávia Muniz, cujas criações — e apresentações — acompanho há mais de 10 anos; ao longo desse tempo, vejo com cada vez mais gosto seus shows, sozinha ou com banda. assim foi também nesse dia e, depois de tocarmos, conversando com amigos e pessoas que nos assistiram, concluí que gosto de vê-la porque ela é muito ela mesma, em suas composições e no palco.

constatei o mesmo em São José do Rio Preto, tocando, assistindo ou interagindo com Chacal, Breno e Bernardo: somos pessoas ali, em carne e osso e ideias e sons, nos comunicando, ou tentando nos comunicar, com quem se dispõe a essa comunicação, da maneira que o ambiente e a situação permitirem. me dá prazer fazer e ver outros fazerem isso, porque é simples, é generoso, e é difícil. leva tempo pra conseguir ser você mesmo no palco (fora dele também, mas aí já é outra história).

sigo aprendendo. em todos esses eventos, aprendi muito — nos das três escolas, lições e reflexões para além do palco e da performance, sobre as quais pretendo escrever mais detidamente em outro texto. essas quatro apresentações bem diversas tiveram um forte traço em comum: uma tentativa de estar, verdadeiramente, no momento presente, estabelecendo uma comunicação real com quem estivesse ali — e se dispusesse a tal.

isso se traduziu numa abertura ao improviso, fosse em falas durante as músicas, na escolha/alteração momentânea do repertório (com a inclusão de muitas canções novas/inéditas), ou mesmo na interação direta com outras pessoas, no palco ou na plateia. em todas as ocasiões, a receptividade de uma parte maior ou menor dos presentes me animou a seguir nesse caminho; a sensação de estarmos, por instantes que fossem, num mesmo tempo-espaço, e a instantânea, poderosa alegria que esses encontros proporcionam. aqueles momentos em que, ao vivo, tudo vira música.

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[a seguir, alguns registros e os setlists das duas últimas apresentações — ou a tentativa de reconstituí-los, já que em ambas acabei mudando o roteiro, ou mesmo escolhendo as músicas na hora, de uma lista com dezenas de possibilidades.]

Festival OcupaCAp (4/06/2016)

  1. crise na gávea [Dimitri BR (inédita/sem gravação)]
  2. cuide da sua vida [Dimitri BR (inédita/sem gravação)]
  3. o interminável desfile do homem branco de terno e gravata com deus a família e a propriedade [Dimitri BR (vídeo caseiro)]
  4. porrada [Titãs]
  5. gilberto ministro gil da cultura [Dimitri BR (vídeo caseiro)]
  6. omnibus [Dimitri BR (gravando! lançamento no próximo diahum)]
  7. você e a brisa [Dimitri BR + Bruna Beber (com citações a John Cage e acabou chorare [Novos Baianos] — registrada em vídeo pela Flávia)

Intervenção CEP no Sesc Rio Preto (10/06/2016)

[as músicas foram apresentadas em blocos, alternadamente com as performances dos outros parceiros, conforme a dinâmica que montamos pro espetáculo: 1, 2+3+4, 5, 6+7+8]

  1. nosso erro é o sucesso [Dimitri BR (composta e apresentada durante a turnê da Bliss não tem Bis na Bahia, em 2014; sem gravação)]
  2. song for stella
  3. de quem é a voz?
  4. quando cai a noite
  5. omnibus [Dimitri BR]+ cidade [texto de/com Chacal]
  6. microfonia
  7. quem vai querer? [Dimitri BR (sem gravação)]
  8. mir
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